Entrevista exclusiva com a banda Desalmado (Grindcore)

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Desalmado: Evolução Grindcore!

Os paulistanos do Desalmado têm muito o que comemorar. Acabam de lançar “Save us from Ourselves “, certamente o melhor e mais completo álbum de sua carreira; além disso, recentemente concluíram uma bem sucedida turnê nacional em conjunto com os portugueses do Besta, mostrando ao público toda fúria Grindcore que uma banda pode acumular.

Tudo isso confirma uma excelente fase, rumo ao reconhecimento mundial. Com muitas novidades para contar, o quarteto bateu um papo muito bacana com o Metal Na Lata, sempre muito solícitos e atenciosos para conosco. Os melhores momentos da conversa você confere agora.

Por Ricardo L. Costa

Metal Na Lata: Analisando exclusivamente pelo título do álbum, posso supor: “Save Us From Ourselves” seria um pedido de socorro? Um alerta do tipo “ferrou”?

Caio Augusttus: Acredito que vivemos um momento bem crítico, talvez um processo semelhante a períodos medievais em circunstâncias onde o tipo de violência exercida de uns para os outros é menos visível e tão cruel quanto as execuções, torturas e inquisições. Apesar de termos avançado em inúmeras questões, o capitalismo é um sistema que impede que a humanidade tenha progresso, é um regime de competição parasitário e hoje ele vive uma deterioração completa, o que nos coloca em condições terríveis. Então, sim, é um convite à luta porque ferrou mesmo.

Metal Na Lata: O Desalmado sempre levou o Grindcore muito a sério, explorando devidamente todas as possibilidades oferecidas pelo gênero, mas neste novo disco vocês se superaram, não só em termos técnicos, bem como também na abordagem conceitual. Acreditam que toda a dificuldade que uma banda do estilo tem que passar, principalmente em um país como o nosso, seja um fator determinante para essa evolução ? Seria uma espécie de adaptação natural?

Estevam Romera: O Grindcore para nós, além de um estilo do metal extremo, é uma ferramenta para se passar uma mensagem. Normalmente quem presta atenção ao Grindcore são pessoas que tem uma consciência de que vivemos num mundo onde o capitalismo é a razão central de todos os problemas sociais. Acho que nossa evolução musical nesse novo disco é também uma vontade de levar essa mensagem mais adiante. A situação atual do país e do mundo apenas confirma tudo que qualquer banda do gênero sempre bravejou. E tá na hora de espalhar essa consciência do Grind para outros níveis dentro do metal.

Metal Na Lata: Em “Save us From Ourselves” o Grindcore puro e simples de outrora se apresenta muito mais abrangente, englobando elementos de Hardcore, Crust e até algo de Death Metal, resultando em uma música poderosa e altamente impactante. A evolução vivida pela banda se assemelha, pelo menos ao meu ver, a do Napalm Death, que saltou da sonoridade primitiva para algo muito mais elaborado, ainda que invariavelmente  brutal. Esse crescimento foi algo natural, que fora tomando forma no decorrer das composições, ou foi planejada para esse disco a fim de se encaixar melhor no contexto?

Caio Augusttus: Natural e ao mesmo tempo planejado. Nunca tivemos tempo de estúdio para trabalhar melhor nas músicas, dessa vez tivemos tudo isso. Paramos pra pensar em todos os detalhes, atuamos como uma banda consolidada e, enfim, chegamos ao som que queríamos nesse primeiro momento, mas penso que essa é apenas uma etapa. Ainda temos muito mais a oferecer na nossa música, podemos avançar muito mais. “S.U.F.O” não é nosso limite, é um disco que nos mostra que podemos muito mais.

Metal Na Lata: Por falar em contexto, existe algum subtexto ou conceito central guiando as faixas?

Caio Augusttus: Reivindicação, luta, organização, o despertar da consciência do mundo em busca da revolução. Pode parecer ingênuo, mas se esse não for o objetivo para termos uma sociedade mais justa, ainda mais no Brasil, nada faz sentido. Somos pessoas em um país com uma desigualdade monstruosa, onde os senhores da casa grande insistem em dar as cartas, então não temos como estar fora da luta, é preciso ser parte dela. As letras são guiadas por esses princípios.


Metal Na Lata:
 Este é o primeiro trabalho concebido totalmente em inglês e devo dizer-lhes que essa nova abordagem, além de soar muito bem, engrandeceu o som, favorecendo o angariamento de público em nível mundial. Uma turnê por outros territórios já está nos planos?

Estevam Romera: A mudança para o inglês tem o aspecto estético sim. É bem mais fácil compor em inglês. A gente cresceu ouvindo as bandas cantando em inglês e pra gente foi um passo importante em termos de sonoridade, para chegar onde queríamos nesse disco. Compor bem em português é para poucos, acho que só o Ratos de Porão consegue fazer bem de verdade. Outro motivo da mudança para inglês é justamente nosso público internacional. Nós percebemos que muita gente se identifica com a banda por causa da nossa mensagem. Tornar nossa mensagem mais inteligível faz parte do plano para aproximar as pessoas boas e também afastar os ruins. Esse ano vamos focar em shows no Brasil e em 2019 já estamos cuidando de tocar na Europa, Japão e onde mais conseguirmos.

