
ENTREVISTA COM CHINA LEE (EX-SALÁRIO MÍNIMO)
O aprendizado vem com o tempo, em etapas, e a sabedoria é a prática de tudo que foi aprendido durante a soma e a subtração do tempo. É a maneira de interpretar, empregar e disseminar o que antes foi uma lição ou várias lições. Sabedoria não é acúmulo de informações, sabedoria é saber passá-las a diante. Conversamos com China Lee, o mítico vocalista do também mítico Salário Mínimo, que numa verdadeira lição de humildade e sabedoria, nos falou sobre sua decisão de deixar a banda, sobre as novas formas de se consumir música e apoiar as bandas, gerações de fãs e memórias acumuladas ao longo de mais de 40 anos de dedicação ao Rock/Metal brasileiro. Confira!
Por William Ribas
Diagramação e header por Johnny Z.
Fotos gentilmente cedidas pelo artista e Ricardo Ferreira

Metal Na Lata: Você pegou a todos de surpresa com um post anunciando que estaria deixando o Salário Mínimo alguns dias antes de subir no palco do Balbags Fest. O que aconteceu para você tomar essa decisão antes do show?
China Lee: Quando você é o líder da banda, você recebe pressão de todos os lados, inclusive dos próprios músicos. Muitas vezes colocando um contra o outro, vaidades, etc. Eu tomei a decisão de sair porque eu precisava da minha paz. Eu fui em busca de paz, eu precisava disso.
Metal Na Lata: Um sonho que se sonha só fica demais. É uma frase forte e também triste, ainda mais vindo de músico com nome forte no cenário. Para quem vê de fora tira mil conclusões, mas o que realmente você atribui essa frase forte e também triste em sua saída?
China Lee: As pessoas interpretam de várias formas, mas muitas vezes eu me sentia sozinho. Muitas vezes subir no palco e tocar é a parte mais agradável e fácil, só que existe todo um trabalho a ser feito e muito trabalho. Me sentia solitário, um maluco em busca de um sonho…Sozinho. (risos).
Metal Na Lata: Como foi cantar e sair do palco nesse dia sabendo que estaria sendo a última vez com a banda?
China Lee: Eu sempre tive uma postura muito profissional, então as pessoas nem acreditavam que eu estava de saída. Tinha muita gente no backstage e eu estava bem afastado dos músicos, mas a gente cumpriu todas as datas, foi algo que mencionei para eles que cumpriria todos os shows restantes. Então naquele não era o último, a ficha veio cair quando eu cheguei em casa por volta da 1h da manhã e recebi telefonemas dos maiores nomes do Metal e outros da música Pop até umas 6h. Aí veio um mixto de missão cumprida com um sabor de um amor perdido.
Metal Na Lata: Você é um artista que está na ativa por 40 anos. Como é para você encarar a realidade que poucos prestam atenção em álbuns completos? Muitos batem na tecla que o melhor é lançar um single de vez em quando e trabalhar em cima dele junto dos clássicos do passado, de alguma maneira isso não acaba frustrando os músicos?
China Lee: Eu sou favorável a lançar single para falar que a banda está viva e que grava alguma novidade. Você enfiar um disco hoje pela goela abaixo do fã é muito difícil, principalmente quando você tem um repertorio como o do Salário com tantos clássicos. As pessoas querem ouvir as coisas antigas e isso para mim, na minha concepção, sempre me deixava meio: “Por que eu vou lançar um disco novo”, se as pessoas só querem ouvir o velho, entendeu? Então na minha cabeça sempre foi lançar singles, sempre lançando música nova a cada 1 ou 2 anos para dar uma revigorada e ver se essa música conseguia entrar no repertorio dos shows, e muitas vezes entrava. Se fosse um álbum completo, ele fica desperdiçado, então uma música sendo bem trabalhada você consegue e era o que acontecia com a gente, as pessoas começaram a pedir músicas dos singles que lançamos. Mas em contrapartida, o músico pensa diferente do cantor ou do líder talvez e isso frustra o resto da equipe que muitas vezes quer lançar algo completo.

