Entrevista exclusiva com Marcelo Mictian (Affront)

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Vindo diretamente do Rio de Janeiro, Marcelo Mictian (baixo/vocal) líder do hoje hibernado Unearthly, chamou seu ex-companheiro de banda, Rafael Rassan (guitarra), e formou o Affront. Deixando toda a temática e sonoridade mais extrema (Black Metal) de sua ex-banda e se dedicando totalmente a um som mais Thrash/Death Metal em seu álbum de estreia, “Angry Voices”, tiveram muitos elogios na crítica especializada. Conversamos com Marcelo sobre essa nova empreitada, como foi recomeçar tudo zero, obstáculos na carreira, adequações, cena metal brasileira, projetos futuros e muito mais. Confira!

Por Johnny Z.

Metal Na Lata: O Affront foi formado em 2016 após a pausa do Unearthly. Como foi para você migrar de um estilo mais extremo do Black Metal para um Thrash/Death Metal mais convencional?

M.Mictian: Foi bem natural, mesmo porquê eu sempre ouvi todos os estilos, então não foi difícil fazer essa mudança na hora compor. Claro que quando eu comecei a escrever com R.Rassan tivemos que tomar certos cuidados para não compormos músicas parecidas com o que já tínhamos feito antes, mas confesso que não difícil.

Metal Na Lata: O Unearthly já era uma banda bem conceituada e vinha mantendo uma carreira prolífica colhendo bons frutos em nosso país e, também, lá fora. Qual o motivo dessa hibernação?

M.Mictian: Eu já vinha há algum tempo criando e planejando o Affront em minha cabeça e o Unearthly já não me dava prazer como no começo. Eu queria mais desafios, algo que me trouxesse empolgação e confesso que não tinha mais saco e motivação para trabalhar com algumas pessoas que estavam na banda, desta forma, como eu fundei o Unearthly, eu decidi dar uma parada e deixá-lo bem quietinho.

Metal Na Lata: Dentro dos dois estilos, qual te dá mais prazer e qual você se sente mais realizado? Sente falta dos tempos mais extremos?

M.Mictian: Eu passei 18 anos fazendo metal extremo. Não que o Affront não seja extremo, mas o Unearthly tinha toda aquela atmosfera Black Metal. Eu ainda ouço o estilo em casa, mas realmente, no momento, me sinto bem feliz fazendo o que faço no Affront. É um novo desafio, um público também um pouco diferente, mas acredito que estamos fazendo um bom trabalho e a recepção até aqui é muito boa.

Metal Na Lata: “Angry Voices”, lançado no mesmo ano da formação da banda, está trazendo excelentes críticas e ganhando bastante destaque em vários veículos de imprensa. Você acha que é por conta de seu trabalho no Unearthly ou o Affront já nasceu caminhando com suas próprias pernas?

M.Mictian: Antes de qualquer coisa o “Angry Voices” é um belo álbum e acredito, também, que esse reconhecimento todo para com o Affront é uma soma de tudo o que eu fiz com o Unearthly e continuo fazendo com a banda atual. Não vou negar o legado que construí e que isso realmente me ajuda, mas não seria tão contundente assim se o trabalho atual com o Affront não fosse um trabalho forte e de grande qualidade.

Metal Na Lata: Rafael Rassan (guitarra) já vinha tocando com você no Unearthly, então a química entre vocês já estava afiada. Como chegaram a formação que gravou “Angry Voices” e como foi todo o processo de composição e gravação, sabendo que logo que a banda foi formada já entraram no estúdio? É verdade que vocês tinham um vocalista antes de você assumir, também, essa função?

M.Mictian: Eu montei todo o cronograma e, também, boa parte das composições, partindo daí comecei a convidar alguns músicos para participar e um deles foi o R.Rassan que aceitou prontamente. Partimos daí para mais composições e produção, e em meio a isso eu convidei um músico para gravar as vozes, mas no dia das fotos de divulgação o cara desistiu, então R.Rassan olhou para mim e disse: Faz você mesmo, tenho certeza que você consegue. Eu acho que ele acreditava mais do que eu (risos), mas decidi e encarei a partir do momento que eu consegui gravar a primeira música, e logo depois a segunda eu senti que poderia fazer toda a voz no álbum. Com isso segui em frente e o apoio do R.Rassan foi muito importante porque ele me ajudou bastante nessa etapa de gravação de voz.

