
Pense num cara que não tira férias. Natural da ilha de Sollerön, na Suécia, Erik Mårtensson possui um dos currículos mais extensos do Hard Rock europeu. Sua idade é um mistério até mesmo para os maiores detetives da Internet, mas sua produção, iniciada em meados dos anos 1990, é vasta e detentora de indiscutível qualidade. O fio condutor do super bate-papo que você lerá abaixo é “Paradigm”, o recém-lançado oitavo álbum do Eclipse (resenha aqui), mas Erik, atualmente em turnê com a banda, encontrou espaço entre uma passagem de som e outra para responder a muitas outras perguntas, não necessariamente ligadas à música. Acompanhe!
Por Marcelo Vieira e Gustavo Maiato
Colaboração por Johnny Z.
Fotos: Divulgação e Facebook Eclipse

Metal Na Lata: “Paradigm” está sendo vendido como a obra-prima do Eclipse. Para aqueles que não conhecem a banda, você o considera a melhor forma de conhecê-la?
Erik Mårtensson: Sem dúvida. Acho que “Paradigm” mistura bem tudo aquilo que fizemos antes, além de coisas que jamais tínhamos feito, então, sim, é o álbum perfeito para conhecer a banda.
Metal Na Lata: Como você descreveria o som de “Paradigm” em comparação com “Armageddonize” e “Monumentum”? Em quais aspectos a banda evoluiu desses dois discos até hoje?
Erik Mårtensson: Em cada álbum nós tentamos encontrar o nosso som, a nossa identidade, a nossa maneira de tocar hard rock, e eu acho que demos um importante passo com “Paradigm”.
Metal Na Lata: As capas de “Monumentum” e “Paradigm” são bem parecidas. Pode-se dizer que vocês estão tentando encontrar a sua linguagem visual também?
Erik Mårtensson: Sim, estamos tentando estabelecer esse símbolo, da caveira com a coroa, como uma marca registrada nossa, como o Motörhead fazia com o seu. Em matéria de capas, tentamos mantê-las o mais básicas possível.

Metal Na Lata: Há algumas influências de música celta no álbum ou é impressão minha?
Erik Mårtensson: Na verdade, é música folk sueca, mas ambas são bem similares, pois datam de muito, muito tempo.
Metal Na Lata: Também notei que “Paradigm” tem um quê de contestação, com letras que podem ser interpretadas como questionamentos e análises dos confrontos esquerda versus direita em ascensão na Europa e no resto do mundo. Estou certo na minha leitura?
Erik Mårtensson: Está, sim. Estamos vivendo tempos estranhos com a extrema direita ganhando força em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos e no Brasil. A democracia vive um momento de crise atualmente.
Metal Na Lata: Então você concorda que o rock não deve fechar os olhos para os problemas do mundo?
Erik Mårtensson: Acho que todo mundo deveria colocar a boca no trombone. O problema é que as pessoas têm medo de se manifestar, e assim os tiranos tomam conta do mundo com suas soluções simplistas para questões complexas.
Metal Na Lata: Como você vê o atual cenário político da Europa especificamente?
Erik Mårtensson: O cenário na Europa é basicamente o mesmo do resto do mundo, com partidos populistas, redes sociais, fake news e líderes como [Donald] Trump, que espalham notícias falsas o tempo todo e usam as redes sociais para manipular as pessoas, tentando cercear suas liberdades.
Metal Na Lata: Você participa de uma porção de projetos paralelos, incluindo o Age Sten Nielsen’s Ammunition, o Nordic Union e o W.E.T. Podemos concluir, a partir disso, que o Eclipse não supre todas as suas necessidades musicais?
Erik Mårtensson: O Eclipse encapsula todas as razões pelas quais eu decidi me tornar músico. A importância dos projetos paralelos é poder trabalhar com músicos de fora, artistas fantásticos como Ronnie Atkins (Pretty Maids), Jeff Scott Soto, Age… Mas o Eclipse é, sim, a minha banda principal.
Metal Na Lata: Em março você foi escolhido pela revista japonesa BURRN! um dos dez maiores compositores do mundo. Como funciona o seu processo de composição? Você compõe de modo específico para cada banda ou o destino da canção só é definido posteriormente?
Erik Mårtensson: Quando é a hora de compor músicas para o W.E.T., eu foco em compor apenas para o W.E.T. O mesmo vale para o Nordic Union e para o Eclipse, ou seja, é um processo 100% focado. Às vezes até acontece de eu compor algo e depois pensar que tal música se encaixaria melhor no repertório de outra banda, mas é coisa rara, o trabalho focado funciona bem para mim.
Metal Na Lata: Você pode dar um exemplo de algo composto para uma banda que acabou em outra?
Erik Mårtensson: Há uma música em “Paradigm” chamada “When the Winter Ends” que foi originalmente composta para o W.E.T., mas quando a toquei para Magnus [Henriksson, guitarrista], ele disse: “Isso soa bem Eclipse, você guardaria ela?”. Fiquei meio reticente no começo, mas acabei concordando, então a tirei do W.E.T. e guardei-a para o Eclipse.

