Kiss
– “Crazy Nights” (1987)
Mercury Records
#HardRock, #GlamMetal, #HairMetal
Nota: 8,0
A turnê de “Asylum” manteve o Kiss na estrada por quatro meses e meio. Depois de 91 shows — todos na América do Norte —, Gene Simmons, Paul Stanley, Eric Carr e Bruce Kulick precisavam de férias. O descanso durou de abril de 1986 a fevereiro de 1987, quando o quarteto, frustrado diante da incapacidade de alcançar um público mais amplo e doido para obter o sucesso comercial das bandas de Glam Metal, reuniu-se com o produtor Ron Nevison em Los Angeles, berço do som que tomava conta do Top 40 norte-americano. Nevison estava com o passe valorizado: foi o responsável pelo primeiro single bem-sucedido de Ozzy Osbourne em anos (“Shot In The Dark”), além de ser o cara por trás do som de clássicos como o autointitulado disco do Heart (1985) e a dobradinha “Vital Signs” (1984) e “When Seconds Count” (1986) do Survivor.
Acontece que Simmons continuava mais preocupado com a carreira de ator do que com a banda, sua principal fonte de renda desde 1974. Quando da apresentação do material escrito durante o recesso, ficou claro quem entre os chefões teria mais destaque no álbum: enquanto Gene apresentou mais de vinte canções comercialmente inviáveis, Paul trouxe músicas que estavam mais de acordo com o que bandas como Bon Jovi e Def Leppard vinham escrevendo. Nas gravações, após um puxão de orelha da parte de Stanley, a ausência do baixista não foi tão sentida: ao contrário do que havia se tornado uma rotina no KISS, Simmons gravou todas as linhas de baixo antes de deixar o restante do trabalho nas mãos dos colegas — pelo menos é o que Ron afirma de pés juntos.
“Crazy Nights” viu a luz do dia em setembro de 1988. A produção super polida de Nevison favorece tanto a voz de Paul — cantando mais agudo do que nunca — quanto a guitarra de Bruce, que submerge no oceano de teclados dos versos para voltar à superfície com força total em solos capazes de rivalizar com George Lynch e Eddie Van Halen. O guitarrista, aliás, leva o crédito de coautor por quatro das onze músicas do álbum — “I’ll Fight Hell To Hold You”, “No, No, No”, “Hell Or High Water” e “When The Walls Come Down” — nenhuma das quais foi single. No tocante a isso, Paul reina absoluto: “Crazy Crazy Nights”, “Reason To Live” (escrita com o hitmaker Desmond Child) e “Turn On The Night” (parceria com Diane Warren), as três músicas de trabalho convertidas em videoclipes de sucesso são cantadas por ele.
Tendo “Crazy Crazy Nights” se tornado o maior hit do KISS no Reino Unido — um impressionante quarto lugar na parada britânica —, decidiu-se que a turnê do álbum não deveria ficar restrita ao Canadá e aos Estados Unidos. Sendo assim, de novembro de 1987 a outubro de 1988, a banda percorreu o globo em um total de 129 shows, incluindo a primeira participação no festival Monsters Of Rock e a primeira passagem pelo Japão desde 1978. Apesar das críticas dos mais puristas, em fevereiro de 1988, “Crazy Nights” recebeu disco de platina nos EUA — fato inédito desde “Lick It Up” (1983) — e atingiu seu objetivo. Como já dizia o lema do Serviço Aéreo Especial (SAS) do Exército da Grã-Bretanha, originalmente ventilado para ser título do álbum: “Who Dares Wins”. Quem ousa, definitivamente, vence.
Marcelo Vieira





