Entrevista com Alessandro Jannuzzi (Acid Storm)

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É com muita honra e prazer que o Metal Na Lata entrevistou, em primeira mão, Alessandro Jannuzzi (baterista e co-fundador) da lendária banda de Thrash Metal, Acid Storm!

Por: William Ivan Kotzo Ribas

Metal Na Lata: Como surgiu o Acid Storm?

Alessandro Jannuzzi: Começamos no ano de 1987 com o nome de Exterminator. Eu vinha de influencias de Punk Rock Nacional e Hardcore, e tinha um amigo, o Sérgio, que estudava na mesma escola que eu e que gostava muito de bandas como RATOS DE PORAO, LIXOMANIAOLHO SECO, Cólera Banda, Rattus, The Exploited, Kaaos/Cadgers e ele sempre estava na minha casa com os compactos e cassetes pra gente ouvir, já que eu nessa época tinha um aparelho de som CCE bacana e ele não tinha nada que a gente pudesse escutar os sons, assim que o QG da barulheira era na minha casa…isso foi de 1984 até final de 1986. Nessa mesma época eu tinha um amigo, o Walter, que comprava uns LPs piratas, anunciava no Primeira Mão (Jornal de Anúncios da Época) que fazia gravações e vinha na minha casa com os clientes gravar as fitas cassete a parti dos LPs. O mais pesado que eu tinha ouvido até então era o Metallica (“Kill’Em’All” e “Ride the Lightining”). Meus primeiros discos de coleção, a partir dos meus 11 anos (1982) foram, na sequencia, Black Sabbath – “Master of Reality”, AC/DC – “Let There Be Rock”, Iron Maiden – “The Number of the Beast”, KISS – “Hotter Than Hell” e “Creatures of the Nigh”, Rainbow – “Rising”, Aerosmith – “Rocks” e Led Zeppelin – “Physical Graffiti”. Depois disso conheci uma galera da ZN (éramos de Santana, Carandiru, Imirim) que tinha uma influencia mais Black, Thrash Metal, como Slayer, Exodus, Venom,Sodom, Destruction, Kreator ,etc…Um desses caras era o Paulo Mercy, que com muito custo (era muito cuidadoso com seus LPs) me emprestou o “Hell Awaits” do Slayer… CARACAS… Dave Lombardo, Puta Que Pariu… o que era aquilo?… na sequencia o “Show No Mercy”. Pirei!!! Outro cara que era diferente dos outros nessa época foi o Marcos Vinicius Cecilio de Oliveira, mais conhecido como “Metal” ou “Acarajé” (ele aparece em uma foto 3×4 no encarte do “Morbid Visions” doSepultura, era muito amigo dos caras na época). Ele era diferente porque vinha de uma família de Militares, era canhoto e gostava muito de Voivod, tinha uma guitarra e tocava umas paradas muito sem noção…diferentes, obviamente com muita influencia de VoiVod… Ele foi o fundador da banda, juntamente comigo e o primeiro vocalista, o Marcos “Goiaba”, que hoje é vocal de uma banda Hardcore muito legal chamada Território Inimigo. A partir dai são varias historias e formações até o no nome Acid Storm e o segundo disco, Biotronic Genesis.

Metal Na Lata: Quais foram as bandas que influenciaram vocês no começo e ajudaram a moldar o som que a iriam seguir?

Alessandro Jannuzzi: No começo mesmo acredito que tínhamos influencia de 2 bandas, o VoiVod, pelas bases de guitarra, e o English Dogs, pelas linhas de vocais.
Depois as bandas nacionais como MX BrasilDorsal Atlântica, KorzusNecromancia, Warthrash, Sepultura, Mutilator, e obviamente as bandas internacionais como Metallica, Metal Church, Testament, Slayer, Kreator, e mais perto do segundo disco, Forbidden.

Metal Na Lata: Brasil final dos anos 80, quão complicado era ter uma banda?

