Banda principal: Max & Igor Cavalera
Bandas de abertura: Ultra Violent, Deaf Kids e Endrah
Local: Tropical Butantã, São Paulo/SP
Data: 03/11/2018
Produção: Honorsounds
Texto e fotos por Ricardo Leite Costa
Eles foram protagonistas do que foi talvez a separação mais traumática da história da música pesada nacional. Max e Iggor Cavalera, fundadores do Sepultura, debandaram, cada qual a seu tempo, cada qual com seus motivos e convicções, e o resto é história. Uma história vitoriosa, repleta de percalços, isso é fato, mas também de glórias. O Sepultura foi a banda que marcou o Brasil no mapa. Mostrou ao mundo a força e o sangue do Thrash Metal brasileiro. Lançaram, em sua fase seminal, verdadeiras obras de arte da música agressiva. “Beneath the Remains” foi o tiro disparado rumo ao alvo, mas “Arise” foi o dano permanente causado por este projétil. A música extrema nunca mais seria a mesma depois deste episódio.
Anos depois, algumas bandas surgiram dos fragmentos, mas o Sepultura sempre foi a pedra base de tudo. Hoje em dia já não é a mesma banda, apesar de ainda manter a relevância, e essa parte mais importante, autêntica e, porque não, desbravadora, merecia e seria revisitada por essa irmandade metálica denominada Cavalera. Max e Iggor resolveram sair em turnê com um repertório na manga de fazer inveja, tocando somente clássicos da era “Beneath the Remains” e “Arise”, o que certamente causou furor em nós, fãs, que sonhamos com esse momento.
Não, não seria uma reunião, apenas uma singela homenagem a tão imprescindível trecho de sua história. O Tropical Butantã seria o templo acolhedor de tão essencial evento, sendo abrilhantado ainda mais pela presença de três bandas de abertura, conferindo um aspecto de mini festival a esta inesquecível (e chuvosa) noite de sábado.
Abrindo os trabalhos, tivemos os paranaenses do Ultra Violent que realizaram um ótimo show. A casa estava parcialmente vazia ainda, mas o trio deu seu recado, se mostrando bastante satisfeitos com a oportunidade. O som dos caras transita num limiar entre o Metalcore e o Thrash mais contemporâneo, ornamentado por muito groove por parte das guitarras em afinação mais grave. Foi um set muito breve, mas que agradou ao ainda escasso público. Não conhecia a banda até então, mas me causaram uma ótima primeira impressão. Destaque para “Centoenoventa”, variada e climática composição, que foi uma amostra convincente do poder de fogo do trio.

Setlist Ultra Violent:
“Intro”
“Ansiedade”
“Um Passo Para Trás”
“I.N.E.R.T.E.”
“Centoenoventa”
“Lama de Sangue”
“Quem é Você”
Eu até agora estou tentando entender o que aconteceu a seguir. É sério! O trio Deaf Kids, do Rio de Janeiro, protagonizou um dos momentos mais perturbadores e cansativos dos quais já presenciei nesta minha vida de repórter metálico. Eu até acredito que os caras sejam realmente talentosos, o problema sou eu que não consigo assimilar tão extravagante e vanguardista proposta. Misturando um Stoner psicodélico denso com andamentos eletrônicos/industriais repletos de efeitos de distorção, os sujeitos davam bom dia ao Black Sabbath de um lado, e boa noite ao The Prodigy e Ministry do outro.
Foi no mínimo insólita aquela atmosfera hipnótica ornamentada por luzes vermelhas piscando alucinadamente, tendo como trilha de fundo uma música pesadíssima, mas um tanto indigesta e repetitiva. Tive a impressão de que executaram uma única, longa e interminável faixa durante todo seu set, mas depois descobri que foram nove músicas. Se você acha que conhece dissonância, é porque ainda não se deparou com esses três rapazes. É entretenimento para pessoas preparadas para este tipo de sonoridade, o que definitivamente não sou, mas pelo menos parte do público parece ter aprovado. “Espiral da Loucura” parece ser um auto-retrato da demência psicótica perpetrada pela banda.

