Suicidal Tendencies
Local: Tropical Butantã, São Paulo (SP)
Data: 29/04/2017
Banda de Abertura: Dead Fish
Produtora: Honorsounds
É impressionante a capacidade das bandas em criar tendências e desconstruir paradigmas. Exemplo máximo disso se deu no último sábado, 29/04, quando fui prestigiar o maior espetáculo da terra (sem exagero) e me deparei com uma legião de “bandaneiros”. Como quem frequenta um ritual de iniciação ou uma cerimônia de colação de grau, a multidão se aglomerava no recinto, ostentando suas bandanas azuis como se fossem condecorações. Qual banda exerceria esse fascínio e essa devoção em seus seguidores? Exatamente, nosso amado Suicidal Tendencies.
Promovendo o álbum “World Gone Mad”, os mais ilustres filhos de Venice Beach (Los Angeles/California) aportaram em solo brasileiro para algumas apresentações nas principais capitais, sendo o palco do Tropical Butantã em SP o epicentro da destruição Hardcore. Em se tratando de uma autêntica lenda viva do Hardcore/Crossover mundial, o que menos o fã quer e precisa é de uma banda de abertura. Não menosprezando as mesmas, claro que não, mas a ansiedade e a expectativa consomem nosso interior, e foi aí que o Dead Fish entrou em cena e aquela famosa expressão “pessoa errada no lugar errado” começou a fazer sentido.
A banda até que se esforçou, mandou ver no seu Hardcore melódico engajado, mas boa parte do público parecia não se importar muito. Um coro de “Hey, Dead Fish, vai tomar no c*” teve início, porém a banda não se abalou e deu seqüência aos trabalhos, se mostrando muito focada e entrosada, e até o final de seu set parecia ter conquistado a confiança da maioria dos presentes. Apesar da apresentação correta, o Dead Fish não vai muito além de um CPM 22 mais pesado, mas a performance energética, principalmente por conta do vocalista Rodrigo, valeu o momento, e foi aí que as luzes se apagaram e a introdução melódica de “You Can’t Bring me Down” ecoou pelo recinto. Tinha início um dos momentos mais marcantes dos últimos tempos em termos de show, e a palavra “show” literalmente teria seu significado devidamente elucidado.
Era muita adrenalina e energia concentrados em um único lugar. Visivelmente empolgado, Mike Muir saúda a platéia e dá seqüência a seu maior clássico, enquanto o ‘mosh pit’ se formava vigorosamente no meio do salão. E se você acha que nada é tão bom que não possa melhorar, que tal “I Shot Reagan” e a recente “Clap Like Ozzy” a seguir? É pra torcer a bandana e usar de pano de chão. O Suicidal sempre teve músicos do mais alto gabarito em suas fileiras, mas o que vem fazendo a atual formação não é brincadeira.
Jeff Pogan fornece a base perfeita para que Dean Pleasants encubra com solos e riffs maravilhosos, enquanto a cozinha com Ra Díaz (baixo) e ninguém menos que Dave Lombardo (bateria) fazem de pegada, swing e peso algo corriqueiro e banal em suas rotinas. Aliás, Lombardo parece aquele cara que largou o emprego dos sonhos para ganhar menos em outro emprego mais simples, mas onde ele realmente se realiza. Era visível sua satisfação a cada virada, a cada “blast beat” bem encaixado. No Suicidal ele está mais à vontade, mas não menos eficaz, tornando as composições muito mais consistentes. O tipo de aquisição que engrandece até banda sertaneja.
Voltando ao show, Muir anuncia “Freedumb”, faixa-título de um de seus álbuns mais obscuros, mas que ao vivo arranca a tampa da cabeça da platéia. O ‘circle pit’ já tinha virado rinha de pit bull a esse hora. Esse que vos fala resolveu ignorar o peso da idade, ficando colado na grade em frente ao palco, onde pude perceber que a troca de energia entre platéia e banda era algo tão intenso quanto verdadeiro. E por falar em energia, a vitalidade de Mike Muir no palco é algo que transcende o conceito de empolgação. Um senhor de 54 anos, mas com a disposição de uma creche inteira de crianças hiperativas ocupa o posto de vocalista há mais de 30 anos, criando uma identidade própria para a banda. O cara pula, corre, dança, exorciza o baixista (observe em “Send me Your Money”) e faz toda sorte de estripulias, que fotografá-lo torna-se tarefa das mais árduas (ainda mais diante da precariedade de meu equipamento).
