Entrevista com Henrique Fogaça (Oitão)

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ENTREVISTA COM HENRIQUE FOGAÇA (OITÃO)

“O seu político é o seu pastor, esgoto e feno não te faltarão! ” Na pátria fictícia em verde e amarelo onde educação e saúde são luxos de poucos. Onde a miséria, o ódio e a violência são constantemente atualizados. Onde o preconceito é profundo em almas e mentes rasas. O país onde o sofrimento e a dor do próximo nada valem. O sangue? Menos ainda. O Brasil das estatísticas, da fé pútrida, da ignorância ovacionada e dos mestres e sábios de aplicativos”. Conversamos com Chef Henrique Fogaça, que sem muita verbalização e muita acidez, nos revelou a sua visão de Brasil. Abordamos ainda, o momento tempestivo e delicado que estamos vivendo, sobre o pertinente retorno de sua banda, o Oitão, que agora novamente volta a contar com os irmãos D’Angelo, Marcus (bateria) e Caio (baixo), dá hoje clássica Claustrofobia, e sem abrir mão do seu fiel escudeiro, Ciero nas 6 cordas, e também sobre como é bom fazer o bem, sem olhar aquém. Ah, é claro que perguntamos sobre sua arte favorita, a culinária, afinal, que prato representa melhor o povo e o Oitão?

Por William Ribas
Fotos X Tudo

Metal Na Lata: A volta do Oitão veio a calhar com o momento conturbado que vivemos. A insatisfação contra os nossos líderes e o caos, é chama que faltava para termos a banda de volta à cena?

Henrique Fogaça: Sim, com certeza o Oitão voltou nessa época e veio muito bem a calhar, mas essa é uma situação que a gente vive no pais a décadas e décadas. Entra governo, sai governo e é sempre a mesma patifaria. A banda aborda o cotidiano, né. O que a gente vive, o que a gente vê, as injustiças que estão expostas na televisão e a linha de raciocínio das letras é um pouco espelho do que recebemos da política, da sociedade e das coisas erradas ao nosso redor.

 

Metal Na Lata: A nova formação do Oitão é uma volta ao passado, já que os integrantes do Claustrofobia sempre estiveram por perto no começo da banda, inclusive gravando o primeiro disco. Como surgiu essa reunião? Foi algo natural chamar os velhos amigos de volta?

Henrique Fogaça: O Oitão nasceu em 2008 na Casa Verde (Bairro de São Paulo) no estúdio do Marcão e do Caio. O Ciero gravou a primeira música “Tiro na Rotula” e está na banda há 7/8 anos. O Marcão gravou o primeiro disco, “4° Mundo” (2009), ficou quase 1 ano na banda, fez os primeiros shows. O Caio sempre esteve presente, participou de uma música no álbum estreia. Então eles estão enraizados na banda desde o começo, né? E agora chamei eles para retomar o Oitão, mas é como uma reunião entre velhos amigos que sempre continuaram fazendo parte direta ou indiretamente na banda.

 

Metal Na Lata: A nova música “Instinto Sujo”, começa com uma “linda” dedicatória para nossos “amados” políticos. Antes de falar sobre a música em si, gostaria de saber como surgiu o roteiro do videoclipe?

Henrique Fogaça: O vídeo retrata um cidadão indignado, uma pessoa comum revoltada com a classe política e questionando o instinto sujo desses caras. O clipe foi feito pela Caxão Produtora, dirigido pelo XTudo, que deixou tudo muito bem editado. A construção do clipe foi em cima da música que deu toda a ideia e quem montou todo o cronograma foi o Caio (baixista) e o restante foi ajeitando uma ou outra parte e entrando num senso comum, mas podemos dizer que a primeira marretada foi do Caio na construção e criando uma linha do tempo.

 

Metal Na Lata: A música carrega bastante brutalidade, uma letra que coloca o dedo na ferida e sem papas na língua. Foi proposital para “chocar” e mostrar que o Oitão estava definitivamente de volta?

Henrique Fogaça: Não, na verdade não foi para chocar. O que queremos é externar o que a gente vive, o que a televisão mostra diariamente em relação as atrocidades em relação à política, impunidade, injustiça e a ganancia que acompanhamos. Então foi mais para retratar uma situação que mesmo quem não goste de Rock vai se identificar, porque todo brasileiro, toda a população em geral está à mercê da política.

 

 

Metal Na Lata: Ainda sobre “Instinto Sujo”, tem um trecho que diz sobre nunca destruir a nossa dignidade. O brasileiro sempre resiste a podridão que assola o pais desde 1500, somos um pais sofrido, mas que parece que nunca aprende e vota sempre nos mesmos ou acredita em conto de fadas. Você acredita que em algum momento teremos verdadeiramente um político salvador que vai olhar para o povo?

