
Rotting Christ – “Aealo” (2010) (Relançamento 2020)
Cold Art Industry Records 2.0
#MelodicBlackMetal
Para fãs de: Moonspell, Samael, Thou Art Lord
Nota: 9,5
O Rotting Christ nunca foi a típica horda de Black Metal. Trilhando seu próprio caminho ao longo dos anos, os gregos exploraram diferentes gêneros, do Grindcore a um Black mais melódico, passando pelo Gothic e pelo Black old school. A única constante era a temática predominantemente anticristã, simpatizante do ocultismo e afeita à mitologia de seu país de origem… até o lançamento de “Aealo”, em 25 de fevereiro de 2010, obra que na mesma medida que expande os horizontes líricos da banda, coloca um ponto final em sua melhor fase musical — na minha opinião —, iniciada em 2002 com “Genesis”.
Conceitual, o décimo álbum de estúdio do Rotting Christ fala sobre as diferentes emoções pelas quais um guerreiro passa no campo de batalha; sentimentos como a raiva, o medo, a tristeza e tantos outros se manifestam ao longo das onze faixas que compõem o trabalho. A fim de aprofundar o ouvinte nesse cenário de guerra e morte — a palavra aealo traduzida do grego antigo ΕΑΛΩ significa debulha, catástrofe ou destruição —, o vocalista e principal compositor da banda, Sakis Tolis, fingiu que estava ele mesmo no meio de um confronto, dando vazão a toda a ira que vinha fervilhando dentro de si; a inquietude típica de um artista que enquanto houver novos mundos a serem explorados, ele explorará.
Mas de modo algum Sakis está sozinho nessa jornada. Aliás, nunca antes um disco do Rotting Christ teve tantos convidados, entre eles a soprano Diamanda Galás, em performance arrebatadora na derradeira “Orders from the Dead” — inspirada no genocídio dos gregos pônticos pelos turcos otomanos antes e durante a Primeira Guerra Mundial —, e o Pleiades, coral tradicional da região de Épiro, que comparece em nada menos que metade do repertório, tornando “Aealo” ainda mais interessante, musicalmente diversificado e culturalmente enraizado na tradição grega.
Apesar das pinceladas étnicas, o alicerce sonoro ainda é composto por vigas metálicas de guitarras — solos curtos, quase imperceptíveis, mas que estão lá —, bateria em andamento de médio a rápido e o urro característico/inglês de quem matou aula de um dos maiores intérpretes do Black Metal. “A ideia é que você ao terminar de ouvir o álbum se sinta aliviado, como se tivesse escapado das provações que apenas uma guerra pode proporcionar”, disse Sakis na ocasião do lançamento. A sensação é realmente essa, no melhor clima de sinestesia, é música que você sente na pele, nas vísceras, nas veias; música que você mastiga, sente o cheiro e o peso nos ombros.
Fora do alcance do público há bastante tempo, “Aealo” volta ao mercado em edição caprichadíssima — que poderia até se passar por edição comemorativa de dez anos de lançamento — assinada pela Cold Art Industry, no formato caixa acrílica com slipcase fechado — trazendo uma arte até então exclusiva da versão em lata europeia (veja acima) — e encarte envernizados, além de um pôster dupla-face. Pense num dinheiro bem investido… tem coisas que só alguns selos nacionais fazem por você, colecionador. Valorize. Reconheça. Apoie.
Marcelo Vieira