Alessandro Jannuzzi: Cara, comparado com hoje em dia era mais desafiante porem tudo feito com mais paixão. Tudo era um sonho, montar a banda, arrumar um lugar pra ensaiar (que normalmente eram estúdios que cobravam por hora), fazer as musicas, criar o logo, pintar camisetas com o logo (que eram feitas a mão), tentar entregar essas camisetas para os caras das bandas importantes da época para eles tocarem vestindo elas nos shows, gravar a demo, ir ao correio e enviar pra todos os lugares do mundo, tentar sair com alguma matéria ou release nas revistas, tentar tocar onde pudesse e abrir show de bandas mais conhecidas, ir nas rádios e participar dos programas de Metal da época… Enfim, é como comparar minha época de moleque, como brincávamos na rua todo o tempo, e hoje em dia ver a molecada trancada em casa atrás de vídeo games e só… Era muito mais difícil, mas, pelo menos pra mim, muito mais apaixonante.

Metal Na Lata: Antes do full lenght, vocês lançaram o EP “Why? Dirty War”, qual foi a reação do público?

Alessandro Jannuzzi: Acho que antes do publico teve a nossa própria reação…”Wow, vamos gravar um disco… caracas, 36 horas em um estúdio onde todas as principais bandas de Metal da época gravaram (o JG em Belo Horizonte), com o cara que produziu todas essas bandas, demais…! Nunca tínhamos entrado em um estúdio, assim que 36 horas parecia uma eternidade. Faziamos uma conta de que se cada musica tinha mais ou menos 4 minutos, íamos gravar 6 musicas, isso significava 24 minutos,…e tínhamos 36 horas…. Yeahhhhh !!! Mas agora sabemos que não é bem assim. Mesmo assim, quando gravamos em 1989, pudemos viver essa ingenuidade e todo o processo foi magico pra gente.
Sobre o publico, a grande maioria aqui no Brasil eram nossos amigos. Muitos apoiavam e alguns poucos tinham inveja pelo fato daqueles 5 moleques terem conseguido gravar um disco, com um nome, com um logo (que fui eu quem criei) com uma capa legal, foto bacana, divulgação em revista, etc… só não fazíamos shows… Tentamos muito, mas não rolava. Naquela época ter os “contatos” já era um fator determinante. Tocamos em BH no DCE da PUC… nosso primeiro show ao vivo. Até que conseguimos por 2 anos ser de uma forma mais “básica”, digamos assim, ser empresariados pelo Renato Martins, que era empresário do R.D.P. Assim que nosso primeiro show de verdade, foi no dia 14 de Abril de 1990, no Dama Xoc abrindo pro R.D.P. Tava lotado e pudemos ter pela primeira vez a real sensação da reação da galera. Foi muito legal. E nosso segundo show foi no Projeto SP, abrindo pro R.D.P novamente e Lobotomia. Uma pena que para um projeto SP, tava meio vazio, mas também foi demais pra nos. Depois disso os shows foram aparecendo.

Metal Na Lata: Como foi todo o processo de composição e como surgiu a idéia futurística de “Biotronic Genesis”?

