
ENTREVISTA EXCLUSIVA COM MICK HOPKINS E MALCOLM COPE (QUARTZ)
Os “pioneiros esquecidos do heavy metal” parece ser uma boa maneira de definir o Quartz. Na ativa desde meados dos anos 1970, quando atendia pela alcunha de Bandy Legs, o grupo foi instrumental no desenvolvimento do metal britânico, além de ter revelado ao mundo o talento de Geoff Nicholls (1944-2017), que por vinte e três anos foi tecladista e braço direito de Tony Iommi no Black Sabbath. Na entrevista que você lerá a seguir, o guitarrista Mick Hopkins e o baterista Malcolm Cope relembram histórias de décadas atrás — confirmando alguns mitos e fazendo cair por terra outros —, além de falarem sobre os recentes relançamentos de clássicos do Quartz no Brasil e de darem algumas dicas do que está por vir para a banda em 2020. Boa leitura!
Por Marcelo Vieira
Fotos: Divulgação
Metal Na Lata: Em matéria publicada no site Ultimate-Guitar.com em abril de 2016, David Slavkovic definiu o Quartz como os “pioneiros esquecidos do heavy metal”. Mas a verdade é que vocês começaram como banda de apoio de um cantor de soul, correto?
Mick Hopkins: Isso mesmo. O Bandy Legs era a banda de apoio de Jimmy Helms, que chegou ao primeiro lugar das paradas em 1973 com “Gonna Make You An Offer You Can’t Refuse”. Além disso, Geoff e eu também acompanhamos Jimmy em outro single, “Ragtime Girl”, tocando teclado e guitarra, respectivamente.
Metal Na Lata: Você também tocou com Cat Stevens.
Mick Hopkins: Sim, no Wages of Sin, com Brian e Ed Pilling, como banda de apoio de Cat Stevens, que mudou o nosso nome para Zeus.
Metal Na Lata: E antes disso?
Mick Hopkins: Quando eu tinha apenas 16 anos, minha primeira banda, Gerry Levene and the Avengers — que futuramente contaria com um jovem Roy Wood nos vocais — abriu para os Beatles no Cavern Club, em Liverpool. Também toquei no The Diplomats com Bev Bevan (The Move, ELO) e nos grupos Nicky James Movement e Way of Life com John Bonham (Led Zeppelin).
Malcolm Cope: Todos os integrantes do Bandy Legs tocaram em inúmeras bandas e já conheciam uns aos outros e eram bons amigos até decidirem se juntar. Mick havia tocado com [o vocalista] Taffy [Taylor] e [o baixista] Derek [Arnold] no Lemon Tree, tendo lançado dois singles, e depois Mick, Derek e eu tocamos juntos no Copperfield, que também chegou a lançar alguns singles.
Mick Hopkins: Fiz parte do Lemon Tree e do Copperfield antes de ser convidado por Dave Walker (Savoy Brown, Fleetwood Mac) para entrar no The Idle Race depois que Jeff Lynne saiu para formar o The Move com Roy Wood. Depois, fiquei um tempinho no Canadá, onde me reuni com os irmãos Pilling no Fludd e, por fim, voltei a Birmingham para formar o Bandy Legs.

Metal Na Lata: Como era a cena musical na Inglaterra em meados dos anos 1970? O que vocês recordam daquele tempo em que o heavy metal ainda estava dando os primeiros passos?
Malcolm Cope: A cena musical ainda estava em desenvolvimento e foi uma época de muita efervescência, com vários estilos musicais brotando. Juntamente com o blues, o rock pesado teve um papel importante na gente através de bandas como Led Zeppelin e Black Sabbath, que também era de Birmingham e soava mais pesado que qualquer um. Havia muitas bandas vindas dos Estados Unidos também, que tocavam em casas como o Mothers Club, que tinha uma ótima reputação e atmosfera — o Pink Floyd gravou a fatia ao vivo do seu álbum “Ummagumma” (1969) lá. Bons tempos, de fato. Tudo já indicava o surgimento do heavy metal.
