Entrevista exclusiva com Criss Sexx

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Criss Sexx
é figura conhecida no cenário hard rock brasileiro. Em atividade há 25 anos, já fez de tudo: cantou no primeiro tributo ao Poison do Brasil, gravou uma porção de discos e, à frente do Bastardz, abriu as portas para que mais bandas glam surgissem no país. Como líder da Nympho, cruzou os sete mares e fez sua música ser ouvida nos quatro cantos do mundo. Menos de seis meses após o fim da Nympho, Criss está de volta, num vôo solo em roupagem totalmente acústica. Saiba mais sobre “Acoustichaos” neste bate-papo exclusivo para o Metal Na Lata!

Por Marcelo Vieira

Metal Na Lata: Antes de qualquer coisa, o que motivou o fim da Nympho?

Criss Sexx: A banda começou a se desintegrar quando o nosso segundo CD, “Alone In The Dark”, foi lançado na Europa por um selo alemão. Os caras roubaram feio, o que deu uma grande desmotivada na banda. Depois de fazer participações nos shows acústicos de Carl Dixon (Coney Hatch) e Johnny Lima na Inglaterra, achei que era hora para gravar as cinco músicas inéditas de “Not That Innocent”, com as participações desses caras que sempre foram meus ídolos. Eles acreditavam tanto no trabalho que não me cobraram um centavo para gravar as suas partes. Mesmo assim, o baixista Olavo Barroka e o guitarrista Eric Provout estavam bem desmotivados. Terminamos as gravações e pintaram umas oportunidades muito boas, mas eles preferiram sair da banda. Foi quando a “mágica”, a “química” da banda se perdeu. Assinamos então com um selo americano e tivemos que fazer um vídeo às pressas. Como não havia mais “uma banda”, só eu apareço no clipe de “Flush Your Heart Away”, que se tornou a nossa segunda maior música. Levamos um calote ainda maior que o que tomamos no segundo disco, e acabamos tendo que refazê-lo, portanto há duas versões dele. Depois, foi difícil manter o nome com as constantes saídas e entradas de músicos, alguns deles muito bons, outros bem menos do que pensavam que eram. Em janeiro, após 10 anos de altos e baixos, decidi não mais seguir com a banda, pois estava cansado dos dramas e problemas, que eram muito mais frequentes do que o prazer e a grana.

Metal Na Lata: Você concorda que fazer hard rock no Brasil é tipo fazer samba na Suécia?

Criss Sexx: É difícil fazer qualquer tipo de música no Brasil, pois os egos dos músicos são gigantescos. O mercado aqui nunca foi grande coisa para quem já não tivesse grana para investir. Em meus 25 anos na música, já toquei com gente muito bacana, algumas pessoas que considero e respeito bastante até hoje. Mas houve também muitas pessoas extremamente “amadoras”, que nunca quiseram evoluir ou que, por acharem que a banda tinha discos lançados no exterior, achavam que faziam parte do Van Halen ou do Mötley Crüe. Infelizmente, muitos não têm cabeça para estar numa banda, enquanto estar numa banda sobe à cabeça de outros. A sabotagem entre as bandas é muito triste, pois ao invés de se ajudarem, de serem unidas, pois estão todas no mesmo barco, muitas ainda querem ver e fazem o impossível para denegrir as outras. Gente com mais de 40 anos agindo feito adolescente. Se já é difícil fazer música aqui, fica ainda pior quando temos que lidar com esse tipo de gente. O Brasil não será o berço do próximo Nikki Sixx, do próximo Jon Bon Jovi, do próximo Paul Stanley e nem do próximo Eddie Van Halen. Só que ainda pensam que isso vai acontecer. Triste ver que as bandas não caem na real.

Metal Na Lata: Como está sendo essa transição da dinâmica de banda para a de artista solo? Está notando muita diferença na maneira de trabalhar?