Alessandro Jannuzzi: Voltando um pouco ao inicio da banda, pra gente entender sobre as formações da banda, e a mudança de Exterminator para Acid Storm.
A primeira formação foi Marcus V. guitarra base, eu na batera, Marcos G. nos vocais, Sergio “Caramelo” (que anteriormente havia tocado no Minotauro) na segunda guitarra, base e solo, e a Patricia no Baixo. Nessa época éramos o “Exterminator”. Depois o Caramelo e a Patricia saíram, sendo substituídos pelo Eric Weber, guitarras base e solo, e pelo Francisco Comelli (que seria o futuro baixista do MX), no baixo. Ainda como Exterminator, gravamos um vídeo de ensaio, onde algumas músicas que aparecem ali, se tornaram parte do EP “Why?…Dirty War”. Depois o Goiaba foi papai, e pensávamos que isso pudesse atrapalhar a banda, assim que tiramos ele da banda. Foi onde apareceu o Robson, que havia cantado na banda “Performace”, do disco SP Metal II. Ele trabalhava na Rock Shirts, que veio a ser nosso primeiro selo, para o lançamento do EP. Com essa formação mudamos o nome para “Acid Storm”, e outro capitulo da historia começou. Depois de gravar o EP, o Chico saiu e foi para o MX… ficamos Putos com ele… mas enfim, aconteceu o que tinha que acontecer. Ai ele foi substituído pelo Marcos “Torrada”, que era um baixista profissional, que “aturava” a gente…rsrsrsrs. Depois ele acabou saindo, e o Stefano Moliner entrou no baixo. Começou a dar uma cara diferente pra banda, mas conectado com o que o Metal fazia, mais doideira. O Mario Pastore entrou na sequencia e assim finalmente tínhamos a formação completa para gravar o “Biotronic Genesis”. Voltando a sua pergunta, as composições das musicas foram em conjunto, todos participaram, mas o Marcus V. tinha maior responsabilidade/influencia sobre as ideias. Ele foi a cara do disco, sem duvidas. As letras são dele e a ideia de um disco conceitual e o tema também foi dele. O Stefano foi responsável pela arte da capa. Eu fiquei responsável em arrumar o fotografo, redigir o encarte todo e a contra-capa. Lembro que eu fiz umas bases de guitarra com a boca e passava pro Metal e pro Eric e eles transformavam isso em realidade, como o final da “Metal Beasts” e a parte do meio da introdução de “Last Days of Paradise”. Na época da composição do disco, 90% dos ensaios aconteceram na casa do Stefano, no quarto dele, em São Caetano do Sul/SP. A casa era pequena e os Pais dele eram uns Anjos… Aturavam a gente todo final de semana… Lembro como se fosse hoje a gente compondo “Star Lost”… excelentes lembranças.

Metal Na Lata: A gravação do disco se deu em poucos dias, isso atrapalhou ou ajudou na hora de manter o foco no estúdio?

Alessandro Jannuzzi: Cara, acredito que tivemos tempo suficiente… Foi mais que o dobro de tempo do EP que gravamos anteriormente. Também foi no mesmo estúdio, com o mesmo produtor e tivemos uma grande ajuda de algumas bandas de BH, como o Overdose. O Andre Marcio, hoje batera do Eminence, me emprestou tudo… Uma batera Yamaha alucinante… Acredito que estávamos focados em gravar, mas a maior quantidade de horas, trouxe também mais tempo para nos desentendermos… Tretas de banda em estúdio, historias que já conhecemos. Ideias que concordávamos, outras não, um que tocava melhor que o outro, um mais ou menos dentro do tempo que o outro, tudo o que você possa imaginar, rolou. Eu tive um problema na mão direita, meu dedo indicador e o dedo do “fuck” ficaram em carne viva por stress, tive que colocar uma luva de 2 dedos e prender as baquetas na mão com Silver Tape durante a sessão de gravação de bateria… até hoje só a banda e quem estava no estúdio naquele momento sabia disso. Confesso que foi dolorido pacas, mas saiu.

Metal Na Lata: Qual foi a sua reação quando pegou o disco pela primeira vez na mão?

Alessandro Jannuzzi: Confesso que foi estranho… Amor e ódio… Sempre pensamos que pode sair melhor… com o EP me emocionei mais, era o primeiro… Lembro de mostrar pro meu Pai, logo que saiu. Ele era um cara que sempre me apoiou em tudo, mas muito calado, e a reação dele foi: “É você aqui?… Parabéns filho !!!” O “Biotronic” já foi como um passo além do primeiro, e por ser muito diferente, foi também alvo de muita comparação e criticas. Tenho tudo guardado e lembro que a reação com os vocais do Mario foi o que mais pegou na época. Muita gente não curtiu. Ele é um excelente vocalista, mas teve o desafio de cantar e gravar em uma banda que já tinha uma historia passada, e os vocais das duas épocas eram muito diferentes. O Robson por exemplo, era mais Tom Araya, Chuck Billy, e o inglês dele era um desastre.Mas ninguém se importava com isso. Tivemos nota 8,5 na revista Metal Forces, melhor que muitas bandas grandes da época. Já o Mario sempre se preocupou muito com os agudos, falsetes, e muita gente odiava isso… já o inglês dele era, e é muito melhor. Enfim, como uma banda, a responsabilidade era de todos e acredito que na época, nenhum de nós saiu 100% satisfeito com o resultado do disco.