Metal Na Lata: O Bandy Legs assinou com a Jet Records, de Don Arden, em 1976. Don era conhecido no meio por suas táticas de negócios ora agressivas ora ilegais. Vocês estavam cientes disso na época da assinatura do contrato?
Malcolm Cope: Nós já conhecíamos Don desde antes de assinarmos com a Jet Records, pois nosso empresário, Wilf Pine, já havia trabalhado para o Don e já havia nos empresariado nos grupos anteriores.
Mick Hopkins: Nós estávamos cientes, mas isso nunca nos incomodou. Don nunca chegou a ser agressivo conosco ou com nenhum de seus outros artistas. Se bem que no dia a dia nós lidávamos mais com seu irmão, David Arden.
Metal Na Lata: E quem teve a ideia do nome Quartz?
Mick Hopkins: Foi Ronnie Fowler, gerente da gravadora, que sugeriu o nome Quartz. Tendo em vista que o nosso estilo musical havia tomado uma direção mais pesada, a mudança soou mais do que apropriada na época.

Metal Na Lata: Na minha opinião, Tony Iommi copiou “Mainline Riders” em “Heaven and Hell”. Vocês sentiram o mesmo quando a ouviram em 1980?
Mick Hopkins: Geoff estava com Tony durante a composição de “Heaven and Hell” e, na realidade, foi ele quem compôs a linha de baixo da música. Bill [Ward] e Ronnie [James Dio] ouviram, se juntaram aos dois, começaram a dar vida à música e o resto é história.
Malcolm Cope: Tony foi incrivelmente solidário conosco oferecendo seu tempo, esforço e comprometimento na produção e gravação do nosso primeiro álbum (1977). Ele desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento e na construção de “Mainline Riders”, inclusive tocando as harmonias de guitarra que se ouve nela, mas não pôde ser creditado por isso na época.
Metal Na Lata: De fato, o DNA de Tony pode ser sentido ao longo de todo o primeiro álbum. Em que aspectos a experiência dele ajudou vocês na época?
Malcolm Cope: Tony passou horas e horas conosco na pré-produção do álbum e chegou até a assistir a alguns shows nossos. Sua experiência teve um valor inestimável e sua destreza como produtor é digna de admiração. Tony nos fez inúmeras sugestões pelas quais lhe seremos eternamente gratos.
Mick Hopkins: Foi um tempo de muito aprendizado, de fato. Nós vínhamos tocando uma miríade de estilos musicais até começarmos a gravar o nosso primeiro álbum e Tony foi muito prestativo como nosso guia para o mundo do metal.
Metal Na Lata: Então vocês não sentiram como se Tony houvesse “roubado” Geoff de vocês?
Mick Hopkins: Geoff deveria ter ajudado Tony por duas ou três semanas inicialmente, mas acabou ficando [no Black Sabbath] por quase vinte e quatro anos… acho que isso fala por si só!

Metal Na Lata: Reza a lenda que Ozzy Osbourne gravou alguns backing vocals no disco, mas que Tony os cortou da mixagem final. É verdade isso?
Malcolm Cope: Ozzy fez backing vocals em uma música que acabou não entrando no disco. A música se chamava “Circles” e acabaria sendo lançada em 1980 como lado B do single “Stoking Up the Fires of Hell”. Na verdade, Tony abaixou tanto o volume da voz de Ozzy na mixagem que mal se pode ouvi-la.
Metal Na Lata: E a história de que você recusou entrar na banda de Ozzy também é verdade?
Malcolm Cope: Ozzy me ligou quando o Quartz estava em turnê pela Inglaterra com o Rush me perguntando se eu gostaria de fazer um teste para a nova banda que ele estava formando, mas eu estava — e ainda estou — totalmente comprometido com os meus companheiros de Quartz.
