
Entrevista exclusiva com Micky Crystal (Tygers of Pan Tang)
Houve um tempo em que eu tinha como hobby pesquisar sobre o que foi a NWOBHM. A quantidade de bandas incríveis que por motivos de Iron Maiden não chegaram lá é impressionante. Sobre a pedra do rei do segundo escalão, repousava o Tygers of Pan Tang, cuja reputação, ao menos nos círculos não especializados, se resumia ao fato de ter revelado ao mundo o talento de John Sykes, que faria história na fase mais comercialmente bem-sucedida do Whitesnake. Ainda assim, sob a batuta do guitarrista Robb Weir, o Tygers nunca parou de rugir, e desde a entrada do também guitarrista Micky Crystal — que está na mesma faixa etária que eu —, em 2015, vem rugindo cada vez em mais alto e bom som, conseguindo como poucos balancear os clichês de outrora com uma pegada mais contemporânea, agradando aos ouvintes tanto da velha quanto da nova guarda. Prestes a cair na estrada para divulgar “Ritual”, Micky encontrou um tempinho para conversar com o Metal Na Lata. Acompanhe!
Por Marcelo Vieira
Fotos: Divulgação

Metal Na Lata: Em primeiro lugar, parabéns pelo novo álbum! Vamos começar essa entrevista falando sobre o que é esse “ritual” do título. Qual é o conceito por trás da arte e sua relação com o título do álbum?
Micky Crystal: Tomamos uma decisão consciente de não nomear o álbum com base em nenhuma música em particular. Tínhamos uma longa lista de sugestões, mas na verdade foi o Roberto Toderico, quem criou a arte do álbum, que colocou o título “Rock and Roll Ritual” na capa até decidirmos por um título. Sugeri aos caras que abandonassem o “Rock and Roll” e talvez chamassem o álbum apenas de “Ritual”, que era o único nome em que todos nós concordamos. Acho que a arte capta a vibe do álbum e sinto que é um título que se encaixa perfeitamente no catálogo do Tygers, podendo estar em pé de igualdade com “Spellbound” (1981) ou “Crazy Nights” (1981).
Metal Na Lata: Na minha resenha de “Ritual” para o Metal Na Lata, escrevo: “a exemplo de como a entrada de Richie Faulkner revitalizou em incontáveis aspectos o Judas Priest, Micky Crystal parece ser o maior responsável pelo rejuvenescimento do Tygers”. A maneira que a sua guitarra conduz o repertório não dá margem para dúvidas. Como você avalia a sua contribuição e o seu protagonismo — nove solos de guitarra contra apenas quatro de Robb — em “Ritual”?
Micky Crystal: Em primeiro lugar, muito obrigado pelas amáveis palavras. Por conta do sucesso do último álbum, eu estava consciente desde o início de que precisaria atingir outro patamar e, como guitarrista, eu sabia exatamente o que queria construir no último álbum. Desde que entrei para a banda, tentei incorporar o som clássico do Tygers à maneira como a banda deveria soar em 2019 ou agora em 2020, como o Judas Priest fez. Tentei compor músicas e solos sob o ponto de vista do fã e do que eu gostaria de ouvir como ouvinte. Eu tinha uma visão clara de como o álbum deveria soar e investi uma quantidade enorme de tempo em casa compondo, organizando e trabalhando em ideias e solos; cortando-os em pedaços e reescrevendo-os até que eu estivesse feliz com a direção geral. Daí o motivo pelo qual há uma grande proporção de solos e ideias minhas.
Metal Na Lata: Musicalmente, “Ritual” soa mais consistente do que “Tygers of Pan Tang” (2016). Pode-se dizer que na medida em que o álbum anterior abriu um novo capítulo na história da banda, “Ritual” levou essa história para uma espécie de clímax?
Micky Crystal: Acho que passamos mais tempo ajustando as músicas em “Ritual”. Desta vez, não apressamos as coisas e passamos por tudo mais a fundo. Pessoalmente, sinto que este é um álbum mais forte que o autointitulado por esse motivo. Em termos de gravação, tivemos a produção de Fred Purser, que foi maravilhoso de se trabalhar e estava muito aberto a experimentar coisas. Foi ótimo trocar ideias com ele durante a gravação, porque ele também é guitarrista e temos muito em comum em termos de influências e músicas que ouvimos; também por isso foi muito divertido tê-lo produzindo o álbum.
Metal Na Lata: Para todos os efeitos, Robb é o chefe da banda. Mas, dando uma olhada nos créditos de “Ritual”, ele contribuiu menos para o álbum do que você e os outros. Como funciona a hierarquia no Tygers of Pan Tang? Robb precisa dar o aval para que as coisas aconteçam?
Micky Crystal: Não, não precisamos do aval dele para que as coisas avancem. Desta vez, Robb ficou feliz em ficar em segundo plano tanto na composição quanto na gravação. Geralmente éramos Gav [Gray, baixista], Craig [Ellis, baterista] e eu no estúdio compondo e organizando as músicas; em geral, éramos Craig e eu gravando as demos e as enviando para Jack [Meille, o vocalista,] escrever as letras e melodias.