Metal Na Lata: Após o lançamento do álbum, vocês fizeram alguns shows mas um tempo depois a banda acabou, por que?

Alessandro Jannuzzi: Vamos separar em 2 partes… Sim, fizemos muitos shows, mas a formação do disco não durou muito… Tretas internas e o Stefano e o Mario acabaram saindo. A banda continuou com a volta do Robson nos vocais e a entrada do Thomas no baixo. Sinceramente pra mim, é a formação que eu mais gosto. Criamos uma identidade técnica, agressiva e diferente para época. Gravamos uma demo, “Tomorrow Soldiers”, que está no EP, na versão CD que foi relançado pela Marquee Records que é demais. Este seria nosso terceiro trabalho, que nunca aconteceu. Durante essa época eu sai da banda por problemas com drogas… a galera entrou numas que não era a minha… e na sequencia o Marcus V. , fundador da banda junto comigo e o cérebro da banda, também saiu… não sei a razão… Por mais que os outros integrantes seguiram, pra mim a banda acabou ai.

Metal Na Lata: 25 anos depois, qual é o sentimento em ver que existe verdadeira admiração e que muitos consideram “Biotronic Genesis” um clássico do Metal Nacional?

Alessandro Jannuzzi: De verdade… Surpresa total… Acabo de ver no YouTube e a musica “Hungry for Life” (a que eu mais gosto do disco) tem 26.315 views… https://www.youtube.com/watch?v=QzV9l_kiYJM. Além da surpresa, respeito para com as pessoas. Passados 25 anos e saber que você teve junto com seus amigos, companheiros de banda, alguma parte na historia do Metal nacional é muito gratificante. Só nos sabemos o quanto ralamos pra concluir esse e outros trabalhos… Uma verdadeira história. Ver o CD nas lojas da galeria por exemplo, ao lado de bandas que foram nossa influencia, nossa base, é foda. Esta semana passei por lá com a minha filha que tem 18 anos, e ela estava super orgulhosa da gente. Vimos o CD do lado do “Kill’Em All” e passou um filme imenso na minha cabeça.

Metal Na Lata: Aproveitando o relançamento do álbum, será que podemos sonhar com um show em algum momento?

Alessandro Jannuzzi: Não quero prometer nem dizer que não… O que mais complica na atual situação é que eu não moro no Brasil, estou fora há quase 10 anos, e o Marcus V. está em BH, e até onde eu sei, a muuuuitos anos sem tocar guitarra. Estas semanas que estou aqui no Brasil para passar o Natal e Ano Novo com a família, conseguimos nos reunir para bater um papo (faltou o Marcus que como eu comentei está morando em BH), comer uns ‘sandubas’ e tomar umas águas e umas cervejas… muitas lembranças e obviamente algumas ideias, como fazer um ensaio a próxima semana, só pra ter o gostinho de tocarmos juntos novamente e provavelmente re-gravar o disco, agora com mais tempo e tecnologia, o que pode contribuir para registrarmos o que realmente queríamos naquela época. Dependerá de muitas conversas e tempo de todos. Não temos pressa!

Metal Na Lata: Em uma palavra, o que representa “Biotronic Genesis” pra você.

Alessandro Jannuzzi: Amizade (Marcus V., o dono de toda essa historia).

Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, espaço final é todo seu.

Alessandro Jannuzzi: Agradecer… só isso… Agradecer a meus amigos de tantos anos de banda, as pessoas que seguiram a gente naquela época e até hoje, fans de musica de vários estilos, mas eu tenho certeza de que boa musica, ao Zé da Rock Shirts que lançou nosso primeiro EP, ao Moisés da Hellion Records Brazil que lançou o “BiotronicGenesis” em Vinyl, a Marquee que relançou o EP em CD, ao Marcos Cardoso que apostou no relançamento do “Biotronic Genesis”, as nossas famílias, a todos que participaram da nossa historia desde o começo, lá em 1987… e a você que deu essa oportunidade depois de tantos anos… a primeira entrevista em muitos anos… espero que gostem !!! Grande abraço.

Alessandro Jannuzzi (mais conhecido como “Sagu”)

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