Setlist Deaf Kids:
“Limbo”
“As Mesmas Ferramentas, Os Mesmos Rituais”
“In My Flesh”
“Templo do Caos”
“You’re Mine”
“Propagação”
“Pés Atados”
“Lâmina Cortante”
“Espiral da Loucura”
O terceiro ato foi estrelado por uma banda já conhecida no underground metálico, o Endrah. No alto de minha ignorância, eu esperava encontrar o mestre das baquetas, Fernando Shaeffer, ocupando seu posto, mas não me decepcionei nem um pouco com o seu sucessor, Henrique Pucci (Project46/Noturnall). O Thrash/Hardcore pesado e rude da banda foi exposto aos presentes da forma mais contundente possível. À esta hora a casa já estava repleta, e o calor que ali fazia quase me liquefez as entranhas. O ar condicionado, por conta de um temporal que assolou o local pouco antes do início do espetáculo, não estava funcionando adequadamente, o que deixou o Tropical com aspecto de caldeira incandescente. Nunca passei tanto calor na vida, mas o sacrifício valeu muito à pena.
O guitarrista César Covero Passos, um dos remanescentes da formação original, tocava num peso que intimidava os menos acostumados. Sua música densa, cadenciada e agressiva, proporcionou o surgimento dos primeiros focos, ainda tímidos, de “circle pits”. O vocalista Ryan Raes é muito carismático, incitando o publico a agitar a todo momento, sendo sempre correspondido prontamente. “Worms of Envy”, “A Lot of Blood” e “61 Rounds” foram os destaques de um digno show de abertura de uma banda que merece, e muito, o reconhecimento que vem alcançando.
Setlist Endrah:
“Worms of Envy”
“Turns Blue”
“Priced Out of Paradise”
“A Lot of Blood”
“Your Life Deleted”
“61 Rounds”
A espera parecia não ter fim. Minutos que pareciam horas faziam o público se contorcer de ansiedade por tão histórico episódio quando, finalmente, Max Cavalera e Iggor Cavalera adentram o palco. Tinha início ali uma viagem no tempo da qual ninguém sequer cogitava retornar.
Infelizmente, nunca tive o prazer de presenciar um show do Sepultura no auge, mas aquele momento serviu para mim como um bom antepasto do que fora o prato principal em seus dias mais louváveis. Me permitam a expressão chula, mas puta que pariu! Que show, que espetáculo, que sentimento nostálgico revigorante! Um set que começa com “Beneath the Remains” não gera qualquer dúvida quanto ao seu indefectível conteúdo. A magia estava de volta e tudo soava perfeitamente.
Apesar do tempo que se mantiveram distantes, os irmãos Cavalera continuam com o entrosamento em dia. A parceria permanece sólida, o que pudemos constatar no decorrer de cada minuto da apresentação. O show de hoje foi como um Cavalera Conspiracy de raiz, honrando e respeitando suas tradições, mostrando aos presentes na prática, o real impacto de seus atos na música pesada mundial.
“Beneath the Remains” e “Arise” não foram dissecados em sua totalidade, mas os clássicos estavam todos ali, e impressiona como músicas lançadas há quase trinta anos ainda soam atuais, resistindo a ação do tempo e corroborando com a afirmação de que um clássico é eterno. Max Cavalera é uma figura folclórica, quase mitológica. Ainda que esteja velho, visivelmente combalido pelas décadas de estrada, o cara é um frontman de primeira grandeza. O sujeito domina a platéia com seu carisma contagiante. Ainda que mais “enrole” com a guitarra, é no entretenimento, no contato com o público, que ele dá de goleada na maioria dos vocalistas por aí. Não é exagero colocá-lo ao lado de um Ozzy Osbourne no quesito carisma e simpatia.
