The Cult – “Electric” (1987)

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The Cult“Electric” (1987)
Sire Records
#HardRock, #HeavyMetal, #GothicRock, #GlamMetal

Para fãs de: Led Zeppelin, Blue Cheer, Sisters Of Mercy, AC/DC, Dokken, Tesla

Nota: 10

O Reino Unido, no início dos anos 80, passava por questões civis, alto desemprego, greve dos mineiros, conflito das Malvinas, etc. Em meio a isso tudo o Punk havia energizado os gêneros musicais: o metal teve seu renascimento na NWOBHM (que perdurava desde o final dos anos 70), as bandas Two-Tone fundiram o Ska e o Punk e o Gótico surgiu como o filho bastardo de Bowie, Alice Cooper e outros: sombrio, teatral, artístico e perturbador.

Nesse cenário surgia uma banda Gótica chamada The Southern Death Cult, que mais tarde se torna Death Cult para então se chamar The Cult, e cada um desses acontecimentos refletiam em sua música.

Após seu segundo álbum, “Love”, que vendeu mais de dois milhões de cópias, teve vários singles, uma turnê mundial com multidões adoradoras e já mostrava mais elementos psicodélicos a la The Doors do que o costumeiro Pós-Punk Gótico, era hora de seguir em frente. Sua continuação estava a caminho e se chamaria “Peace” (“Love” e “Peace”, capice?) produzido por Steve Brown, o mesmo de “Love”, no Manor Studios em Oxfordshire. Mas após o término das gravações, a insatisfação era latente na banda: “Foi simplesmente… exagerado. Na época eu estava tentando gostar, mas toquei para algumas pessoas e pensei: “Todas essas faixas são muito longas e há muita coisa acontecendo nelas”, disse o baixista Jamie Stewart. O mesmo pensamento refletia o sentimento de Ian Astbury, que buscava uma direção mais Blues Rock. “Peace” foi então descartado, para desespero da gravadora e suas 250 mil libras já gastas, e a banda resolveu procurar um novo produtor.

O produtor Rick Rubin foi o escolhido. Em 1987 ele cuidava da sua gravadora “Def Jam Records”. Mas em 1986 ele já havia produzido o clássico “Reign In Blood”, do Slayer e “Walk This Way”, do Aerosmith com o Run-DMC, além do “Licensed To Ill”, do Beastie Boys.

Conforme Astbury relata à Rolling Stone em 2013: “Quando nos conhecemos, eu era um garoto louco de 23 anos. Rick me mostrou uma fita VHS do Blue Cheer tocando “Summertime Blues” e me perguntando se eu queria fazer rock de verdade ou não? Já tínhamos passado pela cena pós-punk e pós-moderna desde 1981, então era hora de fazer a transição. Estávamos (re)visitando os anos 70 e ouvindo Led Zeppelin, The Doors e Blue Cheer”.

A ideia inicial da banda era que Rubin remixasse apenas uma música, depois resolveram criá-la do zero para então decidirem refazer o álbum inteiro com um novo som moldado em clássicos do Hard Rock. Rubin usou de inspiração a guitarra do “Back in Black”, a bateria de “Highway To Hell” e os vocais do Led Zeppelin para conseguir o que ele queria da banda.

“Toda a música que eu ouvia enquanto crescia era Rock” – disse Rubin – “Então, quando estou produzindo uma banda de rock, tento criar álbuns que soem tão poderosos quanto “Highway To Hell”. Seja o The Cult, Slayer ou o Red Hot Chili Peppers, eu aplico a mesma fórmula básica: manter esparso, deixar as partes de guitarra mais rítmicas. Parece simples, mas o que o AC/DC fez é quase impossível de duplicar”.

Duffy confirmou isso em uma entrevista em 2016 para a Guitar World, dizendo o quanto Rubin os instruiu sobre os primeiros álbuns do Led Zeppelin, Aerosmith e AC/DC: “Todas essas coisas, aquela Gretsch e todo esse eco, livre-se de tudo Isso. Isso é um Marshall, isso é uma Les Paul, vamos lá!”. Falando ainda mais sobre o som de guitarra despojado de Duffy nessas gravações, Rubin disse à Rolling Stone: “Eu senti que Billy dependia demais de efeitos. Esse novo som precisava ser mais cru e na cara”.

O quarteto inglês (Ian Astbury nos vocais, Billy Duffy nas guitarras, Jamie Stewart no baixo e Les Warner na bateria) lança então, em 06 de Abril de 1987, um álbum de rock com certa influência gótica, principalmente liricamente, repleto de energia, vigoroso e direto.

Pablo Picasso uma vez disse: “Quando há algo para roubar, eu roubo” e muitos dizem que foi isso que o The Cult fez no “Electric” ao “roubar” o som de bandas como AC/DC, Led Zeppelin, Cream, Stones, The Doors e outras mais. Mas eles fizeram muito mais do que roubar ou emular o Rock dos anos 70.

Se “Electric” fosse feito por outra banda poderia ter sido apenas um roubo e se transformaria em um fracasso, mas não com o The Cult. Eles beberam na fonte dos anos 70 e extraíram tudo de bom que o rock “primitivo”, puro e verdadeiro é capaz de dar o repaginando com a contemporaneidade dos anos 80 tendo como espinha dorsal a alma da inspiradíssima guitarra de Billy Duffy e os vocais antológicos de Ian Astbury.

A prova disso são as cinco primeiras faixas. Matadoras, elas atingem o ouvinte como um rolo compressor e, sem deixá-lo respirar, o joga na parede enquanto o bombardeia com uma pedrada atrás da outra do mais puro Hard Rock: “Wild Flower” (a melhor música que o AC/DC nunca escreveu), a alucinógena “Peace Dog”, a colossal “Lil’ Devil”, o Blues cativante a la Cream de “Aphrodisiac Jacket” e a estrondosa “Electric Ocean”.

“Love Removal Machine”, “King Contrary Man”, “Bad Fun” e “Born to Be Wild”, cover do Steppenwolf, são outras músicas que merecem nota. A primeira, com seu riff calcado em “Start Me Up” dos Stones, foi lançada como single antes do álbum, seu clipe foi dirigido por Storm Thorgerson, designer de capas de discos da Hipgnosis, e invadiu as rádios marcando a trilha sonora dos anos 80 para sempre, a segunda traz um Boogie Rock irresistível, a terceira é um hipnotizante Hard Rock e a quarta se transformou em uma das melhores releituras deste clássico com o peso colocado pela banda.

Apesar de “Electric” perder força ao final do álbum, este foi o passo certo no momento certo. “Peace”, depois de ouvir a versão “Electric-Peace” lançada em 2013, com toda sua pompa, provavelmente não faria a banda alcançar o sucesso que alcançou quando seguiu a estrada de riffs explosivos culminando no disco de ouro no Reino Unido (quarto lugar nas paradas), além de vender quase três milhões de cópias pelo mundo afora e alcançar o TOP 40 nos Estados Unidos.

Não há outra banda como o The Cult cujas inteligentes canções são capazes de transmitir as mais diversas sensações com vocais apaixonados e guitarras estrondosas. Em “Electric” eles criam o inesperado e nos brindam com um discaço de Rock!

João Paulo Gomes

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