Rotting Christ – “35 Years of Evil Existence (Live in Lycabettus)” (2025)
Season of Mist
#HelenicBlackMetal #BlackMetal
Para fãs de: Varathron, Yoth Iria, Mystifier, Necromantia, Septicflesh, Moonspell, Behemoth
Texto por: Matheus “Mu” Silva
Nota: 9,5
Para coroar os 35 anos de sua existência maligna, o Rotting Christ lançou o disco ao vivo “35 Years of Evil Existence (Live in Lycabettus)”, gravado no Monte Lycabettus, em Atenas, na Grécia, cidade natal da banda, e que é lar do Lycabettus Hill Theater, um belíssimo anfiteatro em meio ao monte. Gravado no ano passado, em 2024, essa turnê inclusive passou pelo Brasil, porém com um set mais enxuto e um pouco diferente do que foi registrado neste disco. Esse álbum é um testamento da história da banda, atravessando sua vasta discografia e reafirmando seu nome na história do metal extremo mundial.
Formado em 1987, o Rotting Christ é uma lenda. Em seus primeiros discos, desenvolveram o que ficou conhecido como “Black Metal Helênico”, apostando em músicas densas, carregadas de peso e melodia, sem se apoiar em extremismos sonoros. Passeando por uma fase com elementos góticos no final dos anos 90 e início dos anos 2000, até consolidar seu estilo musical mais próprio na década de 2010, o Rotting Christ se tornou um dos nomes mais respeitados e queridos no cenário extremo mundial. Com uma reputação impecável e performances ao vivo sempre impressionantes, isso tudo é resultado do trabalho incansável dos irmãos Sakis Tolis (vocal/guitarra) e Themis Tolis (bateria), unidos desde o início da banda.
Com uma produção absurdamente impecável desde os primeiros segundos, a banda promoveu um passeio por sua discografia. Do primeiro “Are you ready?” de Sakis, iniciando o disco com “666” (“Kata Ton Daimona Eaytoy”, 2013), a energia e entrega da banda — quase uma marca registrada de suas apresentações — é sentida de forma honesta e cativante. Eu mesmo já vi o Rotting Christ duas vezes, e posso afirmar: é uma aula de como se faz um show de música extrema. Ainda sobre esse álbum de 2013, que considero um dos mais importantes de sua discografia por consolidar o “som Rotting Christ”, várias faixas foram selecionadas para a apresentação, como “P’Unchaw Katchun: Tuta Kachun”, “Grandis Spiritus Diavolos”, “In Yumen Xibalba” e a faixa-título, reforçando a importância desse disco para o atual momento da banda. É impressionante como essas músicas ganham ainda mais força quando tocadas ao vivo. A primeira vez que vi o Rotting Christ foi justamente na turnê desse álbum, e continua tão bom ouvir essas músicas hoje quanto era naquela época. Ainda sobre o atual momento da banda, o disco ao vivo trouxe outros momentos marcantes, como “Fire, God and Fear”, “Dies Irae” e “The Raven” (“The Heretics”, 2019), “Apage Satana” (“Rituals”, 2016) e “Like Father, Like Son” do mais recente “Pro Xristou” (2024). Essa última, que no disco já soava como um hino e um clássico instantâneo, aqui só reforça essa posição. Chega a ser ridículo o quanto essa música é boa, e ouvi-la tão bem executada remete ao show deste ano, no qual também estive presente, revivendo toda a energia daquele momento.
Marcando a fase intermediária da banda, na virada do milênio, “Aealo” (2010) trouxe as faixas “Aealo” e “Demonon Vrosis”. E como era um show de 35 anos, revisitaram boa parte do catálogo que há muito tempo não tocavam, ressuscitando músicas como “Under The Name of The Legion” (“Genesis”, 2002), “Nemecic” (“Theogonia”, 2007) e a faixa que me fez gostar da banda, “Athanati Este” (“Sanctus Diavolos”, 2004). Essa seleção foi muito sentida pelo público durante o show, já que muitos presentes conheceram a banda justamente nesse período de transição. Mesmo que nem todos os discos dessa fase tenham sido tão impactantes, o resgate dessas músicas mostrou o respeito mútuo entre a banda e os fãs por essa era.
Agora o que a banda dedicou ao seu período noventista, certamente o mais prolífico e importante de sua história, foi um verdadeiro banquete sonoro. “After Dark I Feel” (“Sleep of The Angels”, 1999), faixa que ganhou o primeiro videoclipe da história da banda, soa tão atual e viciante hoje quanto há 26 anos. Tocaram também duas de “A Dead Poem” (1997) — “Sorrowful Farewell” e “Among Two Storms” —, mas foi com “Triarch of the Lost Lovers” (1996) que a banda entregou uma trinca de tirar o fôlego: “King of a Stellar War”, “Shadows Follow” e “Archon” incendiaram o público, como dá pra sentir pela reação durante a audição do disco. E, sendo a banda de Black Metal que é, não poderiam faltar músicas de sua fase mais primitiva: “Fgmenth, Thy Gift” e “The Sign of Evil Existence” (“Thy Mighty Contract”, 1993), além de “Forest of N’Gai” (“Passage to Arcturo”, 1991), representaram os primórdios da história do grupo, sempre soando brutais ao vivo.
Com uma discografia extensa, é notável que o Rotting Christ tenha incluído praticamente todas as suas fases, com exceção de dois álbuns: “Khronos” (2000) — compreensível, já que foi o único disco gravado sem Themis — e a ausência mais sentida, “Non Serviam” (1994). A faixa-título, um hino absoluto e presença constante nos shows da banda há 30 anos, não entrou no registro por um motivo curioso: ao final do show, o público invadiu o palco para celebrar com a banda, impossibilitando que a execução fosse captada com qualidade. Ainda assim, seria justo incluir esse momento histórico no álbum, registrando a emoção dos fãs presenciando uma celebração única.
Com quase duas horas de duração, “35 Years of Evil Existence: Live in Lycabettus” é um testamento definitivo da história do Rotting Christ. São décadas de dedicação, paixão e resistência, com uma sinergia entre os irmãos Tolis que nunca demonstrou sinais de enfraquecimento. Com uma sequência de grandes discos e shows históricos, este registro é uma verdadeira aula de como uma banda de metal extremo pode tanto compor obras marcantes quanto se entregar de corpo e alma ao seu público. Item mais que obrigatório — e, certamente, um dos (senão o melhor) discos ao vivo de 2025.





