
Tygers Of Pan Tang – “Ritual” (2019)
Mighty Music | Hellion Records Brazil
#HeavyMetal
Para fãs de: Accept, Picture, Praying Mantis
Nota: 10
Clássicos a parte, a formação atual é a melhor que o Tygers of Pan Tang já teve. Ouso também afirmar que seus dois últimos trabalhos — o autointitulado de 2016 e este “Ritual” — talvez sejam os mais legais da extensa discografia da banda. Outrora liderança de um respeitável segundo escalão da New Wave of British Heavy Metal, o Tygers não se acomoda com o merecido status e meio que liga o foda-se para o fato de o ouvinte da vertente mais tradicional do metal ser, por excelência, alguém que parou no tempo, totalmente avesso a mudanças, seja na forma, seja no conteúdo — digo “meio” porque riffs como o de “Damn You!” fazem a veia saudosista pulsar de emoção e discursos prontos como o de “Não se faz mais rock como antigamente” chegam a arranhar a garganta.
É claro que a atualização no som não se dá num disparate, tampouco de maneira aleatória. A música segue enraizada no padrão inglês estabelecido quatro décadas atrás, mas adquire contornos mais modernos sobretudo graças à contribuição do prodígio Micky Crystal, que a exemplo de como a entrada de Richie Faulkner revitalizou em incontáveis aspectos o Judas Priest, parece ser o maior responsável pelo rejuvenescimento do Tygers. A maneira como sua guitarra conduz o repertório não deixa margem para dúvidas. Mas se uma andorinha só não faz verão, o mesmo se aplica aos tigres e, ao lado de Crystal, os talentos individuais de Iacopo Meille (vocais), Gav Gray (baixo), Craig Ellis (bateria) e do guitarrista e comandante em chefe Robb Weir ajudam a compor o frondoso panorama de “Ritual”.
Por mais que o monocromatismo da capa seja o indício de uma abordagem conservadora, não nos esqueçamos do Iron Maiden, em cujo “The Book of Souls” (2016), na contramão da embalagem, fornece uma coleção diversificada, lírica e musicalmente interessantíssima, “Ritual” vai do uso do talkbox em “Rescue Me” ao trem desgovernado que é “Raise Some Hell”. Contornos épicos se manifestam na abertura “Worlds Apart” e em “Spoils of War”, cuja atmosfera é capaz de transportar o ouvinte diretamente para o front de batalha.
E já que falamos de letras, a de “White Lines”, primeiro single e videoclipe de “Ritual”, fala sobre uma vida de imprudências regida pelo vício em cocaína: “Spent every weekend at a party / Can’t believe the things I’ve done”. Da confusão — “Is there light at the end of this journey?” —, à conclusão no melhor esquema “quem avisa amigo é”: “You gotta find a way to ignore it”. Dois lados de uma mesma moeda baladeira estão presentes na lamentosa “Words Cut Like Knives” e em “Love Will Find a Way”, uma incursão ao hard rock de padrão europeu sem a bênção pasteurizada de uma Frontiers. A faixa extra é um presente para a velha guarda: “Don’t Touch Me There”, o single que deu início a tudo, regravado quarenta anos depois, com pegada semelhante à das apresentações ao vivo de hoje em dia.
Com o relógio prestes a bater uma hora de música rolando, “Ritual” consegue também a façanha de não se tornar desinteressante ou cansativo conforme o tempo vai passando e faixas com média de cinco minutos de duração vão se sucedendo. Aliás, o impulso imediato é botar o CD para rolar novamente, e assim por diante. Os tigres andaram afiando presas e garras, mordem e evisceram com apetite primal, e oferecem um competidor digno do título de disco de heavy metal do ano de 2019. Quem diria que, aos 45 do segundo tempo, ainda haveria jogo?
Marcelo Vieira