Metal Na Lata: Thiago Caneda é o atual baterista da banda. Qual o motivo que Jedy Nahay (baterista que gravou “Angry Voices”) não continuou na banda?

M.Mictian: Jedy Najay é uma pessoa incrível, um cara que realmente eu gosto, mas também era uma pessoa que tinha muitos outros planos para sua vida e essa correria de ter banda, ensaiar, fazer show, ter disponibilidade para viajar, gravar clipe são varias coisas para se fazer e, para ele, ficou inviável já que a banda não era a prioridade em sua vida dele, com isso ele decidiu que o melhor era seguir a vida a qual ele escolheu, mas mantemos contatos, agradeço pela gravação e o que ele fez pela banda.

Metal Na Lata: O quão desafiador é para um baixista que nunca cantou se tornar o vocalista principal de sua banda? Hoje você se sente totalmente solto nessa função? Como é a tarefa de tocar baixo e cantar ao mesmo tempo dentro do estilo mais pesado do metal?

M.Mictian: Eu já fazia backing vocals no Unearthly, ou seja, já tinha o gostinho de cantar (risos), mas realmente ter que cantar um show inteiro é outra tarefa. Fui me adaptando aos poucos nos ensaios e para o primeiro show eu estava meio que travado, mas consegui fazer. Depois voltamos aos ensaios e lá senti que a primeira experiência e medo foram transpostos, me sentindo mais a vontade. Já para o segundo e terceiro shows as coisas caminharam com mais naturalidade e me senti perfeitamente adaptado a mais essa função.

Metal Na Lata: “Angry Voices” será lançado na Europa pela gravadora francesa Polymorphe Records, em janeiro de 2018, contendo duas faixas novas de bônus. Como você chegou até a gravadora?

M.Mictian: Eu já tinha muitos contatos fora do Brasil por conta da minha carreira no Metal, e comecei enviar material da banda para vários produtores, selos, revistas e tudo mais. De repente o vocalista da banda Mercyless, da França (sim, aquela banda da década de 90) me escreveu e disse que gostou muito do Affront, me pedindo um cd e uma camiseta. Assim que recebeu tudo ele me indicou a PolyMorphe Records dizendo para que enviássemos nosso cd direto para eles. Enviamos e alguns dias depois que o cd chegou na gravadora o dono (Fred) entrou em contato comigo e disse que queria trabalhar conosco. Agradeço ao Max, do Mercyless ,que realmente nos ajudou.

Metal Na Lata: Depois de quase um ano de lançamento oficial de “Angry Voices”, como você indicaria o disco para um fã que ainda não conhece a banda?

M.Mictian: “Compre-o, pois é o melhor disco de metal do Brasil no momento” (risos). Eu diria que é um álbum muito honesto, sem pretensões de ser a reinvenção do metal, mas sim uma soma a tudo o que já foi feito. Um disco que trás um novo ar ao metal, como se fosse uma reciclagem do que já foi feito, mas mantendo toda a essência e pureza do metal antigo. Resumindo, uma alquimia natural mantendo a toda essência do estilo.

Metal Na Lata: No Brasil temos uma infinidade de bandas de metal espalhadas pelos quatro cantos de nosso território e, com isso, similaridades de sonoridades com outras bandas entre são sentidas. O que o Affront traz de novidade para esses mesmos fãs que ainda desconhecem o trabalho da banda?

M.Mictian: É o que falei na pergunta anterior, não trazemos a fórmula do sucesso, não queremos reinventar o metal, mas conseguimos reciclar tudo o que já foi feito deixando num formato tradicional. É como se descemos uma roupagem nova para o que já estava feito anteriormente sem mexer na essência pois facilmente nota-se elementos ‘old school’ em nossa música com uma roupagem atual. Nada fabuloso ou extravagante, mas especial.

Metal Na Lata: Praticamente em todas as entrevistas que você deu foi citado o Unearthly. Você se incomoda com essa enxurrada de perguntas sobre sua ex-banda ao invés de falarem mais sobre seu trabalho atual no Affront?

M.Mictian: Eu sabia que isso aconteceria (risos) e me preparei psicologicamente para responder à todos, mesmo porque é algo muito recente ainda. Confesso que algumas lá no fundo me irritam um pouco, mas é só respirar e seguir em frente. Vivi 18 anos no Unearthly, não poderia ser diferente.

