
Com uma existência relativamente nova no cenário do Distrito Federal, o Undying vem impressionando pelas conquistas, além de uma sonoridade um pouco peculiar, quando comparada as tradicionais bandas de Death Metal que atuam hoje em dia. Conversamos com os fundadores do grupo, o guitarrista Igor e o vocalista/guitarrista Solon, sobre esses feitos da banda, influências e um pouco sobre cada lançamento do grupo.
Por Victor Augusto
Fotos gentilmente cedidas pela banda

Metal Na Lata: O Undying tem relativamente pouco tempo de estrada, mas já possui bastantes conquistas, chegando a participar de coletâneas fora do Brasil, incluindo uma na revista britânica Terrorizer. Como foi a criação da banda até estabelecerem à formação atual?
Igor: Eu e o Solon tocamos juntos desde 2012, quando eu ainda estava no Ensino Médio. No início, tocávamos alguns covers do Megadeth para entrosar, mas sem expectativa de formar banda. No mesmo ano conhecemos um amigo baterista e resolvemos tocar algumas músicas juntos. Ficamos empolgados com os ensaios e começamos a compor, mas foi só em 2015 que realmente tivemos condições, porém o baterista não mais estava em Brasília. Aí iniciou a Undying, sendo somente nós dois. No mesmo ano, após as gravações, conseguimos um baterista, Adam (ex-Dante in Flames), e um baixista, Flávio, e começamos a fazer alguns shows. Com menos de um ano, ambos tiveram que sair. Com isso outra formação veio, com o Talison (Eleven Gates) na bateria e o Dimas (ex-Morbek) no baixo. Com a saída do Talison veio o Victor (ex-Nuclear Dash), que está na banda desde o Lucifer Untold. Agora estamos em trio, pois o Dimas teve que se afastar.

Metal Na Lata: O primeiro EP, “Notes of a (not) Dead Man” (2015), contou somente com Igor (guitarra) e Solon (guitarra/vocal) na gravação. Como foi esse primeiro passo para se ter um material gravado e qual a importância que vocês acreditam que esse registro gerou para a evolução atingida no álbum posterior?
Solon: Tínhamos a intenção de gravar nossos materiais assim que concluídos, mas não conseguíamos fixar um baixista e um baterista na banda, então resolvermos fazer apenas nós dois com a ajuda do produtor musical na época e assim foi o primeiro passo do EP. Trabalhar com os recursos disponíveis. Acreditamos que a importância dele para o desenvolvimento do disco seguinte, tanto a temática quanto a composição, mostra uma ligeira realidade diferente que a banda se encontrava dentro do estilo, exortando composições mais elaboradas e tema mais criativo e severo.
Metal Na Lata: Na sequência deste EP, a banda gravou o primeiro disco completo, o “Lucifer Untold” (2017), que é um álbum muito completo e maduro. Conte-nos como foi o processo de criação até a gravação dele.
Igor: A criação do Lucifer Untold começou em 2016 em questão lírica, mas as composições já remetiam a 2015. A estrutura básica das composições foi feitas por mim e pelo Solon, depois apresentamos ao Victor e ao Dimas para darem o “toque” deles. Com relação ao processo de criação, basicamente abrimos nosso “banco de riffs” e vimos “o que” e “como” encaixava “onde”. Após isso que vinha os solos, para estes seguirem o feeling da base já composta. A gravação foi decidida na base da pesquisa mesmo, quando batemos o olho na estrutura do Laboratório Musical e no produtor, Gustavo Magalhães (Vougan, ex-Dark Avenger), já gostamos logo. Queríamos também ter uma experiência de estúdio diferente, que nos levou a escolher outro que não o estúdio anterior.
Metal Na Lata: A faixa de “The Light of My Name”, que abre o disco, tem a participação muito especial da cantora norueguesa Liv Kristine (Leaves’ Eyes, Theatre of Tragedy), onde ela interpreta a anjo pela qual Lúcifer se apaixona na história criada pela banda. O vocal lírico dela criou um excelente contraste ao vocal gutural de Solon. Como surgiu a ideia de convida-la e como conseguiram chegar até ela?
Solon: A banda Leaves’ Eyes é um fenômeno para mim, mas o maior impulso partiu de outra grande banda de influência para nós, que também é, particularmente, mais enaltecida por mim, o Cradle of Filth. Sou fascinado pelos temas e composições da banda! E uma das músicas expoente para mim, como para qualquer fã, é a clássica “Nymphetamine” (do álbum de mesmo nome, lançado em 2004), então eu pensei, “Vou tentar chamar a Liv”. Simples assim o pensamento, porém bem ansioso com a tentativa. Mandamos e-mail e ela respondeu pessoalmente! Uma mulher incrível! Foi ótimo corresponder com ela, muito atenciosa e solícita, assim como o produtor que ela utilizou lá na Europa.