Mick Hopkins: Mas Malcolm tocou em algumas demos do álbum “Born Again” (1983) do Black Sabbath porque Bill estava doente e a gravação já estava agendada, com todos os demais integrantes já presentes.
Metal Na Lata: Com o Rush foi na turnê de “Permanent Waves” (1980), certo? O que vocês têm a dizer sobre essa experiência?
Mick Hopkins: Geddy Lee me disse que havia me visto tocar com o Fludd no Canadá e que desde então admirava a maneira que eu toco guitarra. Quando Geddy, Alex [Lifeson] e Neil [Peart] descobriram que o Quartz estava sendo hospedado em [acomodações do tipo] Bed and Breakfast, nos convidaram para usufruir do seu serviço de catering pelo restante da turnê. Todos os três no Rush eram músicos incríveis capazes de fazer músicas inacreditáveis, mas, ainda assim, eram amigáveis e pés-no-chão. Foi uma baita turnê que guardarei para sempre na memória.
Metal Na Lata: Qual foi o envolvimento de Brian May (Queen) no álbum seguinte, “Stand Up and Fight” (1980)?
Mick Hopkins: Na verdade, Brian fez uma visita a Tony durante as gravações do nosso primeiro disco nos Morgan Studios em Londres e se ofereceu para dar um “tratamento Queen” a uma de nossas músicas. Nós o deixamos trabalhando enquanto fomos a um pub confraternizar. Ao voltarmos, lá estava Brian, sentado no chão, as pernas cruzadas, cercado por metros e mais metros de fita de áudio. Ele admitiu que, depois de inúmeras tentativas, havia chegado à conclusão de que a nossa versão original soava melhor — o que fez todo mundo cair na gargalhada.

Metal Na Lata: Apesar de ter sido instrumental no desenvolvimento do heavy metal, o Quartz, como muitos de seus contemporâneos, não obteve o sucesso de bandas como Black Sabbath e Judas Priest. A quais fatores vocês atribuem isso?
Mick Hopkins: Talvez à sorte ou talvez ao timing ruim aliado a quem você conhece na cena, problemas de gerenciamento e mesmo ao fato de o público não achar você grande coisa ou você não ser grande coisa no fim das contas. O mercado da música pode ser muito inconstante às vezes e não há regras a serem seguidas para se obter sucesso. Além do mais, a imprensa pode tanto ajudá-lo quanto destruí-lo. Ninguém tem uma bola de cristal; portanto, o que se pode fazer é dar o melhor de si, permanecer fiel àquilo em que acredita e não desistir do seu sonho, por mais difícil e frustrante que possa ser às vezes.
Metal Na Lata: Em setembro do ano passado, o vocalista Dave Garner pegou todo mundo de surpresa ao decidir sair da banda. Uma vez que não encontraram um substituto a tempo, vocês tiveram de cancelar a apresentação no Brofest UK. Como está sendo a busca por um novo vocalista?
Malcolm Cope: Foi um choque quando Dave saiu, pois estávamos no meio das gravações do álbum seguinte a “Fear No Evil” (2016). No momento, estamos focados em terminar esse projeto. Infelizmente, tivemos de cancelar também uma apresentação prevista para o final de fevereiro e, até o momento, ainda não conseguimos encontrar um vocalista substituto.
Mick Hopkins: Complementando a fala de Malcolm, nós estamos gravando o novo álbum com alguns “amigos” e uma vez que ele esteja finalizado nós retomaremos a busca por um novo vocalista para, aí sim, voltarmos aos palcos tocando as músicas novas para os nossos fãs que permaneceram conosco tanto nos altos quanto nos baixos.

Metal Na Lata: Tanto o primeiro álbum do Quartz como o ao vivo “Live Quartz” (1980) foram recentemente relançados no Brasil pela Classic Metal Records. Isso, obviamente, ajudará a apresentar o som do Quartz para um novo público no Brasil, além de dar aos fãs de outros tempos a oportunidade de finalmente adquirir esses dois clássicos em CD. Qual o envolvimento de vocês nesses relançamentos?
