
Alice Cooper – “Trash” (1989)
Epic Records
#HardRock
Para fãs de: Aerosmith, Bon Jovi, Winger
Nota: 10
Alice Cooper estava de férias no Havaí quando Bob Pfeifer, A&R da Epic Records, entrou em contato dizendo: “Se você um dia decidir trocar de gravadora, me ligue.” Por mais grato que fosse à MCA, responsável por seu retorno (“Constrictor”, 1986) e consolidação (“Raise Your Fist and Yell”, 1988), Alice tinha ciência de que, quando o assunto era hard rock, o selo não possuía a força de uma Geffen (lar do Guns N’ Roses), uma Mercury (Bon Jovi) ou uma Atlantic, que recentemente havia contratado o Winger, banda de seu ex-baixista, Kip Winger. Além do mais, a Epic prometia não poupar despesas: “Faça o que você acha que deve ser feito; nós pagamos.”
Com a faca e o queijo na mão, Alice pediu alto: queria Desmond Child. No final dos anos 1970, Child coescreveu “I Was Made for Lovin’ You” em parceria com os integrantes do KISS abrindo as portas para compositores externos em bandas de rock. Entre seus trabalhos seguintes, destacam-se a colaboração com o Bon Jovi, que resultou nos hits “You Give Love a Bad Name” e “Livin’ On a Prayer”, e com o Aerosmith: reza a lenda que do primeiro encontro de Child com Steven Tyler surgiu “Angel”, escrita em apenas 45 minutos.
Esse era o tipo de música que Child escrevia e o tipo de música que Alice gostaria de se ouvir cantando. E a dupla fez exatamente o que precisava ser feito para dominar as paradas americanas em “Trash”, lançado em 25 de julho de 1989. Além de compor em escala industrial, Child era muito bem-relacionado. Com isso, entre as quarenta músicas separadas para o ainda vindouro álbum de Cooper, figuravam composições de Jon Bon Jovi e Richie Sambora – “Hell Is Living Without You” – e Joan Jett. Recém-saída da inércia graças a “I Hate Myself for Loving You”, ela contribuiria com “House of Fire”, um dos quatro futuros singles.
Por falar em singles, o primeiro deles foi “Poison”. Lançada no começo daquele mês, a música não só foi o maior sucesso comercial de Alice na América, mas seu maior sucesso de todos: o sétimo lugar nos Estados Unidos só seria superado por um monstruoso segundo lugar no Reino Unido. E não foi só isso: com o clipe de “Poison”, Alice encontrou espaço na programação da MTV, tornando-se conhecido do público que só então entenderia a piada de sua aparição no filme “Quanto mais idiota melhor”.
Em “Poison”, Cooper canta sobre fazer o papel de trouxa, não resistir àquela morena que trata você feito lixo. Versos como “I wanna hurt you just to hear you screaming my name” encontram eco no single seguinte, “Bed of Nails”, que torna consensual o elemento masoquista de “Poison”. Duas décadas mais tarde, o Children of Bodom a apresentaria a uma nova geração de metaleiros.
A balada “Only My Heart Talkin’” fecha o quarteto de músicas de trabalho com um acento ‘aerosmithiano’ que vai muito além do fato de Steven Tyler ser um de seus coautores; aqui, o vocalista do Aerosmith contribui também com backing vocals de luxo e uma gritaria sem precedentes na lamentosa reta final da canção.
Apesar da ascensão estupenda – “Trash” era o maior álbum de Alice desde “Welcome to My Nightmare” (1975) e o próprio Alice declarou que o achava o melhor LP que já gravou em anos –, a crítica não perdoou. A SPIN criticou o Alice “bonzinho” ao dizer que “Trash” era tão bizarro quanto seria ouvir Barry White cantar sobre cobras e bebês mortos, mas os números diziam justamente o contrário. Comparações entre “Bed of Nails” e “You Give Love a Bad Name” do Bon Jovi eram recorrentes, mas quem se importava?
“Não quero ser uma figura antiga e glorificada. Quero estar à frente de todas as inovações enquanto ainda estiver atuando no meio.” Passados trinta anos, “inovador” pode não ser o melhor adjetivo, mas “Trash” marcou a última vez que Alice Cooper pôde ser considerado um competidor genuíno no mercado, pois, por melhor que seu sucessor, “Hey Stoopid” (1991), fosse, depois de “Nevermind”, lançado no mesmo ano, o mundo nunca mais foi o mesmo.
Marcelo Vieira