Metal Na Lata: Não só o conceito lírico do álbum, mas o instrumental é muito impactante. Como a banda pensa na composição? O som é criado depois de estabelecido o conceito textual ou não tem um critério definido?
Igor: Ambos estamos ligados às composições, porém eu sou mais ligado ao instrumental e o Solon ao lírico. Quando componho, normalmente, já tenho uma melodia na cabeça, aí só pego a guitarra e transponho pra partitura. Faço isso com tudo que penso, e aí nosso “banco de riffs” está sempre cheio, já que o Solon também contribui com isso. As músicas vêm da junção de tudo isso, mas os riffs têm que ter feeling para serem ligados, isso é o que mais demora no processo de composição. O som é criado antes de tudo, e o conceito textual vem após.

Metal Na Lata: O mais recente EP “Holy BeLIEve” de 2018 também aborda um tema bíblico de certa forma, mas dessa vez voltado para o lado da igreja e sobre a inquisição. Como vocês chegaram e elaboraram esse conceito e como surgiu a ideia de convidar Emiliano Costa (vocalista da banda Mofo) para a faixa “What Remains Is The Hollower’s Whispers”?
Solon: O conceito partiu da ideia de abordarmos inversão de valores e tormento. Como a temática religiosa, como mitologia, é um grande atrativo para mim, pensei em um padre altamente convicto de suas doutrinas e de sua igreja, no entanto, soturno, ele começa a questionar a Inquisição; época em que está inserido o personagem. O tema vai continuar de uma forma extraordinária no segundo álbum da banda, esse ano! Aguardem! Sobre o Emiliano, ele é um amigo como todos os membros da banda Mofo, além de um vocalista ímpar! Então, como todos nós somos da cena da cidade, foi até que natural chegarmos à conclusão de chamar ele.
Metal Na Lata: Se compararmos a sonoridade do EP “Holy BeLIEve” com o disco anterior, o “Lucifer Untold”, percebemos uma brusca mudança na produção, onde vocês fizeram uma gravação bem crua e soturna. Seria uma abordagem proposital ao lado mais Black Metal, já que antes o Death Metal era predominante no som de vocês? Há intenção de regravar algum desses sons num futuro álbum, com uma produção melhor?
Igor: Não é exatamente uma abordagem proposital, porém a voz do Solon combina bem com essa característica e acaba por puxar um pouco para esse lado. Creio que essa percepção de abordagem seja mais forte, também, devido às características da produção. No momento não pensamos em regravar, pois já estamos com “bala na agulha” pro segundo álbum. Mas quem sabe no futuro.
Metal Na Lata: As concepções das letras do Undying abordam temas ligados à religião num contexto diferente do que vemos na maioria das bandas. O “Lucifer Untold” se assemelha a uma saga contada, a cada faixa, em uma versão recriada da história sobre Lúcifer. Em “Holy BeLIEve” a abordagem de tema religioso também surge em um prisma diferente. Vocês tentaram se diferenciar, propositalmente, dos taxados temas satânicos, antirreligioso e anticristo, que são vastamente abordados por bandas do estilo de vocês?
Solon: Sim, o pressuposto para chegarmos a esses mesmos temas recorrentes, mas com abordagens distintas do comum, é proposital justamente para fazer diferente. A intenção é criar enredos, personagens e derivados para construir uma narrativa em cima dos temas, como você citou e propor uma visão, como eu disse anteriormente, da religião como mitologia, como histórias, como contos e nada ortodoxo como conhecemos.

