
Banda principal: Dee Snider
Banda de abertura: Secret Society
Local: Tom Brasil, São Paulo/SP
Data: 23/03/2019
Produção: Top Link Music
Por Wallace Magri
Fotos por Wallace Magri e Leandro Cherutti (MetalConcerts)
Hoje era dia de festa para os quarentões e cinquentões, que conheceram o Heavy Metal na década de 80, celebrarem o passado e receberem na capital paulista um dos grandes ícones daquela época, Dee Snider, único ser humano capaz de aparecer em horário nobre, domingo à noite, na Rede Globo, em pleno Fantástico, o show da vida, vestido de travesti e apavorar uma família religiosa norte-americana na hora da refeição, bradando “We’re Not Gonna Take It”, em 1984, em épocas de ditadura militar aqui no Brasil!
O tempo passou, mas o sexagenário Dee continua relevante e não descansou sua cabeleira loira encaracolada nos sucessos do passado, tendo lançado em 2018 um álbum que é um petardo, contando com Jamey Jasta, do Hatebreed, na produção, intitulado “For The Love Of Metal”.
E foi justamente para promover este ótimo trabalho, ao lado dos velhos hits do Twisted Sister, que Dee Snider veio à América Latina juntamente com a banda de apoio composta pelos irmãos Charlie Bellmore (guitarra) e Nick Bellmore (bateria), Nick Petrino (guitarra) e Russell Pzutto (baixo), entregando um show curto e memorável aos poucos presentes no Tom Brasil no sábado à noite.
Para prolongar a experiência dos presentes na confortável casa de espetáculos localizada na zona sul de São Paulo e aproveitar a chegada do pessoal para oferecer merchandising de boa qualidade, a produção providenciou um show de abertura, da desconhecida banda curitibana Secret Society, composta por Guto Diaz (baixo e vocal), Fabiano Cavassin (guitarra) e Orlando Custódio (bateria) e que, apesar de pouco mais de 200 pessoas na assistência e do som da banda parecer distante do rock cru com toques de heavy metal da banda principal, entregou uma apresentação muito profissional e consistente, com boa pegada instrumental e cuidado com a iluminação e cenografia, especialmente no que se refere às imagens de fundo de palco, combinando com o clima gótico e post-punk que se nota nas composições da banda, que passeiam por sonoridades na linha do The Sisters Of Mercy, Bauhaus, The Mission e, por vezes, algo mais Hard, como se ouve na primeira fase do The Cult, com destaque para as músicas “Beyond The Gates”, “Fields Of Glass” e “The Architecture Of Melancholie”.
Setlist Secret Society:
Beyond The Gates
Fields Of Glass
Mefistofaustian Transluciferation (A Map For A Lonely Man)
The Final Cut
Rites Of Fire
Rubicon
Architecture Of Melancholy
Cry For Love (Iggy Pop)
Sem muito atraso e com produção de palco simples, contando com um logo preto e branco da banda Dee Snider no telão, a banda de apoio entra no palco e logo todos ovacionam a chegada da grande estrela da noite, Dee Snider ele mesmo, com a cabeleira amarrada em um rabo de cavalo, óculos escuros redondos, camiseta preta com a Britney Spears da depressão estampada em branco e todo o carisma que os Deuses do Metal lhe concederam para esta sua missão aqui na Terra.
“Exciter” do Judas Priest nos PA’s e o show começa com a execução de duas músicas do novo álbum, “Lies Are A Business” e “Tommorow’s no Concern”, demonstrando que o trabalho atual de sua banda solo é potente e funciona muito bem ao vivo, especialmente quando a equalização do som está em boas mãos e o público presente parece conhecer o material novo e o recebe cantando em coro o refrão, como em “Tommorow’s…”.
Mas o público, composto basicamente de ‘coroões’ e alguns ‘trintões’, pelo que pude perceber, realmente começou a incendiar com a execução de “You Can’t Stop Rock And Roll” com seu refrão inconfundível. E o show prossegue alternando músicas do último álbum e grandes clássicos dos anos 80, abrangendo os 3 primeiros álbuns do Twisted Sister, “Under The Blade” (1982), “You Can’t Stop Rock And Roll” (1983) e “Stay Hungry” (1984).
A banda de apoio se mostra muito à vontade executando os velhos hits que até hoje ocupam a programação das rádios rock e as playlists sugeridas pelo Spotify e Youtube, tem excelente presença de palco, e parecem aprender com o velho Dee como domar e hipnotizar uma audiência, sendo que durante a execução de “I Wanna Rock”, ele chega a virar para a rapaziada da banda e dizer: “parem de tocar, vejam isso…” e pede para o público responder em coro “Rock” para a chamada de “I Wanna Rock”. Realmente, algo mágico circula no ar, e Dee Snider sabe como fazer esta mágica acontecer.
Há diversos momentos especiais para citar (inclusive a execução de “Ready To Fall”, do Widowmaker), mas ficarei com três deles, para não alongar excessivamente a resenha: a execução sombria, com iluminação vermelha infernal para criar o clima perfeito em “Burn In Hell” quando vem à tona a face negra do Twisted Sister, ficando fácil perceber por que todo banger que se prese venera esta música, desde nego que curte Glam a cultuadores do Black Metal; “The Price”, música mais emotiva da noite e que ganhou um toque especial com a projeção no telão das imagens de Ronnie James Dio, Bon Scott, Clive Burr, Eric Carr e outros tantos grandes nomes do Rock/Metal que nos deixaram: foi de arrepiar, nunca tinha presenciado homenagem tão sincera e emocionante como esta, que termina com a imagem de AJ Pero, falecido em 2015. Obrigado por esta celebração à nossa história e por trazer a energia desses heróis a este show, Dee Snider!
E, por fim, o último destaque é bem pessoal: não consigo me controlar quando aquela ‘guitarrinha’ arranhada começa a soar no início de “Under The Blade”; ela sempre me faz voltar para a sala da casa de meus pais, em 85, eu colocando o LP para girar, descendo a agulha, tratando de aumentar o volume e a potência do aparelho de som da Gradiente e esperando entrar a voz enigmática, teatral e poderosa de Dee Snider conduzindo aquele clima de terror até o berro de “Blaaaaaade”, dando início àquela porradaria fantástica, que foi a trilha sonora dos meus dias por anos e anos na minha infância/adolescência. É isso que faz a experiência de se ir a um show de rock valer a pena!
Ah, sim, a voz de Dee Snider continua perfeita, tanto nas músicas antigas, quanto nas novas, sendo que é com duas do último álbum que encerra o show: executam mais uma vez “Tommorow’s No Concern”, para gravação de um clipe ao vivo, e terminam com a pesadíssima “For The Love Of Metal”, mostrando que é possível terminar a noite coroando o passado com a promessa de um futuro de muito peso e boas e novas composições. Que não demore outros 9 anos para retornar, estaremos esperando. Até breve, Dee Fuckin’ Snider!
Agradecimentos ao pessoal do Grupo Tom Brasil, em especial Miriam Martinez pelo credenciamento, e à produtora Top Link Music pela parceria.
Setlist Dee Snider:
Intro – Exciter (Judas Priest)
Lies Are A Business
Tomorrow’s No Concern
You Can’t Stop Rock ‘N’ Roll
American Made
Burn In Hell
I Am The Hurricane
We’re Not Gonna Take It
Ready To Fall
The Price
Become The Storm
Under The Blade
I Wanna Rock
Encore
Tomorrow’s No Concern
For The Love Of Metal
















