Metal na Lata

Entrevista com Michael Denner (Denner’s Inferno)

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Lenda viva do metal, Michael Denner possui um currículo, no mínimo, invejável. Pioneiro do heavy escandinavo, foi membro fundador do Mercyful Fate, grupo com o qual gravou cinco álbuns, incluindo os clássicos “Melissa” (1983) e “Don’t Break the Oath” (1984). Também tocou em “Fatal Portrait” (1986) e “Abigail” (1987), primeiros voos solo do vocalista King Diamond. Mas o foco da entrevista que você está prestes a ler é outro. Em 2019, mesmo ano em que foi deixado de fora da reunião do Mercyful Fate, Denner pôs na praça “In Amber”, estreia em disco de seu novo projeto, Denner’s Inferno, lançado recentemente no Brasil pela Hellion Records. De seu isolamento na Dinamarca, onde vive e é dono da histórica loja de discos Beat-Bop, o guitarrista conversou com o Metal Na Lata sobre o momento atual de sua carreira e foi enfático: voltar ao Brasil seria um sonho tornado realidade. Boa leitura!

Por Marcelo Vieira
Fotos: Divulgação

Metal Na Lata: Tenho a impressão de que “In Amber” foi feito com o objetivo de promover uma volta às raízes, como se você tivesse aproveitado a oportunidade para revisitar os primórdios da sua carreira. Foi essa a intenção?

Michael Denner: Você está certíssimo. É uma volta ao estilo musical que eu mais amo, e fazer tudo exatamente como eu quis foi reconfortante. Sempre fiz parte de bandas com outros indivíduos de personalidade forte, com grande participação na tomada de decisões, mas, desta vez, eu sou o responsável por todas elas.

Metal Na Lata: Você mencionou anteriormente em uma entrevista que bandas como o Blue Öyster Cult o inspiraram. Dessa perspectiva, podemos supor que você esteja também prestando uma homenagem aos seus heróis dos anos 60 e 70?

Michael Denner: Oh sim, sou um grande fã e colecionador de álbuns de bandas de rock pesado do final dos anos 60 e início dos anos 70!

Metal Na Lata: Quem além do Blue Öyster Cult você inclui entre os seus heróis?

Michael Denner: Trapeze, Captain Beyond, Montrose, Led Zeppelin, Uriah Heep, Deep Purple, UFO e Scorpions com Uli Jon Roth são alguns dos meus grupos favoritos.

Metal Na Lata: Existem muitas bandas da nova geração que tentam emular o som do rock dos anos 70 por sua própria conta e risco. Na sua perspectiva de ouvinte, quais dessas bandas têm mandado bem e merecem atenção?

Michael Denner: Há muitos bons exemplos de bandas genuinamente inspiradas pelo rock setentista que vêm fazendo um bom trabalho. Firebird, Siena Root, B.U.S., Lugnet, o sueco Dust e Gentlemen’s Pistols são alguns nomes que chamaram a minha atenção – tenho discos de todos eles na minha coleção, inclusive.

Metal Na Lata: Como o próprio nome sugere, o som do Denner’s Inferno baseia-se na guitarra. Mas quando se trata de composição, direcionamento musical e negócios, os outros integrantes têm direito a alguma opinião ou é um caso de “ou faz do meu jeito ou cai fora”?

Michael Denner: Eu tomo todas as decisões, mas estou sempre aberto a sugestões. Cometi o erro de estabelecer uma democracia na minha banda anterior, Denner’s Trickbag, e o resultado foi desastroso. Então, me livrei de todos, mantendo apenas o meu velho amigo, Flemming [Muus], que toca baixo no Denner’s Inferno.

Metal Na Lata: Vamos agora falar sobre “In Amber”! “Fountain of Grace” aparece no primeiro álbum do Force of Evil (1999). Por que regravá-la com arranjo diferente e ainda escolhê-la como primeiro single?

Michael Denner: Compus “Fountain of Grace” em parceria com meu letrista, Jesper Harrits, em 1999. O Force of Evil quis incluí-la no álbum, mas na minha opinião não funcionou. A linha vocal de Martin Steene não era bem o que eu queria e não fez justiça à minha música. Desde então eu senti que ela precisava ser refeita, com a melodia original, e desta vez tudo se encaixou. Devo acrescentar, no entanto, que Martin fez um excelente trabalho em todo o restante do álbum do Force of Evil.

Metal Na Lata: Há outras músicas do álbum que remontem a tempos atrás?

Michael Denner: Flemming tocou o riff de “Veins of the Night” para mim pela primeira vez em 1977. Mantive-o engavetado desde então até finalmente compor o restante da música para inclusão em “In Amber”.

Metal Na Lata: O momento mais “galopante” do álbum – leia-se “Matriarch” – é notavelmente menos agressivo que qualquer coisa que o Mercyful Fate tenha lançado. Teria você estabelecido um limite do tipo “esse é o máximo de peso permitido nesse álbum”?

Michael Denner: Não, não. Eu diria que “Matriarch” é o meu lado anos 70, enquanto “Fountain of Grace”, na contramão disso, é puro doom metal, e isso vale para todo o álbum. Não impus limites, mas quis apresentar as muitas faces do meu gosto musical. O próximo álbum será mais metal, algumas das músicas novas já indicam essa direção.