Henrique Fogaça: Cara, desde que eu me conheço por gente, não acredito em uma melhora na política. Sai governo, entra governo e o cara já cai dentro de um sistema que já é corrompido, já é sujo. Então é algo que não podemos contar e por isso que fazemos com nossas próprias mão o “do it yourself”, que é algo que tanto falo que é fazer e não esperar nada do pessoal lá de cima. A grande arma do brasileiro é um papel e lápis, a educação. Se a população tem educação, vai saber discernir o que é certo, o que é errado e de uma certa forma vai ter uma visão mais ampla. Agora, sem a educação gera a ignorância e ignorância é o que político mais quer, afinal, para a pessoa ignorante você dá uma banana e ela vota no salafrário, entendeu? Então, o grande desfecho de toda essa mudança, o ponto principal está na educação na minha visão.

 

Metal Na Lata: Acredito que vocês não vão ficar somente na nova música. Existem planos para um novo álbum? Como está o trabalho de composições?

Henrique Fogaça: Nesse momento devemos lançar somente singles. Lançamos o “Instinto Sujo” e agora no dia 5 de junho vamos lançar a “Proteste”, depois virá uma faixa que provavelmente se chamará “Abismo”, que ainda estamos fazendo. A ideia é que a cada 2 meses, vamos disponibilizar uma nova música com clipe, com merchandising ligado ao tema e por enquanto esse é o nosso caminho e primeira meta.

 

Metal Na Lata: Você se tornou uma celebridade, é alguém facilmente reconhecido na rua por todos graças ao sucesso que é Masterchef. De alguma maneira ser famoso atrapalha ser um musico mais underground?

Henrique Fogaça: O Masterchef deu uma visibilidade muito grande, uma fama, é um programa que deu muito certo. As pessoas que me conheceram pelo programa acabam conhecendo o Oitão também, mas não acaba atrapalhando no underground porque eu sou uma pessoa transparente. O que eu sou no programa, eu sou no Oitão, na banda e na minha família.  É a minha conduta de vida, a minha verdade que eu carrego no peito, então não atrapalha e as vezes até evidencia um pouco pelo reflexo do Masterchef que as pessoas tem curiosidades em conhecer, em saber e isso é um lado positivo.

 

 

Metal Na Lata: Além do Masterchef, você também teve um programa chamado 200 Graus que também era ligado a culinária, mas mostrava bastante do seu cotidiano. Em algum momento pensa em ter algo na TV ligado à música, um programa de auditório com diversas atrações musicais?

Henrique Fogaça: O programa 200º foi gravado há 6 anos e mostra um pouco do meio dia a dia, a minha rotina, mas ter um programa meu em si, eu não penso não. Já tiveram convites para fazer programa de rádio falando de música que até penso em fazer mais para a frente. Agora, programa de televisão com auditório de coisas da época tipo Matéria Prima (Programa exibido na década de 90 pela TV Cultura) era legal, mas não penso em nada disso no momento não, mas quem sabe, a vida vai encaminhando, né?

 

Metal Na Lata: Vivemos tempos difíceis e diretamente ou indiretamente todos fomos atingidos por essa pandemia. No meio disso, você criou o projeto “Marmita do Bem”. Queria que falasse um pouco sobre a inciativa e também de como é bom ajudar alguém, pois acredito que tudo que fazemos aqui em algum momento volta para nós.

Henrique Fogaça: Nós estamos distribuindo as marmitas já fazem 3 meses e distribuímos mais de 15 mil. Sempre tive atrelado a projetos sociais não é de hoje, algo por volta de 15 anos que participo em várias frentes e nesse momento de pandemia, todo mundo parado, empresas fechadas, alimentos sendo perdidos, as pessoas nas ruas morrendo de fome. Eu acho que todo o ser humano deve olhar um pouquinho para o lado, sair um pouco de seu egocentrismo e ajudar de alguma forma, eu acho importante. É isso que a gente faz sem esperar nada em troca, tá ligado? Só podendo levar um pouco de dignidade para as pessoas que vivem em condições de ruas, as crianças, pessoas mais velhas, que de repente perderam a família ou estão na rua por algum outro motivo, faz muito bem. Eles passam frio e fome e a marmita do bem serve para acolher um pouco essas pessoas.

 

Metal Na Lata: Para finalizar, se pudesse transcrever o Oitão para um prato, qual receita teria?

Henrique Fogaça: O Oitão seria uma feijoada, pois é um prato bem enraizado, bem típico brasileiro, bem do povo e com vários ingredientes. Fazendo comparação com a banda, o prato tem pé de porco, orelha, rabo, paio, carne seca, lombo, copa lombo, farofa, couve, laranja, vinagre e pimenta, entendeu? É um bagulho que tem vários ingredientes bem típico do brasileiro, é uma comida bem forte, verdadeira e é isso que o Oitão é. Então, a banda é um reflexo da feijoada.

Metal Na Lata: Muito obrigado pela entrevista, deixe uma mensagem para os nossos leitores.

Henrique Fogaça: Nunca desistir, vá para cima, tenha metas. Não espere nada de ninguém, arregace as mangas, faça você mesmo, essa é a melhor forma. Conte com pessoas verdadeiras e vá para cima pelo som, pela arte, pela dignidade e um por mundo mais justo e igualitário para todos.

 

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