Metal Na Lata: E ainda falando sobre essa mistura de gerações, de como cada um se conecta com a música. Você passeou por todos os formatos K7, LP, CD e agora o digital. O jeito que a música é entregue e absorvida pelo o ouvinte hoje em dia de alguma maneira faz isso que estamos vendo, um Rock n Roll morno, sem atitude e muitas vezes passivo aceitando tudo e a todos?
China Lee: A forma que a música chega ao público é indiferente. Eu venho da época da K7 e vinil como você falou. E isso marcou até hoje essa nova geração, os fãs mais novos da gente, eles preferem ter a K7 e o vinil. Tem pessoas que preferem o CD e hoje tem todas essas plataformas digitais, eu não vejo isso o grande problema no Rock. Eu vejo o grande problema no consumidor, ele está muito calmo. Hoje ele prefere ficar na casa dele, ele não prefere ir aos shows, entendeu? Antigamente existia uma busca frenética pelo material das bandas e a cada conquista, cada vez que ele conseguia uma K7 ou um LP, aquilo era uma vitória para ele e o show era a confraternização dessa “batalha”, entendeu? Hoje o cara consegue tudo muito fácil. Show para ele, ele acha que vai quando tem que ir e esse está sendo o grande problema. Fora que nós dependemos do que acontece no mundo e, infelizmente, o Rock não está com muita força mundial e isso reflete muito no Brasil. Falando da última geração, Skid Row, Guns N´Roses e todas essas bandas, eram muito importantes porque elas mantiveram a cena viva e hoje nós não temos nada disso, então tudo fica mais difícil.
Metal Na Lata: “Beijo Fatal” passou na prova do tempo e é muito mais do que somente um clássico do Salário Mínimo, é uma música de toda uma geração. Conheço pessoas que tem ela como a música de suas vidas, casais que começaram e na cerimônia escolheram ela para ser tocada e acredito que você também tenha escutado várias situações em relação a esta composição, qual é a sua sensação ao saber da importância de uma música sua na vida de tantas pessoas?
China Lee: Você ter uma música reconhecida é um sabor muito especial. Eu sei de várias citações, como você falou de casamento, aniversário. Ter virado a música do primeiro beijo da pessoa, várias coisas. Esse sentimento é o maior trunfo e prêmio que um artista pode ter, né? E “Beijo Fatal” está aí há quase 40 anos, então para a gente tem um sabor especial, e eu acho que vai longe, música boa não morre, né? (risos)
Metal Na Lata: “Anjo”, é outra faixa que também de alguma maneira bem singular entra na vida das pessoas e emociona demais pela sua letra e melodia cheia de sentimento.
China Lee: Essa música pra mim…ela foi a coisa mais impressionante. Em cima do palco, a gente consegue ver coisas que muitas vezes as pessoas não veem, né? Então a gente conhece o nosso público, conhece as pessoas que estão lá em sua maioria e ver desde aquele cara mais radical com lagrimas nos olhos. Sabe, essa sim virou a música de muita gente, você não tem noção. Eu acho que nesses últimos tempos foi o grande sucesso do Salario Mínimo. Muitas pessoas me agradecem porque o cara perdeu o pai, perdeu a mãe, a esposa ou um filho, e essa música acabando sendo dela, ela ouve e lembra da pessoa querida que não está mais aqui, entendeu? Foi impressionante o que aconteceu e continua acontecendo em relação a esta composição, é inacreditável. Ela pega todo mundo, um headbanger, uma pessoa normal, meninas de escritório, pessoas que não tem nada a ver com o mundo do Rock, graças a uma linguagem que abrange todo mundo e passa um sentimento universal. E tudo isso me deixa muito feliz, envaidecido, porque ela foi escrita num momento onde eu estava passando uma dor muito forte, que foi a perda minha mulher que também estava gravida na época. Essa mensagem conseguiu chegar as pessoas, conforta de uma certa maneira e eu sempre me emociono quando eu canto essa música, geralmente venho as lagrimas nos shows.
