Anthares – “Espetáculo Sangrento” (2025)
Dies Irae Records
#ThrashMetal
Para fãs de: Korzus, MX, Taurus
Texto por Matheus “Mu” Silva
Nota: 9,5
Dez anos após o lançamento de seu segundo disco de estúdio, O Caos da Razão (2015), a lendária banda paulistana de Thrash Metal Anthares finalmente lança seu aguardado terceiro álbum, Espetáculo Sangrento (2025), via Dies Irae Records — selo que também foi responsável pelo recente relançamento do segundo disco da banda.
Um dos pilares do Thrash Metal nacional, formado em 1984 em São Paulo/SP, o Anthares foi uma das bandas pioneiras do estilo no país. Após duas demos que se esgotaram rapidamente no underground, o grupo finalmente lançou seu álbum de estreia, o seminal clássico No Limite da Força, em 1987. Com uma gravação crua, por vezes até um tanto primitiva, e letras em português, eles cravaram seu nome na história da música pesada brasileira com um álbum veloz, agressivo e repleto de refrães que ainda são cantados até hoje — muito graças aos vocais marcantes de Henrique “Poço” e ao trabalho instrumental visceral. A banda seguiu apenas com esse disco e mais duas demos posteriores até seu fim precoce em 1996, motivado pelo declínio do metal na época e pelas constantes mudanças de formação.
O retorno efetivo do Anthares aconteceu apenas em 2008, quando Diego Nogueira — vocalista até hoje — assumiu a missão de reerguer a banda junto de alguns de seus membros mais antigos. O esforço rendeu frutos com o lançamento de O Caos da Razão (2015), 28 anos após o álbum de estreia. Agora, celebrando seu terceiro disco de estúdio em 41 anos de carreira, Espetáculo Sangrento apresenta a formação atual com Diego (vocal), Pardal (baixo e único membro original), Eduardo Topperman e Maurício (guitarristas das demos dos anos 90) e a estreia do baterista Edu Nicolini, que já acompanha a banda há sete anos.
“Cicatrizes”, faixa que abre o álbum e primeiro single divulgado, é sensacional: Thrash Metal direto, seco, com ótima produção e um refrão viciante, cantado em coro, que certamente funcionará muito bem ao vivo. O delay aplicado à voz de Diego dá um toque especial para quem aprecia o famoso “vocal de túnel”. “Extremismo Sagrado” mantém a pegada, com o bate-estaca incessante aliado a momentos de groove conduzidos por Edu — Thrash em seu estado mais puro. “Manicômio” é perfeita para os thrashers que gostam de uma boa roda de mosh, com riffs pegajosos que instigam o público a bater cabeça e se digladiar no meio da execução, além de trazer um ótimo solo de guitarra. “Abandonado pela Pátria” é mais um momento de fúria brutal, mantendo o tom crítico das letras do disco. “Retratos da Miséria” merece destaque especial pelo trabalho destruidor de Edu na bateria, fechando a primeira metade do álbum com os dois pés na porta.
Se na primeira parte o Anthares destila toda a brutalidade possível, “Escravos da Adoração” inicia com um trecho mais calmo e bem trabalhado nas guitarras, remetendo ao Testament em sua fase mais melódica. Mas a calmaria dura pouco: logo a banda retoma seu rolo compressor, o que se mantém em “Conservadorismo”, que começa com um poderoso agudo de Diego e se desenvolve de forma cortante e intensa. Cantar em português potencializa o impacto das letras — diretas e incisivas — sendo algo assimilado imediatamente pelo ouvinte, para alegria de uns e incômodo de outros. “Ataque Legítimo”, primeira música lançada pela atual formação ainda na pandemia, segue sendo a faixa mais brutal já gravada pelo Anthares: três minutos de riffs cortantes, blast beats e pura agressividade. Sem dúvida, é não só o ponto alto do disco, como uma das melhores da história da banda. “Não Param as Guerras” e “Suicídio Coletivo” encerram o trabalho, com esta última trazendo novamente blast beats — menos intensos do que em “Ataque Legítimo”, mas ainda assim mantendo a força e a proposta do álbum.
Espetáculo Sangrento é um excelente disco. Mesmo com uma discografia enxuta para uma banda tão longeva, cada lançamento do Anthares se mostra marcante em seu respectivo momento. Existe uma expressão em inglês, third time’s a charm (“a terceira vez é um encanto”), que se encaixa perfeitamente aqui, representando a maturidade musical presente no trabalho. Muito bem produzido, com letras contundentes e um instrumental matador, este é certamente um dos melhores discos do ano e mais um marco na história do Thrash Metal brasileiro.