Metal Na Lata: Em contraste com a decididamente moderna “White Lines”, “Damn You!” conta com um riff de guitarra muito tradicional, tipicamente da década de 1980. É um esforço consciente essa atualização lenta e gradual do som para não deixar os ouvintes mais tradicionais órfãos? Você vê alguma diferença na aceitação das músicas mais modernas em comparação com as músicas mais tradicionais?
Micky Crystal: Eu acho que essa formação estabeleceu uma vibe própria com faixas como “Only The Brave” do álbum anterior e, claro, “White Lines” agora. Outras como “Damn You!” e “Raise Some Hell” foram a nossa chance de prestar homenagem aos primórdios do Tygers e pegar alguns clichês que ressoariam com os fãs dos primeiros álbuns. Tem sido interessante para mim ver uma música como “Only The Brave” se tornar obrigatória nos repertórios ao vivo, mas não apenas isso: recebemos e-mails de fãs dizendo que essa música foi sua introdução à banda; por isso muitas vezes pode ser difícil equilibrar o setlist com músicas mais antigas e outras mais recentes, mas já estabelecidas.
Metal Na Lata: A mim parece que “Worlds Apart” e “Spoils of War” possuem certa inspiração política. Enquanto muitos artistas e até os fãs optam por não se manifestar politicamente, pode-se dizer que o Tygers está fazendo o oposto?
Micky Crystal: Talvez possuam em um sentido muito geral, mas certamente não em termos de aprofundar a discussão e dizer qual lado está certo ou errado. Essas músicas geralmente contam histórias e, embora elas provavelmente sejam relevantes no cenário político de hoje, não estão adotando uma postura em favor de A ou B.
Metal Na Lata: “Ritual” inclui duas baladas — “Words Cut Like Knives” e “Love Will Find a Way” —, o que é uma novidade que veio com a formação atual da banda. Quem é o baladeiro responsável?
Micky Crystal: Jack e eu passamos uma semana inteira compondo juntos no início de 2019 e dissemos um ao outro que precisávamos de uma balada para o novo álbum. A maior parte de “Words Cut Like Knives” foi escrita em 15 minutos. Jack segue a escola de David Coverdale e Robert Plant, então eu sinto que ele realmente se destaca e pode mostrar seu alcance vocal nesse tipo de música. Para mim, como guitarrista, as baladas são sempre uma ótima desculpa para mergulhar no lado super melódico da guitarra e fazer alguns arranjos bem legais também.

Metal Na Lata: “Ritual” termina com “Sail On”, um épico de sete minutos de duração que inclui um trecho do poema “Requiem” de Robert Louis Stevenson na letra. Como essa música inteira é de sua autoria, quero que você a comente. Como foi que ela ganhou vida?
Micky Crystal: Minha ideia para essa faixa era ter algo bem diferente de tudo o que o Tygers havia feito antes, mas também algo que não soasse fora do lugar, digamos, em “Spellbound”. A demo original dessa música soava bem diferente, tinha uma vibe Jimi Hendrix em “Manic Depression”. Jack e eu trabalhamos duro nela, pois nós dois acreditávamos desde o início no poder que ela tinha. Eu compunha, gravava e depois enviava as ideias para ele trabalhar as letras e melodias. Jack escreve incrivelmente rápido, então eu enviava as ideias e em questão de minutos recebia algo com letras e melodias. Eu tinha em mente que queria fazer um solo usando slide neste álbum e a seção suspensa dessa música parecia ser o lugar perfeito para um. Tomei um pouco de liberdade com algumas das mudanças de acordes durante a essa seção na qual o solo da guitarra é tocado e o resultado foi meio rock progressivo moderno. A seção acelerada do final surgiu de uma confusão entre Gav, Craig e eu, e a harmonia de guitarras foi composta pouco antes de entrarmos no estúdio. Originalmente, eu pensei em colocar outro solo enquanto a faixa caminhava para o fim, mas as guitarras em harmonia pareceram mais musicalmente apropriadas e acho que fecham bem o álbum.
Metal Na Lata: Quem masterizou “Ritual” foi Harry Hess, vocalista do Harem Scarem. Você chegou a conhecê-lo pessoalmente?
Micky Crystal: Eu nunca conheci o Harry. Na verdade, fizemos shows em que literalmente tocamos um após o outro, mas nunca nos encontramos. Acho que ele é um cara muito talentoso e também gosto do Harem Scarem.
Metal Na Lata: Quais bandas compõem a sua formação musical?
Micky Crystal: Se eu tivesse que escolher uma banda, seria o Metallica, que eu sempre amei desde jovem e ainda amo. Sou enormemente influenciado por guitarristas como Jimi Hendrix, Stevie Ray Vaughan e B.B. King, além de músicos country e de fusion como Brent Mason, Danny Gatton, Frank Gambale e John Scofield. Mais recentemente, tenho ouvido muito Bring Me The Horizon, Slipknot, Magnetico e Rammstein, além de muita música pop.