O som estava ótimo: alto, pesado e vigoroso, colaborando para que hinos do Thrash mundial como “Inner Self”, “Stronger Than Hate”, “Mass Hypnosis”, “Slaves of Pain”, “Primitive Future” atingissem seu máximo potencial. Você algum dia vislumbrou ser possível uma sequência tão aniquiladora de clássicos em um único espetáculo? Público insano, totalmente histérico, possuído por uma força maligna capaz de produzir os “circle pits” mais insanos que se tem notícia. Temi por minha integridade, mas ainda se me ferisse em meio ao caos, ainda assim sairia realizado e com sentimento de dever cumprido.
E o “Arise”, hein? Foi muito bem, obrigado! “Dead Embryonic Cells”, “Desperate Cry”, “Altered State”, “Infected Voice” e até “Orgasmatron”, que já é uma música do Sepultura praticamente, foram desempenhadas, lapidadas, por uma banda que deu cada gota de suor e sangue de seu corpo para que o sonho se realizasse. Em muitos momentos, a catarse era tão grande, que Max nem precisava cantar. A platéia fazia isso com um prazer e uma intensidade que jamais vi na vida.
Iggor parece um pouco mais comedido depois do retorno aos palcos, mas ainda amacia tambores como poucos. Marc Rizzo já tem a cara da banda, despejando riffs e solos sem parcimônia, além de ótima presença de palco, e Mike Leon, novo baixista do Soulfly, conferiu uma base pesada e áspera às composições apresentadas, deixando-as ainda mais brutais. Mas é sério que já acabou? Max e banda saem brevemente do palco, para logo retornarem em clima de “foda-se” com “Ace of Spades” (Motorhead), com Max abandonando a guitarra de vez apenas pra comandar a festa, mas isso não foi nada, pois quem aguardou avidamente por este momento, estaria disposto a mais umas oito horas seguidas de apresentação sem qualquer resquício de cansaço.
Percebendo que aquele povo não arredaria o pé de lá nem por força policial, arranharam o início antológico de “Raining Blood” (Slayer), logo emendado por “Troops of Doom”, por que nem só de “Arise” se constrói uma banda clássica. Aí, meus caros, o pobre estabelecimento quase foi ao chão. Max comandava a massa como um general comanda sua tropa, com todos obedecendo prontamente. “Refuse/Resist” surgiu para lembrarmos da importância de “Chaos AD”, álbum esse que iniciou uma nova era para a banda, sendo considerado um divisor de águas do estilo.
A banda toda esbanjava energia e simpatia durante todo o set. Até a matriarca, Vânia Cavalera, estava ao lado do palco, visivelmente feliz e emocionada, ao ver seus filhos fazendo o que sabem de melhor. Era chegada a hora do momento “tira o pé do chão” da noite. Sim, “Roots Bloody Roots” não pode faltar em nenhum show, seja do Sepultura, seja do Soulfly ou até mesmo do Cavalera Conspiracy. Cabe em qualquer repertório e anima até a mais frígida platéia. E o pessoal pulava ao comando do vocalista de um jeito que certamente deve ter trincado o alicerce estrutural da casa.
Eu já havia perdido uns 3 kgs, as costas já davam sinais de falência, mas um medley com “Arise” e “Beneath the Remains” nunca é demais. Era chegada a hora da despedida, com a banda se posicionando ao centro do palco para uma foto com a plateia a fim de registrar para a posteridade. Era o final de um dos shows mais eletrizantes e emocionantes a que tive o prazer de assistir.
Setlist Max e Iggor Cavalera:
“Beneath the Remains”
“Inner Self”
“Stronger Than Hate”
“Mass Hypnosis”
“Slaves of Pain”
“Primitive Future”
“Arise”
“Dead Embryonic Cells”
“Desperate Cry”
“Altered State”
“Infected Voice”
“Orgasmatron” (Motörhead)
“Ace of Spades” (Motörhead)
“Troops of Doom”
“Refuse/Resist”
“Roots Bloody Roots”
“Arise/Beneath the Remains”
Digam o que quiserem, mas esse é o real e único Sepultura. Simplesmente inesquecível! Efusivos agradecimentos à parceira Honorsounds, às bandas participantes e a toda equipe que tornou tudo isso possível. Sepultura do Brasil!!!


















