Motörhead
– “Under Cöver” (2017)
Motörhead Music
#HeavyMetal, #RockAndRoll
Nota: 10
No que consistiu em um dos momentos mais marcantes da música em 2017, o infinito mar de fãs diante do palco principal do Wacken Open Air homenageou Lemmy Kilmister cantando junto a versão do Motörhead para “Heroes”, clássico de David Bowie. Na gravação, uma das últimas de Lemmy, percebemos a saúde frágil, os anos de excessos cobrando seu preço. A rouquidão trovejante que por mais de quatro décadas entoou verdadeiros hinos decresce conforme progridem os versos da mais singular canção de amor da história. O instrumental é impecável. A aura, fascinante. Milhares de vozes fazendo valer as palavras do saudoso camaleão: não só foram heróis naquele dia, como fizeram um dos maiores heróis de nosso tempo marcar presença no festival onde sempre teve cadeira cativa. Não existe Wacken sem Lemmy.
Só que, no contexto de “Under Cöver”, “Heroes” é somente mais uma música pega pelo Motörhead e devidamente “motorizada”. Covers sempre foram uma constante na carreira da banda — há quem considere a própria “Motorhead” um deles — e “Under Cöver” está aí para celebrar essa faceta. São 11 faixas, as quais todas, com exceção de “Heroes”, já viram a luz do dia em algum momento. As mais antigas do repertório, “Cat Scratch Fever” (Ted Nugent) e “Hellraiser” (Ozzy Osbourne, apesar de Lemmy tê-la composto), vêm de “March Ör Die” (1992), álbum que os fãs mais cabeça-dura do Motörhead tendem a achincalhar com veemência por ser “comercial demais”. O restante das faixas data de 2000 a 2015, fase mais porrada que compreende álbuns como “We Are Motörhead”, de onde provém a baita versão de “God Save The Queen”, talvez o melhor cover já feito de alguma música dos Sex Pistols.
Além de homenagens aos pioneiros da porra toda, The Rolling Stones — “Jumpin’ Jack Flash” e “Sympathy For The Devil”, esta última fruto das sessões de “Bad Magic” (2015), assim como “Heroes” —, há regravações de contemporâneos como Judas Priest (“Breaking The Law”), Twisted Sister (“Shoot ‘Em Down”) e Ramones (“Rockaway Beach”) e o curioso caso de criador fazendo reverência a criatura com a versão vencedora do Grammy de “Whiplash” do Metallica, que faz a adrenalina fluir e te leva a agir como um maníaco, quebrando tudo ao seu redor.
Certamente haverá aquele que enxergará em “Under Cöver” nada além de um caça-níquel. Para mim, quanto mais Lemmy melhor, e toda homenagem ainda será pouco. Já reservei o lugar na prateleira. Que a embalagem faça jus ao conteúdo, que já vale o investimento.
Marcelo Vieira