Calma que ainda estávamos apenas no aquecimento, pois “Trip At The Brain”,”Get Your Fight On!” e “War Inside my Head” seriam três amostras de épocas e realidades muito distintas para a banda, onde fãs da nova e velha escola poderiam se confraternizar e desfrutar do melhor som do mundo nesse segmento. Se o Suicidal inventou o Hardcore? Pode ser que sim, afinal, “Possessed to Skate” (com Mike Muir chamando a mulherada ao palco) e “I Saw Your Mommy” serão sempre lembradas como duas das mais representativas músicas da banda e de todo o gênero. A mulherada no palco proporcionou um espetáculo de graça, charme e selvageria em doses homeopáticas, e em alguns momentos nem dava pra identificar a banda no set.
O verborrágico Muir agradecia o público o tempo todo, discursava, fazia gracinhas, enfim, é um “show man” completo. O cara estava literalmente derretendo, a bandana já grudava na cabeça, mas ainda continuava firme, como alguém que precisava cumprir uma missão. Tivemos a seguir um breve show de talentos individuais, onde Ra Díaz e Dave Lombardo demonstraram o que uma boa cozinha é capaz de fazer, seguidos de um breve solo de Pleasants (como toca esse sujeito).
Infelizmente, o ato final se aproximava, mas nem por isso a banda afrouxava. Público insano “voando” por cima, banda endiabrada e um clima de amizade e companheirismo entre todos fizeram do evento algo memorável. “Cyco Vision” foi aquele soco na cara costumeiro, com todos cantando o refrão juntos com Mike e fazendo a mais bela festa Hardcore. Era hora de dançar de rostinho colado, afinal, o cansaço já começava a bater e “How Will I Laugh Tomorrow” veio bem a calhar, deixando o clima mais ameno, que felizmente durou pouco, pois “Pledge Your Allegiance” eternizou o nome da banda no local e creio que até a vizinhança ouviu o “St, st, st”. Ao final da música, a banda sai do palco, demonstrando que o sonho havia acabado.
Eu queria pelo menos mais uns 15 “biz”. A todo momento, no decorrer do show, alguns acordes espalhados aleatoriamente nos intervalos davam indícios de que uma de minhas composições favoritas, “No Fucking Problem”, seria executada, porém, para minha decepção não foi. Ainda havia muito a ser dito, mas nem tudo acontece conforme queremos. O público não arredou o pé, o que fez com que a banda voltasse para o golpe de misericórdia: “Living For Life”. A melhor faixa do último álbum acabou por destruir o que ainda teimava em permanecer em pé. Composição empolgante, intensa, com Lombardo devorando os bumbos como se não houvesse amanhã, lavando a alma de todos os presentes e encerrando este que, pra mim, foi o show da minha vida. Quem se diz fã de Hardcore e ainda não presenciou o que o ST é capaz de fazer ao vivo, não sabe o que está perdendo. Uma experiência como esta muda a vida de qualquer um. Suicidal for Life!
Agradecimentos a Honorsounds por nos proporcionar esse momento e a todos os envolvidos por tornar possível o evento. Até a próxima, amiguinhos.
Set List Suicidal Tendencies:
You Can’t Bring Me Down
I Shot Reagan
Clap Like Ozzy
Free Dumb
Trip At The Brain
Get Your Fight On
War Inside My Head
Subliminal
Send Me Your Money
Possessed to Skate
I Saw Your Mommy
Cyco Vision
How Will I Laugh Tomorrow
Pledge Your Allegiance
Living For Life
Ricardo Leite Costa