Metal Na Lata: Já que você tocou no assunto, falemos agora do W.E.T. A resenha de “Earthrage” publicada no Metal Na Lata começa assim: “O mundo é um lugar melhor quando Robert Säll, Erik Mårtensson e Jeff Scott Soto encontram espaço em suas agendas e se reúnem para um novo álbum do W.E.T.” Esse pensamento é meio que unânime na mídia especializada e nos fãs. Sendo assim, porque o W.E.T. nunca saiu em turnê ou mesmo se apresentou fora da Europa? Não seria lucrativo o bastante a ponto de você e os outros darem uma pausa nos seus outros projetos para caírem na estrada por um tempo?
Erik Mårtensson: A grande dificuldade é encontrar espaço na agenda. O Eclipse é a minha prioridade no momento, Jeff tem sua própria banda, SOTO, o Trans-Siberian Orchestra e muitos outros projetos, e o Robert tem os seus próprios. Ou seja, vivemos muito ocupados. Mas os poucos shows que fizemos foram fantásticos. Jeff é um cara incrível.
Metal Na Lata: No caso, então, é melhor perdermos as esperanças de uma turnê mundial do W.E.T.?
Erik Mårtensson: Uma turnê mundial jamais acontecerá, mas haverá muitos outros shows do W.E.T. nos próximos anos. Quando chegar a hora certa, todos gostaríamos de cair na estrada, pois é algo que queremos fazer, só não podemos fazer agora devido às nossas outras ocupações.
Metal Na Lata: Tendo em vista que o Eclipse já tocou no Japão, nos Estados Unidos e na Austrália e que “Paradigm” está sendo lançado no Brasil, há planos de uma turnê pela América do Sul?
Erik Mårtensson: Adoraríamos tocar na América do Sul. Não vivemos a chance ainda, mas seria fantástico. Quando voltou da turnê com o Avantasia, Ronnie [Atkins] nos disse: “vocês precisam ir à América do Sul!”.
Metal Na Lata: Algum produtor local já entrou em contato com vocês?
Erik Mårtensson: Tenho conversado com o Carlos [Chiaroni, da Animal Records]. Estamos vendo a possibilidade de alguns shows por aí no futuro.
Metal Na Lata: Nessas turnês, o Eclipse abriu shows para bandas do porte de Aerosmith, Deep Purple e Scorpions. Como foi tocar ao lado de nomes que provavelmente foram e são influências para você?
Erik Mårtensson: Bandas grandes assim nunca fazem passagem de som. Chegam na hora do show, em suas limusines, de modo que você não os vê nem para dizer um “oi”. No caso do Scorpions, [o baterista] Mikkey Dee sempre vinha confraternizar com a gente nos bastidores, mas o resto da banda chegava de helicóptero e ia embora de helicóptero assim que deixava o palco. Depois dos shows, cada um dos integrantes do Aerosmith ia embora em sua própria limusine! Numa dessas datas com o Aerosmith, porém, o Alter Bridge tocou depois de nós e eles foram incríveis. [Mark] Tremonti e o vocalista [Myles Kennedy] foram super gentis conosco.
Metal Na Lata: Por mim, eu gostaria de saber se você leu a acusação que o guitarrista Timo Tolkki (ex-Stratovarius) fez a você nas redes sociais. Ele diz que “The Masquerade”, do Eclipse, é uma cópia descarada de uma música do Revolution Renaissance chamada “Revolution Renaissance”. Ele disse ainda que entraria com uma ação contra a Frontiers por plágio etc.
Erik Mårtensson: Me contaram essa história. Timo pode dizer o que bem entender, mas eu nunca, jamais, ouvi a tal música dele, então não teria nem como eu copiá-la. Ouvindo-a posteriormente até que as duas soam parecidas, mas ambas são construídas sobre progressões de acordes muito comuns. Para mim, “The Masquerade” soa como “Carmina Burana”, a peça clássica, então posso dizer que Timo copiou “Carmina Burana”? Também se parece com aquela música da Shakira, “Whenever, Wherever” [cantarola o refrão]. Então, se a minha música é uma cópia da dele, a dele é uma cópia da música da Shakira. Enfim, ao contrário dele, eu ficaria honrado se alguém copiasse uma música minha, pois significaria que eu inspirei a pessoa a compor. Tomar isso como uma ofensa em vez de como um elogio é deveras estranho.
Metal Na Lata: O que os fãs podem esperar de você no próximo ano? Que novidades Erik Mårtensson nos apresentará em 2020?
Erik Mårtensson: O foco para 2020 será tocar ao vivo com o Eclipse. Faremos muitos shows no ano que vem, portanto, eu duvido que venha a gravar algo novo com algum dos meus outros projetos.
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, Erik. Espero que você tenha gostado tanto quanto a gente. Que tal encerrarmos com um recado para os seus fãs no Brasil e para os leitores do Metal Na Lata?
Erik Mårtensson: Muito, muito obrigado! Recebo inúmeros e-mails dos fãs nos pedindo para tocar aí… tenham certeza de que estamos fazendo o possível para que isso aconteça! Um grande abraço para Melissa Telles, nossa fã de longa data. Nós iremos até vocês, Brasil, eu prometo! Se cuidem!

Mais informações:
www.eclipsemania.com
www.facebook.com/EclipseSweden
www.instagram.com/eclipse_sweden