Criss Sexx: Na verdade, eu nunca quis ser um artista solo. Primeiro porque teria que “bancar” músicos de apoio, e segundo porque sempre gostei do lance de “banda”. Foi assim desde a minha adolescência. Mesmo sendo, na maioria das vezes, o único compositor e o produtor de demos e CDs, eu queria ter uma “banda”. Esse novo disco solo foi feito de uma forma interessante. Fiz muitos contatos lá fora por causa do trabalho da Nympho. Uma fã da banda, da Europa, tornou-se minha amiga e conversávamos frequentemente durante a decepção que tive com o processo do último disco. Nessa época, eu ouvia o disco “Stories To Tell”, do Richard Marx, sem parar. Era meio de 2013, e essa amiga quis ouvir esse disco, pois é também uma grande fã de discos acústicos. Ela gostou muito e me perguntou se nunca tinha passado pela minha cabeça fazer algo parecido. Eu disse que sim, mas que a banda não estava estabilizada para gravar uma música que fosse. Para a minha surpresa, ela disse que se eu fizesse um disco acústico solo, e não da Nympho, ela financiaria as gravações. Fiquei extremamente feliz com a ideia e então comecei a compor. Eu já tinha feito uma música totalmente nova, “Try Again”, mas não estava em um bom momento para compor. Daí busquei no meu acervo músicas que nunca tinham sido gravadas, ou músicas bem antigas que poderiam ter outra roupagem. Cavei músicas que antes só tinham sido gravadas em demos, além de finalmente reescrever em inglês algumas músicas que eu já havia gravado em português, mas que as bandas em que estive sempre recusaram, dizendo que eram “pop demais”. Em 2014 escrevi mais três músicas novas, “If There’s A Place In Your Heart”, “When It Comes To Loving You” e “Thank You For Who You Are”. Com essas e mais “Have You Ever”, escrita por Mike Tramp (White Lion) e “Missing You”, escrita por Ted Poley (Danger Danger), eu tinha o meu disco.

Metal Na Lata: Vamos falar sobre “Weird”, que teve o videoclipe lançado recentemente. A letra é claramente um desabafo, mas também um tapa na cara de eventuais haters. O que te motivou a escrevê-la?

Criss Sexx: “Weird” foi escrita para o “Alone In The Dark”, da Nympho, mas foi “vetada” pela banda, mesmo que a sua demo original coubesse perfeitamente naquele CD. Musicalmente, ela é simples, mas a sua introdução “quebrada” foi sempre confusa para as pessoas que a ouviram. Como a introdução é realmente meio estranha, achei apropriado chamá-la de “Weird”. E você está certo, a música é sobre mim mesmo, mas não é um “tapa na cara” de ninguém. Desde pequeno até hoje, sempre fui o “esquisito” na família, na escola, no trabalho, e até na música. Mas nunca encarei isso como algo negativo. Mesmo não tendo lançado o álbum, quem ouviu a música achou, de primeira, uma letra triste. Mas logo a maioria das pessoas que ouviram se identificaram. Quem nunca se sentiu “esquisito”? Quem nunca foi chamado de “esquisito”? Seja na forma de falar, de andar, de se vestir, de ser…  Na verdade, quem realmente não é “esquisito”? As pessoas lidam com esse adjetivo de formas diferentes. Eu sempre o achei positivo. Nunca quis ser o aluno exemplar, um grande cantor, um músico erudito. Sempre quis ser diferente, e fui, sem muitos esforços. Posso ser alguém muito amigável, mas também alguém muito reservado. Algumas frases da música ilustram o que eu disse perfeitamente. O refrão em si é que deveria estar em minha lápide: “I am so weird, I can’t help it, it’s the way I feel when you look at me — I am so weird, I can’t fight it, am I just a freak for the world to see? I don’t know… Does it show?” … Esse sou eu. Sobre os “haters” que você mencionou… Eu me divirto com eles! Gente relativamente “nova” me sabotando de diversas formas em diferentes ocasiões, mas ao mesmo tempo não deixando de copiar algumas das minhas táticas… Tenho pena, pois por mais que faça, nunca chegarão perto do que já conquistei. Não estou sendo arrogante, mas sempre achei que devemos pensar “alto” para atingir “médio”. É simplesmente lamentável.

Metal Na Lata: Sobre o clipe, de onde surgiu a ideia de fazê-lo da maneira que foi feito? Como foi a adesão dos amigos de dentro e fora do país?

Criss Sexx: Tive a ideia com o vídeo “Pink”, do Aerosmith, que é bem diversificado. Não queria fazer algo parecido com os vídeos que fiz com a Nympho, onde a banda era o grande foco. No começo, não achei que a ideia de reunir pessoas diferentes, não só daqui do Brasil, mas também lá de fora, iria dar certo. Entrei em contato com mais de 50 pessoas de todas as partes do mundo, já sabendo que algumas não topariam participar do vídeo, que outras diriam que sim, mas sumiriam ou mudariam de ideia, e outras talvez realmente topassem. Tive sorte de receber material de gente muito interessante, realmente “Weird”, como também de velhos amigos aqui do Brasil. Como recebi mais material do que era necessário, infelizmente tive que deixar algumas pessoas de fora. Tantas pessoas diferentes, com caras e culturas diferentes… todas elas são “Weird”… Foi divertido fazer o vídeo, mesmo com todo o trabalho que deu para editar, pois eu sempre tinha uma ideia nova, e resolvia mudar alguma coisa. Fiquei feliz com o resultado, e acho que quem participou desse vídeo também. Serei eternamente grato à essas pessoas. Amigos do Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e Índia. Vale lembrar que essas pessoas são as estrelas, o foco do vídeo, e não eu. Eu simplesmente apareço nele, sem qualquer maquiagem ou grande produção. Como todos os vídeos que recebi eram “caseiros”, decidi que as minhas partes também seriam. Enfim, as pessoas que estão no vídeo de “Weird” são a parte mais importante dele.