Metal Na Lata: “Save Us From Ourselves” é impecável em todos os aspectos. Um disco maduro, incisivo e empolgante, trazendo o Desalmado definitivamente para o hall das grandes formações do gênero, não só no espectro nacional, mas também mundial. Como vocês avaliam esse momento e qual a perspectiva para um futuro próximo?

Ricardo Nützmann: Nos empenhamos muito com esse novo trabalho para estarmos nessa ascensão atual, mas ainda temos muito a fazer para chegarmos ao hall das grandes bandas que admiramos. Nossa perspectiva é de mantermos esse trabalho. Trabalhar e evoluir ainda mais musicalmente, para que possamos superar a nós mesmos nos próximos anos.

Metal Na Lata: O Desalmado está em plena turnê nacional, acompanhados dos portugueses do Besta. Um giro que inclui a capital paulista e várias outras cidades do interior. Ouvi dizer que “Save Us From Ourselves” será apresentado na íntegra nos shows. Atitude ousada, mas uma bela forma de divulgação. Ouvi o disco todo e acho que vocês precisam temer por sua integridade física, pois o público vai transformar o recinto em campo de batalha (risos).

Bruno Teixeira: Essa é a intenção. Mosh pit brutal nos shows e isso tem rolado em várias apresentações nesta turnê com o Besta. Tocamos o disco na íntegra em uns cinco shows, o que vai nos ajudar a moldar o set list dos próximos, pois já sabemos as músicas que têm funcionado melhor. O show que fizemos na Dissenso Lounge em São Paulo foi muito especial, pois contamos com a participação especial do Thiago Sonho e do Léo Mesquita (Surra), que também participaram do disco. Mas no geral estamos tocando sete das nove músicas do disco, então quem curtiu o “S.U.F.O.” pode ir aos próximos shows sem medo! (risos)


Metal Na Lata:
 Pelo pouco que vocês têm observado, afinal o disco mal foi lançado, como tem sido a recepção dos fãs às novas músicas?

Caio Augusttus: Pessoal está meio chocado, emocionado, a recepção tem sido incrível, os shows têm enchido por conta desse disco novo. Até o momento só recebemos elogios e todos estão ouvindo muito o álbum novo. Que a mensagem continue se espalhando.

Metal Na Lata: São quase 15 anos de trajetória dando a cara a tapa, sem se curvar jamais, protestando contra um sistema falido e cruel. Que lição vocês tiram dessa história e o que ainda vem por aí nos próximos 15 anos?

Ricardo Nützmann: Nossa lição é que por mais difícil que seja conscientizar as pessoas com nossa mensagem, nós nunca deixaremos de transmitir nossas idéias para melhorar as atitudes e ajudar as pessoas a refletir. Ainda que consigamos atingir apenas duas ou três pessoas, estaremos sempre mandando a mensagem de conscientização social através das letras e do nosso som.

Metal Na Lata: Num país dominado pela cultura da bunda e da putaria, do jeito que as coisas caminham, como vocês vêem o underground hoje? Acha que é possível conquistar mais espaço, mais reconhecimento e reverter essa situação?

Bruno Teixeira: Nunca foi fácil e vai continuar não sendo. Com certeza é possível conquistar mais espaço, o que não podemos é nos iludir e achar que esse espaço virá da grande mídia. Fortalecer este tipo de mídia só faz crescer mais o monopólio e o poder de manipulação que eles têm. A nossa ideia é buscar novos espaços ou até criar novas formas para a nossa mensagem atingir o maior número de pessoas. Em 2017 nós fizemos um show com o Surra na Avenida Paulista, inspirado no que o Test sempre fez e tivemos um grande retorno. Esta turnê com o Besta também tem ajudado a ampliar o alcance da nossa mensagem. Fortalecer veículos como o Metal Na Lata é o caminho para que a mensagem se espalhe de uma forma verdadeiramente democrática, quanto mais opções com qualidade melhor para todos.

Metal Na Lata: Pessoal, muito obrigado pela atenção. Em nome do Metal na Lata, meus sinceros agradecimentos. Gostariam de deixar algum recado para os nossos leitores? O espaço é de vocês.

Bruno Teixeira: Em nome do Desalmado eu quero agradecer o apoio que o Metal na Lata tem dado para nós. Acho que o espírito é esse, de união e organização. A principal mensagem que eu quero deixar é: compareçam aos shows e apoiem as bandas que vocês curtem. Essa é a única maneira que vai garantir que as bandas consigam continuar gravando e fazendo shows. Não existe divisão entre público e banda, estamos sempre dividindo os mesmos espaços, então é sempre bom encontrar pessoas que curtam este tipo de música. Muito obrigado e nos vemos na estrada!

Maiores Informações:

www.facebook.com/desalmado.band
twitter.com/desalmado
https://open.spotify.com/artist/1jBvFo0KVo7XVKsqni4ueu

 

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