Metal Na Lata: “Terra Sem Males” e “Mestre Do Bairro” são duas faixas que se destacam em “Angry Voices” por trazerem uma abordagem totalmente regional brasileira, sendo que “Mestre Do Bairro” é, também, cantada em português. Algumas bandas vem trazendo essas temática para o metal nacional como, por exemplo, Tamuya Thrash Tribe, Voodoopriest e etc. É sabido que o Sepultura e o Angra deram o primeiro pontapé nessa união de estilos, você acha que esse tipo de abordagem será mais difundida no futuro pelo Affront ou foram somente compostas para a ocasião? Fale-nos a respeito de ambas.

M.Mictian: Acho importante você citar as bandas acima, pois elas estão fazendo grandes trabalhos o qual admiro. Já o Sepultura e o Angra dispensam apresentações. Esse tipo de coisa eu já fazia no Unearthly há algum tempo, onde fizemos algumas canções trazendo toques ou temáticas regionais, não tão fortes e evidentes como eu fiz no Affront, mas sempre teve também. Confesso que gosto muito desse tipo de composição, pois acho que enriquece a música. Muitas bandas gringas misturam e colocam suas tradições em suas canções e não vejo nada de errado em fazermos o mesmo com a nossa cultura. Com certeza iremos continuar fazendo esse tipo de composições em nossos álbuns sempre.

Metal Na Lata: A banda se define como Death/Thrash Metal, mas ao meu ver é mais calcada no Thrash Metal com fortes influências de Sepultura pré-“Roots”. Você concorda? Conte-nos como você chegou à sonoridade do Affront.

M.Mictian: A sonoridade é algo bem peculiar de cada pessoa, tem gente que diz que somos uma banda de Death Metal com pitadas de Thrash, outras que somos uma banda de Thrash/Death com passagens Black Metal (risos). Acho que a essência está sempre evidente que é o Metal, e isso é o que me deixa muito feliz. Eu procurei fazer algo diferente do Unearthly, fazer algo novo e desafiador para mim, algo que não fazia antes. Concordo quando você fala que tem algo de Sepultura, até mesmo a gravadora PolyMorphe enxergou isso. Não foi nada proposital, mas foi o que veio do íntimo mesmo, pois sou um grande fã do Sepultura na era Max Cavalera, então foi bem normal ter essa influencia em nossa música. Como, também, ouço bandas mais extremas, acabou tendo essa mistura mais extrema, ou seja, uma grande alquimia.

Metal Na Lata: A capa de “Angry Voices” foi à cargo de Marcelo Vasco, que já fez capas para Machine Head, Slayer e etc. Qual o conceito por trás dessa belíssima capa em relação ao título do álbum?

M.Mictian: O disco versa com o intimo humano e seus sentimentos, sejam eles a sinceridade, a hipocrisia, o medo, a ganância, a religiosidade etc. A capa teria que transmitir essas coisas de forma sutil, macabra, mórbida e no fundo a caveira está lá para mostrar que somos todos iguais perante a morte, não importando o que você tenha, se é rico, poderoso, famoso, somos todos iguais.

Metal Na Lata: É um fato que, no Brasil, viver de metal é uma tarefa árdua, não só por conta dos downloads ilegais que infestam o país (e o mundo), mas, também, pela falta de vontade dos fãs de saírem de dentro da bolha que vivem, onde ouvem sempre as mesmas coisas sempre e perdem ótimas oportunidades de conhecerem novas bandas. Como é começar do zero de novo dentro desse panorama tão triste que vivemos, onde falam/pedem em união, mas não a praticam?

M.Mictian: É verdade, é muito difícil viver de música no Brasil. As vendas de cds e merchandising são muito difíceis, mas quando entrei nessa empreitada, e começando do zero, eu sabia que seria assim. No momento não vivemos da banda, temos nossos trabalhos paralelos. Eu trabalho como técnico de som, R.Rassan é professor de música e o Caneda também, desta forma podemos manter a banda na ativa e fazer o que mais gostamos, mesmo com todas as dificuldades que a cena metal nos oferece seguimos em frente.

Metal Na Lata: O que você faria para realmente termos uma “cena brasileira” consistente novamente, sem termos os famosos “tapinhas nas costas”, falsidade e gente querendo passar por cima da gente a qualquer custo sem dó?

