
AC/DC – “Highway to Hell” (1979)
Atlantic Records
#ClassicRock, #HardRock
Para fãs de: Aerosmith, Guns N’ Roses, Kiss
Nota: 10
Quando o AC/DC foi introduzido ao Rock and Roll Hall of Fame em 2003, Steven Tyler, vocalista do Aerosmith, foi enfático: “Não há no mundo maior fornecedor de power chords!” Mas “Highway to Hell”, que completa 40 anos neste 26 de julho, provou que o grupo era muito mais que isso.
O ano de 1978 estava chegando ao fim. Enquanto se preparava para gravar seu sexto álbum, o problema de o AC/DC não ter ainda conseguido emplacar sua música nas rádios americanas chegou ao ponto de ebulição. Por mais que os produtores Harry Vanda e George Young tenham desempenhado um papel fundamental em ajudar a banda a encontrar seu som distinto e pesado — além de terem acabado de produzir o grande sucesso pop internacional “Love Is In the Air”, de John Paul Young —, a diretoria da Atlantic nos Estados Unidos insistiu em substituí-los, acreditando que o grupo deveria trabalhar com alguém cujo estilo de gravação os levasse direto para as paradas norte-americanas.
O escolhido pela Atlantic foi o sul-africano Eddie Kramer, que no alto dos seus 36 anos já havia trabalhado com o KISS e com o Led Zeppelin, para quem mixou “Houses of the Holy”. Banda e produtor concordaram em se reunir no Criteria Studios, em Miami, na Flórida, em fevereiro de 1979, para começar a trabalhar no que se tornaria “Highway to Hell”. A gravação com Kramer mal havia começado quando se descobriu que a sua abordagem, muito diferente da sempre didática de George, não daria certo com os Young. “Tire-nos daqui”, implorou Malcolm ao empresário Michael Browning por telefone. “Simplesmente não está funcionando.”
Por sugestão de Browning, foi dada uma chance a Robert John “Mutt” Lange, de 30 anos, que teve sucesso com o The Motors e o The Boomtown Rats, primeiro lugar no Reino Unido com o álbum “Rat Trap”. Empregando várias técnicas de produção que tornaram a banda mais atraente para as massas sem suavizar o seu som — como a adição de backing vocals mais robustos nos refrões —, Lange foi capaz de refinar a música do AC/DC sem alterar a sua essência. Ele também obrigou Angus a gravar seus solos na sala de controle, e até mesmo deu ao guitarrista algumas dicas de como tocar melhor.
No repertório, à suprema faixa-título, que representa tudo o que Angus, Malcolm, Bon Scott e os outros aprenderam em cinco anos de rock, tanto musical como liricamente — para Angus, a letra é um resumo da incansável trajetória da banda, e cada palavra que Bon canta tem origem em experiências da vida real —, somam-se verdadeiros clássicos do cânone do AC/DC, como “Girls Got Rhythm” (onde se pode ouvir a influência de Lange nos backing vocals), “Shot Down in Flames” (mais uma para a série de relatos de desventuras amorosas de Bon, com um humor que se assemelha ao de “Whole Lotta Rosie” ou “The Jack”), “Love Hungry Man” (na qual o vocalista explicita sua ânsia por uma foda) e “Night Prowler”, a “Midnight Rambler” do grupo, que adquiriu contornos sinistros devido à relação estabelecida com o serial killer Richard Ramirez em meados dos anos 1980. Isso sem contar “Touch Too Much”, um hino aos perigos dos excessos, que apesar de ter entrado nas paradas do Reino Unido, só faria sua estreia nos palcos em 2016, com Axl Rose no vocal.
Terminada a gravação, a banda e Browning se reuniram em Nova York em abril para uma ouvir o produto final. Pouco foi dito quando o LP tocou; não havia necessidade. Todos na sala sabiam que aquele era “o” disco, um verdadeiro game-changer, um apanhado de músicas que as rádios norte-americanas não podiam ignorar. Em tempos pré-MTV e pré-internet, “Highway to Hell” foi recebido com críticas entusiasmadas pela imprensa especializada, e o boca-a-boca apaixonado dos fãs o tornou o primeiro álbum do AC/DC a entrar no Top 100 dos EUA, com mais de sete milhões de cópias vendidas.
Infelizmente, a maior realização musical da banda até então foi a última com o vocalista Bon Scott, que morreu no começo do ano seguinte após uma noite de bebedeira. O colossal “Back in Black” seria dedicado a ele.
Marcelo Vieira




