
Eisley/Goldy – “Blood Guts and Games” (2017)
Frontiers Music
#HardRock, #MelodicRock, #AOR
Para fãs de: Rough Cutt, Giuffria, House of Lords: Legends of Rock
Nota: 6,0
Quem esteve presente na edição de 2015 do Rockingham pôde ver de perto três quintos da formação original do Giuffria tocando juntos depois de mais de trinta anos sem dividir o mesmo palco. Desde então, especulou-se que David Glen Eisley, Craig Goldy e Alan Krigger pudessem reviver o grupo de maneira efetiva, mesmo na ausência de seu fundador, Gregg Giuffria, hoje um bem-sucedido empresário no ramo dos parques de diversões. Com Krigger fora da jogada, seja lá pelo motivo que for, e a Frontiers, pra variar, exercendo seu papel de embaixadora dessas necromancias do Melodic Rock, Eisley e Goldy deram origem ao, veja só, Eisley/Goldy (!), cujo álbum de estreia acaba de sair.
“Blood, Guts and Games” vê David e Craig trazerem de volta o hard rock de alto teor melódico que os consagrou em meados dos anos 1980 em faixas que não fariam feio em trilhas sonoras de filmes — um dos pontos altos da breve carreira do Giuffria foi justamente a participação em uma trilha sonora, “Gotcha! Uma Arma do Barulho”, em 1985 —, só que, agora, acrescido de camadas mais pesadas, resultado de experiências individuais posteriores (Goldy foi guitarrista do Dio em três ocasiões: 1987, 2000 e 2004) e, no caso de Eisley, de quase duas décadas sem lançar nada — o episódio de Bob Esponja que inclui sua “Sweet Victory” já saiu há 16 anos.
As referências aos velhos tempos começam já na capa, inundada de fotos antigas, de quando Goldy era um palito e Eisley não parecia o Neil Young. Mas o visual típico de um cara recluso em nada interfere naquilo que ele tem de mais precioso, que é a voz, de uivos graves e sustentação natural, ideal para refrões bem sonoros e, na minha humilde opinião, mais agradável aos ouvidos que a de James Christian, seu substituto na formação do House Of Lords. Goldy, por sua vez, segue a cartilha do básico, lançando mão da velocidade na hora certa, mas ainda pecando na hora de timbrar seu instrumento.
Já na abertura com “The Heart Is A Lonely Hunter” somos convidados a embarcar no túnel do tempo: o teclado soa tipicamente oitentista, por mais que as mãos que o tocam estejam longe de ser habilidosas como as de Gregg Giuffria. No quesito letra, o foco continua sendo as nuances do relacionamento, mas também vemos lições valiosas sobre como encarar a maturidade de forma serena (“Lies I Can Live With”), dar importância ao que realmente importa (“Life, If Only A Memory”) e plantar uma boa semente baseado tão somente no amor ao próximo (“Believe In One Another”).
Também nessa de estabelecer conexão com o passado, falhas de produção típicas de décadas atrás, mas imperdoáveis levando-se em conta a vastidão de recursos à disposição hoje em dia, vêm à tona: oscilações de volume e presença dos instrumentos, falhas na equalização e a pior mixagem de backing vocals que você ouvirá este ano. No fim das contas, tudo soa levemente inacabado, sem pressão. As demos remasterizadas de Giuffria III, gravadas em 1987–1988 e lançadas pela Frontiers como David Glen Eisley – “The Lost Tapes” em 2001 dão um banho nesse aspecto. E se faltou lapidar melhor em estúdio, faltou também alguém dar o papo de que uma canção de oito minutos (“No More Prayers In The Night”) não era uma boa ideia.
Ser fã do Giuffria do tipo que sabe todas as letras e reserva certo espaço no HD para bootlegs em áudio e vídeo da banda não me faz ter vista grossa. É claro que fico muito contente ao ver David Glen Eisley de volta à música e espero que o Eisley/Goldy viva para fazer e contar história. Mas que a produção não mais subtraia a força do repertório como fez aqui.
Marcelo Vieira