Metal Na Lata: Por ainda estarmos saindo da ditadura, de um governo mais autoritário, na época vocês tiveram algum problema com a capa de “Beijo Fatal”? Ela até hoje chama bastante atenção para quem a vê pela primeira vez.
China Lee: Sim, nós tivemos problemas com a capa. Antigamente você tinha que mandar tanto as músicas, quanto a arte da capa, tudo de acabamento, era enviado para um órgão da censura em Brasília. A capa não era para ser um desenho, a nossa intenção era ter dois modelos, feminina e masculino e ela foi rejeitada e em cima da hora e a gente acabou bolando para ser escaneada, entendeu? E aí virou o desenho virou a capa oficial, e acabou passando sem problema nenhum.

Metal Na Lata: Há alguns anos saiu o filme “Brasil Heavy Metal”, que conta aqueles primeiros anos da nossa cena de muita garra, amor e inocência. Por tudo que as bandas pioneiras fizeram em abrir o caminho para toda uma geração que veio depois nos anos 90 e diante, falta um maior reconhecimento dos fãs e mídias para com essas bandas que começaram tudo?
China Lee: Se não fossem alguns jornalistas e donos de web rádios, que viveram nos anos 80, a gente não teria quase nenhum espaço na mídia. Eu acho que toda essa geração merecia realmente porque foram desbravadores, foram bandas que lutaram muito. Muitas voltaram e estão aí trabalhando, mas acho que tinham sempre que serem reverenciadas tendo um destaque especial em toda mídia do Metal, e talvez até em mídias mais abertas, algumas rádios populares, mas como nós não temos essa cultura de Rock e de Heavy Metal no Brasil, acabamos que não temos essa abertura maior da mídia “normal” no pais, né? Olhando para o público, por exemplo, o Salário nunca pôde reclamar pois sempre tocamos para bastante gente. Veio diminuindo nesses últimos anos? Sim, mas quando você pega um espetáculo onde você colocar 2,3 ou 4 bandas clássicas da década de 80, é quase garantia de casa. Na mídia eu realmente vejo que falta um destaque e um respeito maior.
Metal Na Lata: Para finalizar, “Vai, deixa o rock queimar em você, vai deixa o sangue pulsar em você”, trecho da clássica “Noite de Rock” carrega muito o sentido literal para quem vive o Rock. Para você que gravou a faixa, esse estilo de vida um dia vai morrer?
China Lee: Eu acho que a gente está meio que com os dias contados, mas espero estar errado. Por exemplo, você pega pessoas, até vou lá fora. Um símbolo para mim é Steven Tyler (Aerosmith), que é um rocker já com seus 70 anos. Aqui no Brasil, eu destaco o Marcello Pompeu (Korzus), o Roosevelt Bala (Stress) e eu acho que eu também (risos). Nós temos um estilo de vida que realmente seguimos o que essa música representa e não estou vendo uma geração nova vindo nessa pegada, tendo essa mesma proposta. Então eu não sei até onde nós iremos, eu espero que o Rock sempre pulse dentro dos corações das pessoas e que elas tenham um estilo mais alegre de se viver, pois o maior segredo do Rock N Roll é que você pode ter 70 anos com a mentalidade de um cara de 30, o Rock é a única música que te deixa eternamente jovem.
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, o espaço final é todo seu.
China Lee: Gostaria de agradecer a vocês do Metal Na Lata pelo espaço. Gostaria de parabenizar a você, William, pelas brilhantes perguntas e nunca deixe o Rock morrer dentro de você. Avante guerreiros, avante guerreiros. Valeu!
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