Metal Na Lata: A instrumental “Castrum Doloris” soa mais como uma jam do que como uma música propriamente dita. A banda se viu precisando de mais uma faixa para completar o álbum ou vocês estavam apenas brincando no estúdio e resolveram incluir o resultado disso no repertório?

Michael Denner: [Risos] Foi exatamente isso. Flemming, Bjarne [T Holm] e eu estávamos brincando com essas linhas de baixo e pensamos, “por que não as gravar e usá-las no álbum?” O príncipe da Dinamarca havia sido enterrado em Castrum Doloris naquele dia, daí o nome da faixa.

Metal Na Lata: As letras do álbum também enfatizam um senso de acessibilidade, em detrimento do caráter épico típico das composições baseadas em fantasia. Quando se trata de letras, qual é a principal diferença entre escrever sobre fantasia e escrever coisas mais cotidianas e palatáveis? Você sente que esse tipo de letra dialoga melhor com o headbanger comum?

Michael Denner: Jesper, que é um tremendo pensador, e eu passamos horas discutindo mentalidades e pensamentos sobre nossas próprias vidas. Gosto de manter as letras dentro do mundo real e temperá-las com um pouco de misticismo para que o ouvinte possa fazer sua própria leitura a partir das palavras. Não me sinto melhor nem mais inteligente por isso.

Metal Na Lata: Os outros músicos desempenham papéis importantes no álbum, mas o maior contraste vem com os vocais de Chandler Mogel, que soa como um tenor mais alto e direto, milhas e milhas distante da persona operística extravagante de King Diamond. Qual foi a resposta imediata dos fãs? Tendo tocado com um vocalista tão estridente por tantos anos, é revigorante ter uma abordagem diferente nos vocais?

Michael Denner: É reconfortante ter Chandler a bordo. Sempre fui fã de tenores com grandes vozes e habilidades melódicas, como Robert Plant, Ian Gillan, David Byron etc., mas como sempre acontece quando faço um álbum sem King [nos vocais], os fãs se dividem entre os que amam e os que odeiam o resultado.

Metal Na Lata: Mats Léven estava prestes a se juntar a você nas próximas datas da turnê, que sabe-se lá quando serão remarcadas. Mas ele se tornará um membro em tempo integral? Qual das habilidades dele fez você querer levá-lo a bordo?

Michael Denner: Mats é um ótimo cantor de heavy metal. Me sinto muito feliz em tê-lo a bordo, mas apenas como contratado por enquanto.

Metal Na Lata: Você pretende tocar músicas do Mercyful Fate nos shows futuros?

Michael Denner: Sim, haverá músicas tanto de “Melissa” como de “Don’t Break the Oath” no setlist!

Metal Na Lata: Por falar em Mercyful Fate, os fãs têm tentado descobrir por que você foi deixado de fora da recém anunciada reunião da banda. Você acredita que a decisão de King de excluí-lo está ligada a ele não querer dar visibilidade ao Denner’s Inferno ou você acredita que é mais uma questão de dinheiro?

Michael Denner: Sei exatamente por que fiquei de fora. King e eu tivemos um pequeno desentendimento há alguns anos, que nunca foi resolvido, então esse é o resultado. É claro que me sinto triste por estar de fora disso, principalmente pelos fãs, mas, honestamente, eu não sabia sobre essa reunião até dois dias antes do anúncio oficial. Um detalhe que me deixou muito zangado foi terem chamado de reunião da formação original, mas pensando bem, por que dividir [o dinheiro] por três quando você pode dividir por dois?

Metal Na Lata: Como dono de uma loja de discos, qual é a sua análise do atual cenário, com as plataformas digitais lentamente tomando o lugar dos formatos físicos? Você acredita que essa regra não se aplica quando o assunto é o rock e o metal?

Michael Denner: Fico feliz em dizer que a volta do vinil faz parte do meu dia a dia na Beat-Bop, e, sim, os colecionadores mais dedicados são os fãs de rock em todas as suas vertentes. Fãs de pop consistem numa pequena fatia, então o digital não afeta tanto o meu negócio.

Metal Na Lata: Já que “In Amber” foi lançado recentemente no Brasil, os fãs podem nutrir esperanças de ver o Denner’s Inferno tocar ao vivo no país?

Michael Denner: Seria um sonho tornado realidade voltar ao Brasil!

Metal Na Lata: Que lembranças você guarda do nosso país?

Michael Denner: O entusiasmo e a paixão dos fãs são avassaladores. O Brasil é completamente o oposto à fria e cinzenta Escandinávia. Eu amo a Dinamarca, mas esse contraste é fantástico.

Metal Na Lata: Se você pudesse escolher uma música que gravou para ser colocada “em âmbar” e enviada via máquina do tempo para um futuro distante no qual seria descoberta e reverenciada, qual seria e por quê?

Michael Denner: “Fountain of Grace” resume tudo aquilo que sou como compositor e guitarrista. Essa seria a minha escolha.

Metal Na Lata: Muito obrigado pelo seu tempo, Michael! Vamos encerrar com uma mensagem para os fãs brasileiros e os leitores do Metal Na Lata!

Michael Denner: Eu que agradeço por tantas perguntas interessantes de responder! Como eu disse, seria um sonho tornado realidade voltar ao Brasil. Caso isso ocorra, espero encontrar você e todos vocês, fãs, por lá. Meus melhores cumprimentos a todos!

Mais informações:

www.facebook.com/DennersInferno

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