Malcolm Cope: A Classic Metal comprou a licença desses dois álbuns através de uma intermediária localizada aqui na Inglaterra. Denis [Pedro Zuliano] e Patricia [Vera Zuliano], os donos da Classic Metal, vieram nos ver tocar em Bolton com o Troyen enquanto viajavam pela Europa em lua de mel, e foi aí que estabelecemos nosso primeiro contato.
Mick Hopkins: Denis e Patricia são um casal e tanto e nós estamos muito felizes com essa parceria e por estarmos associados a eles através desses relançamentos exclusivos para o Brasil. É muito bom que a nossa música possa ser ouvida por um público maior e mais amplo e isso se deve principalmente a pessoas como Denis e Patricia. É ótimo que nós ainda estejamos ativos e aptos para tal.
Metal Na Lata: Sobre tocar na América do Sul, quando deve rolar?
Malcolm Cope: Não está nos planos no momento, mas adoraríamos tocar na América do Sul quando e se as circunstâncias nos permitirem. Vamos manter os dedos cruzados e ver o que o futuro nos reserva. Uma vez que resolvamos a questão do vocalista e todos estejamos em condições de viajar e tocar, tentaremos fazer o máximo de shows possível em festivais na Inglaterra e em toda a Europa e, espero, em outros continentes para que possamos finalmente dizer “nos vemos em breve”!

Metal Na Lata: Além do novo disco, o que está nos planos do Quartz para 2020?
Mick Hopkins: Esperamos conseguir lançar o novo disco ainda esse ano. Além disso, haverá um show em tributo ao nosso saudoso amigo Geoff Nicholls, no terceiro aniversário de sua morte. Levou mais tempo do que gostaríamos para acertar todos os detalhes, mas acreditamos que a espera terá valido a pena.
Metal Na Lata: Muitas bandas no decorrer dos anos gravaram covers de músicas do Quartz. De quais vocês mais gostam?
Mick Hopkins: Particularmente, gosto muito das versões de “Satan’s Serenade” do Roxxcalibur e de “Stand Up and Fight” do Orodruin.
Malcolm Cope: Estamos sempre dispostos a ouvir covers das nossas músicas, e eu me sinto bastante lisonjeado sempre que uma banda faz um cover nosso. Você já ouviu as versões de “Mainline Riders” pelo Dagger (Alemanha) e de “Tell Me Why” pelo Crystal Viper (Polônia)?
Metal Na Lata: Vou ouvir assim que terminarmos! Aliás, estamos quase lá. A última pergunta é sobre legado. Se vocês pudessem escolher uma música do Quartz para sintetizar a história da banda, qual seria e por qual razão?
Malcolm Cope: Pergunta difícil essa. Mas se eu tivesse que escolher uma, seria “Satan’s Serenade” devido ao clima, à energia e a quanto nós nos divertimos gravando-a na época.
Mick Hopkins: “Stand Up and Fight” porque foi uma trajetória longa e árdua até chegarmos onde estamos agora.
Metal Na Lata: Mick e Malcolm, muitíssimo obrigado por esse bate-papo que lembrarei para sempre. Como último pedido, vocês poderiam deixar uma mensagem para os fãs do Quartz no Brasil e para os leitores do Metal Na Lata?
Malcolm Cope: Muito obrigado a todos no Brasil que encontraram algo de valioso na música do Quartz em todos esses anos. Obrigado pelo apoio, e eu espero que vocês sigam conosco nessa jornada pelos anos que ainda estão por vir.
Mick Hopkins: Esperamos ter respondido bem a todas as perguntas e esperamos que os leitores do Metal Na Lata fiquem empolgados com a música do Quartz e com tudo que está por vir. Rock on!
Agradecimentos ao Tim, assessor de imprensa do Quartz, por ter viabilizado essa entrevista.
Mais informações:
www.facebook.com/quartzbackintheband