Metal Na Lata: Em 2019 o Destruction lançou um cover de “Hellbound” como faixa bônus do álbum “Born to Perish”. Você chegou a ouvi-la? O que acha dos covers que outros artistas e bandas fazem das músicas do Tygers?
Micky Crystal: Ainda não ouvi, mas certamente irei. Frequentemente, recebo vídeos de pessoas fazendo covers de músicas do Tygers, sejam músicas antigas ou coisas como “Only The Brave” ou até mesmo faixas de “Ritual”. É sempre legal ver como as pessoas abordam de maneiras diferentes as minhas músicas e me sinto lisonjeado sempre que alguém se dedica o suficiente para querer para aprendê-las.
Metal Na Lata: Quais clássicos da banda você mais gosta de tocar ao vivo?
Micky Crystal: “Don’t Stop By” sempre foi uma das minhas favoritas para tocar ao vivo. Eu amo o solo do John Sykes nela. Faixas como “Take It” e “Love Don’t Stay” são sempre divertidas, alto-astral e, claro, “Hellbound” também.
Metal Na Lata: Tendo tocado com o Tygers em tantos festivais, você provavelmente teve a oportunidade de conhecer alguns de seus ídolos. Quais foram os mais especiais e por quê?
Micky Crystal: Nós tocamos em um festival na Espanha há alguns anos e nosso camarim ficava ao lado do camarim do Cheap Trick. Passar um tempo com esses caras foi bastante surreal e eles eram os caras mais legais do mundo, o que tornou tudo ainda mais especial.
Metal Na Lata: A turnê brasileira com o Picture foi especial a ponto de uma foto tirada no show de São Paulo ter sido usada no encarte de “Tygers of Pan Tang”. Quais são as suas melhores lembranças do nosso país e quando vocês finalmente irão voltar?
Micky Crystal: Comemorei meu aniversário de 28 anos no show de São Paulo, no qual o público cantou Parabéns, o que certamente foi um dos melhores momentos para mim, mas passear no Rio de Janeiro também foi muito divertido e, claro, conhecer os fãs no Brasil, que são incríveis. Não há planos para nenhum show na América Latina além de uma apresentação em um festival no México ainda esse ano.

Metal Na Lata: Você tocou com Marco Mendoza na turnê Viva La Rock. Marco é uma espécie de lenda e vocês foram acompanhados pelo grande Kyle Hughes na bateria. O que você tem a dizer sobre a experiência de tocar num power trio? Vai repetir a dose?
Micky Crystal: Fazer turnês com Marco é muito divertido e trabalhar com ele me ensinou muito e certamente me tornou um músico melhor. Adoro tocar em power trios, pois há muito espaço para os três músicos poderem improvisar como se não houvesse amanhã. O repertório era bem diversificado musicalmente, indo do rock e do blues ao fusion e à música latina, mas nunca fazíamos o mesmo show duas vezes, pois os arranjos sempre mudavam, por isso era divertido e mantinha o público alerta. Marco tem um novo álbum com lançamento previsto para maio e eu espero fazer uma turnê com ele novamente, mas tudo irá depender de conseguirmos alinhar nossas agendas, o que às vezes pode ser difícil, mas cruzemos os dedos.
Metal Na Lata: Além de tudo, você também dá aulas de guitarra. Ainda encontra tempo para ensinar? Fale um pouco, também, sobre o seu método “Ages of Rock”. No que ele consiste?
Micky Crystal: Sim, dou aulas sempre que não estou na estrada ou no estúdio. Tenho um método chamado “Ages of Rock”, que é um pacote de aulas de licks de guitarra que eu fiz em parceria com o JamTrackCentral há alguns anos. Você pode adquirir esse pacote de aulas no link ou diretamente comigo através da minha página do Facebook: MickyCrystalOfficial.
Metal Na Lata: A cereja do bolo do que pode ser definido como um grande ano na sua vida foi o seu casamento. Aliás, parabéns! Sendo assim, o que podemos esperar de você para 2020?
Micky Crystal: Absolutamente e muito obrigado! Quero lançar algumas aulas de guitarra em 2020 e focar nisso um pouco mais do que já venho fazendo. O Tygers estará em turnê pela Europa de março a abril para alguns shows solo seguidos por apresentações nos festivais de verão e há planos para outra turnê no final do ano. Será a primeira vez que tocaremos no México e estamos ansiosos por isso.
Metal Na Lata: Muito obrigado pela conversa, Micky. Espero que você tenha gostado tanto quanto eu. Vamos encerrar com um recado seu para os fãs do Brasil e os leitores do Metal Na Lata!
Micky Crystal: Obrigado pela conversa também e pelo apoio constante e espero que voltemos ao Brasil em breve!
Mais informações:
www.tygersofpantang.com
www.facebook.com/MickyCrystalOfficial