M.Mictian: Isso definitivamente é algo complicado. Não sei (risos). Eu tento ser honesto e real com todos, e quando posso ajudar eu o faço, quando não posso deixo bem claro que não farei. Talvez um pouco mais de sinceridade, amor verdadeiro ao metal e não apenas fazer por modinha. Eu acredito que você, também, saiba que é algo bem complicado esse assunto. Eu tento fazer a minha parte da melhor maneira possível.

Metal Na Lata: Voltando a “Angry Voices”, faixas brutais como “Scum Of The World”, “Angry Voices”, “Affront”, “Wartime Conspiracy”, que são mais retas e na cara do ouvinte são intercaladas com outras mais cadenciadas, refinadas e fora da curva como, por exemplo, as já citadas “Terra Sem Males” e “Mestre Do Bairro”, “Conflicts”, “Carved In Stone” e “Echoes Of Insanity”. Qual o segredo em não se repetir em suas próprias composições e manter o nível alto de qualidade?

M.Mictian: Olha, eu vou repetir não tenho a formula do sucesso (risos). O que eu tenho é amor pelo metal! Nem eu, nem R.Rassan, procuramos uma fórmula básica para escrever estas músicas, apenas deixamos fluir, deixamos vir a tona o que gostamos de ouvir. A nossa alma falou mais alto e fizemos algo solto e livre. Foi como soltar nossos maiores e melhores demônios e foi acontecendo. Foi realmente excitante escrever esse disco.

Metal Na Lata: “Under Siege” vem em duas versões no álbum nacional, sendo que uma tem Marcelo Pompeu nos vocais. Quando estava compondo essa música você tinha em mente a voz de Pompeu ou o convite surgiu após terminada? Conte-nos como se deu esse convite.

M.Mictian: Não, não pensei na voz dele na música. Na verdade ele escolheu a música que queria cantar no álbum depois que eu o convidei. Eu vinha mantendo contato com ele pelas redes sociais e sempre me pareceu um cara tranquilo e gente boa de verdade. Sem contar que eu sou grande fã da cena nacional antiga e cresci ouvindo esses caras, então tive a ideia de convidá-lo e foi uma honra ele aceitar. Fiquei muito feliz com a possibilidade de ter uma pessoa como ele en nosso disco. Realmente foi gratificante.

Metal Na Lata: O quão importante é ter convidados especiais em álbuns hoje em dia? Você acha que isso alavanca mais as vendas ou vocês não se preocupam com isso e se focam somente na estrutura musical?

M.Mictian: Em momento algum pensei que o disco venderia mais com a presença desse ou aquele convidado entende? Eu acho que no nosso caso foi uma maneira de homenagear um artista o qual admiramos, uma pessoa que também nos influenciou de alguma forma. Agora, se isso ajuda a vender mais e ter mais visibilidade, de certa forma também é bom e porquê não unir o útil, bom ao agradável? Os cds vendem tão pouco hoje em dia que o que vier para ajudar nas vendas sempre será bem vindo.

Metal Na Lata: Quais são os próximos passos do Affront para 2018?

M.Mictian: Além do lançamento do álbum na Europa, devemos lançar mais um vídeo clipe para promover o álbum por lá. No momento estamos trabalhando para que possamos fazer uma turnê na Europa também para divulgar o disco e o nome da banda lá, e já estamos trabalhando no álbum novo que queremos lançar no final do segundo semestre de 2018. Ah, e muito provável um vídeo clipe para esse novo álbum, também, ou seja, temos bastante trabalho pela frente.

Metal Na Lata: Última pergunta. Se você pudesse mudar alguma coisa que tenha feito musicalmente no passado, o que mudaria? Se arrepende de algo? Faria de outra forma?

M.Mictian: Eu sempre digo que não choro sobre o leite derramado e sigo assim. O que foi feito está feito, se foi errado cabe a cada um aprender e tentar não errar de novo. Eu acho que escolhi pessoas erradas para trabalhar comigo no Unearthly, e agora estou tentando não cair nesse erro novamente, mas lidar com seres humanos, como nós mesmos, convenhamos que não é uma tarefa fácil, então é seguir em frente e só olhar para trás para admitir erros e aprender com eles.

Metal Na Lata: Muito obrigado pela entrevista. Esse espaço é seu.

M.Mictian: O Affront é quem agradece sempre pelo espaço, pelo apoio ao nosso trabalho, isso é muito importante termos espaço como esse para divulgarmos nosso trabalho. “TAMU JUNTU”

Mais Informações:

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