Metal Na Lata: Alguns erros de gravação acabam sendo eternizados de tão legais que ficam, a exemplo do Ringo Star (Beatles) esbravejando no final de “Helter Skelter”, que tinha bolhas na mão, após várias tomadas de gravação da bateria. Outro exemplo é o cover de “Paranoid” (Black Sabbath) feito pelo Megadeth, onde Nick Menza não parou de tocar a bateria e foi advertido por Dave Mustaine, berrando “Nick, Nick, Nick” repetida vezes. Parece que o baterista Victor Cassimiro tentou entrar para história também, em “Blackened Are the Priests”, cover do Venom que fecha o mais recente EP, onde podemos ouvir vocês o advertindo que a música já tinha acabado. Contém o que aconteceu nessa parte da gravação.
Igor: Pensamos exatamente nisso (risos). Quando gravamos a bateria do faixa cover, o Victor teve que tocar sem guia, só no metrônomo e continuou tocando por “infinitos” compassos após acabar a música. Eu e o Solon ficamos na sala do lado, ouvindo, gesticulando para cessar, mas não deu certo (risos). Isso é algo bem tranquilo de se resolver com edição, porém pensamos: “Não vamos editar, vamos deixar o mais real possível, vamos falar exatamente o que queríamos falar naquela hora”. E aí foi isso, gravamos e colocamos ao final da música aquelas tosqueiras (risos).
Metal Na Lata: Como músicos, em quem vocês se inspiraram para começar a aprender a tocar seus respectivos instrumentos? Hoje em dia, em quem vocês se inspiram para compor e tocar no Undying?
Solon: Como guitarrista, meu primeiro guitar hero foi Dave Mustaine e acho que por ser uma inspiração em comum para mim e para o Igor. Foi o que nos juntou na banda. Também sou um devoto entusiasta das composições de Jon Schaffer e, obviamente, de Chuck Schuldiner. Sobre cantar, foi só porque a gente não encontrou nenhum vocalista disponível, por isso eu resolvi tentar (risos)! Não tenho uma influência particular de vocalista.
Igor: Minha primeira inspiração foi o Angus Young, quando comecei a tocar há quase 10 anos atrás. Naquela época eu era tão viciado que cheguei a tocar a discografia quase toda do AC/DC (risos). Atualmente minha inspiração vem mais do Jon Schaffer e Chuck Schuldiner. Há outros, porém esses dois me fazem arrepiar.
Metal Na Lata: O Undying além de tocar “Crystal Mountain” (Death) ao vivo e ter gravado o cover de “Blackened Are the Priests” (Venom), também gravou versões de bandas fora do Death Metal, como ”A Question of Heaven” (Iced Earth) e “Family Tree” (Megadeth). Essas bandas são influências diretas para o Undying, além de serem para os músicos, ou a escolha delas são aleatórias?
Solon: São influências mais indiretas, mas ainda assim presentes. O Iced Earth com suas belíssimas construções que fazem conversar peso e velocidade com melodias limpas e memoráveis é visto com bastante frequência em nossas faixas. O Megadeth já é um pouco mais utópico; como foi o que uniu eu e o Igor, a gente tem uma influência da banda de forma mais onírica.

Metal Na Lata: Ter uma banda de Metal extremo no Brasil é sempre desafiador. Afora os gastos e pouco retorno, ainda temos inúmeros problemas a parte. Como vocês conciliam a vida pessoal com a banda? Qual a maior dificuldade vocês têm encontrado para poder mostrar o trabalho do Undying?
Igor: É bem complicado conciliar, pois são universos bem diferentes, mas damos um jeito. Trabalhamos manhã e tarde e em algumas raras e desocupadas noites, nos reunimos para tratar de algo mais importante. No mais, o contato por celular é suficiente. Às vezes faltamos alguns programas em família e amigos, dormimos menos e descansamos pouco para dar conta da banda, mas vale à pena. Para se ter noção, na época de gravação do “Lucifer Untold”, foram meses indo todo dia para o estúdio após o trabalho, por volta das 20h e voltando às 01h para casa, tendo que acordar 5h30 para ir trabalhar. Foi sofrido (risos). Mas as risadas e amigos que a vida em estúdio proporciona e a alegria de ver sua arte concretizada é maior!
Solon: A maior dificuldade, no momento, creio serem as duas. A primeira é o tempo, pois cada vez mais as responsabilidades com trabalho e família aumentam e aí para organizar tudo é complicado. A segunda, e não menor, é a financeira. Gravar é um grande investimento, assim como instrumentos, manutenção de instrumentos, ensaios, a gasolina que envolve tudo isso, entre outros gastos…uma hora a grana acaba e temos que reorganizar as coisas para deixar sustentável. Esse é um dos motivos de termos tomado conta da produção e gravação do “Holy Believe”.
Metal Na Lata: Obrigado pela participação. Espaço está aberto para as considerações finais.
Igor e Solon: Agradecemos ao Metal Na Lata pela oportunidade e ao redator Victor Augusto pelo enorme suporte que dá ao underground. Tu é fera! Agradecemos também aos amigos e bandas que caminham juntos nessa loucura que é ter uma banda de metal nas terras tupiniquins. “Tamo” junto!
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