
Desolation Angels – “King” (2017)
Reaper Records
#HeavyMetal, #NWOBHM
Para fãs de: Picture, Tokyo Blade, Witchfynde
Nota: 4,0
Quando os guitarristas Keith Sharp e Robin Blancher formaram o Desolation Angels em 1981, Jack Kerouac já era poeira e ossos e o Reino Unido era tomado de assalto pelo movimento conhecido como New Wave Of British Heavy Metal. Cinco anos se passaram até conseguirem, com um line-up estável, lançar seu álbum de estreia — hoje, uma espécie de clássico cult do gênero. Em 1987, partiram para o tudo ou nada, trocando Londres por Los Angeles. Lá, gravaram “While the Flame Still Burns” (1990), que passou despercebido em meio a quantidade de lançamentos melhores de bandas e gravadoras maiores. Um ponto final foi colocado em maio de 1994, com a volta para a Inglaterra e o anúncio do fim das atividades.
Foram necessários dezoito anos e um crescente interesse virtual naqueles que ficaram para trás para que Sharp e Blancher reformassem o Desolation Angels. O primeiro fruto da volta foi o EP “Sweeter the Meat” (2014). Agora, com “King”, a dupla confirma seu retorno oficialmente. Completam a formação atual o vocalista Paul Taylor (não confundir com o ex-integrante do Winger), o rodado baixista Clive Pearson e o batera Chris Takka — pelo menos enquanto seus outros grupos, Gallow God e Dea Marica, encontram-se em “on hold”. A fórmula manteve-se inalterada: o que é o metal de 99% da NWOBHM se não um rock and roll de alta octanagem com solos pentatônicos velozes e improvisados?
“King” começa com “Doomsday”, canção sobre o juízo final — um praxe em se tratando do heavy metal —, mas o verdadeiro apocalipse por aqui é sonoro: não sei se por um pensamento purista semelhante ao discernimento de um tiozão de motoclube ou se por sérias restrições orçamentárias, a coisa parece ter sido gravada dentro de uma caixa de sapato. Todos os instrumentos soam — melhor, batalham para soar — comprimidos, enlatados. É como se houvesse um fosso entre a voz e todo o resto — exceto pelo prato de condução, que parece ter sido agraciado com um canal de gravação só para ele e chega a estalar nos fones de ouvido.
Após sobreviver ao dia do julgamento, somos agraciados com mais momentos em que a temática sobrepõe à música: o oculto dá as cartas em “Devil Sent”, “Hellfire” e “My Demon Inside” enquanto certa inspiração literária — mais precisamente do clássico de Henry James, A volta do parafuso (1898) — alimenta “Another Turn of the Screw”. “Your Blackened Heart” é a típica canção de crítica, enquanto “Find Your Life” sintetiza o clima geral de “Não gostou? Fuck off!”. Sendo assim, antecipo-me e vou lá me foder.
Marcelo Vieira