Metal Na Lata: Sobre o novo álbum que está por vir, pode adiantar detalhes?

Criss Sexx: O álbum se chama “Acoustichaos”, e tem 11 músicas. Raphael Diguez, com quem trabalhei nas músicas inéditas de “Not That Innocent”, e eu tocamos todos os violões, eu fiz todos os vocais, e ele, todas as partes de piano e teclados. Embora a produção pareça mais simples, deu tanto trabalho ou mais do que fazer um álbum de rock. A voz tem que estar impecável, os violões em completa sincronia, e os teclados e piano foram o “plus”. Tudo isso com os coros “Def Leppard” e combinações de vozes no estilo Bon Jovi, muito usadas nesse novo álbum, que fui aprendendo a fazer em estúdio durante os anos. Tenho muito orgulho desse trabalho. Infelizmente, como hoje em dia a venda de CDs não é mais como era, estará disponível apenas em formato digital.

Metal Na Lata: Há planos para promover o álbum? Pretende realizar shows?

Criss Sexx: Sim, pretendo promover o álbum nas redes sociais e, com certeza, conto com a ajuda dos meus amigos de todo o mundo. Tenho vontade de fazer mais uns dois ou três vídeos para esse álbum, independente de qualquer coisa. Quanto a shows, seria ótimo poder tocar algumas músicas do “Acoustichaos”, outras da Nympho e, com certeza, algumas das minhas favoritas de outras bandas que gosto, no formato do álbum, ou seja, com no mínimo dois violões e duas vozes. Lembra-se do que eu disse antes sobre como a maioria dos músicos é? Pois então… é complicado achar um guitarrista que toque o violão principal e que saiba cantar também, pois a segunda voz no estilo “Sambora” é importante nas músicas novas. Pintando um que esteja disposto a fazer alguns shows, e tendo espaços para tocar, eu não pensaria duas vezes. Não sou um grande guitarrista, para fazer shows assim, com certeza, precisaria de, pelo menos, mais alguém no violão principal, pois apenas escrevo as canções.

Metal Na Lata: Podemos afirmar que, com o lançamento desse novo álbum, um novo ciclo se inicia na sua carreira? O que podemos esperar do Criss Sexx a partir de agora?

Criss Sexx: O novo “Acoustichaos” não quer dizer que eu tenha a pretensão de ser um artista solo. É um trabalho que mostra outro lado meu como músico, que visa uma realização pessoal, e espero que as pessoas gostem do que vão ouvir. Não tenho mais aspirações de me tornar um músico conhecido, pois o tempo passou e, morando no Brasil, acho que fui até o máximo que eu podia, tendo como alvo o mercado internacional. Dificilmente acontece o que o Steel Panther conseguiu — fazer sucesso depois dos 40. Bem, vou promover esse novo álbum da melhor forma possível, embora não tenha grana para investir em propaganda, e nem o tempo para ficar nas redes sociais, como eu tinha nos dias da Nympho. Embora esse novo trabalho tenha uma roupagem mais “pop”, sempre serei um cantor de rock. Acho que não gostaria mais de ser o “líder”, ou a pessoa responsável. Depois dos 40 começamos a dar importância a outras coisas, nosso foco muda naturalmente. É claro que gostaria de continuar tendo a liberdade de compor e produzir novos materiais, pois sei que sou muito bom no que faço. Tendo grana, gravar mais material, que seja um pouco diferente das outras coisas que fiz antes — não é o meu objetivo repetir exatamente o que fiz nos meus discos solo e nos discos da Nympho. Talvez trabalhe em composições mais pesadas, como o Kiss fez em “Revenge” e o Mötley Crüe no CD com o John Corabi. Gostaria também de, em algum momento, poder trabalhar com produção de outras bandas. São muitas as possibilidades que abri desde o fim da Nympho. Eu também consideraria fazer um “revival” com o Bastardz, se eles topassem fazer alguns shows com a formação original. Toparia fazer isso hoje pela importância que a banda teve no Brasil. Fomos a primeira banda de Glam Rock do país. Só depois que surgimos e lotamos alguns bares de São Paulo que o pessoal teve coragem de seguir esse caminho. Todas as bandas desse estilo que surgiram depois de 2000 nos devem muito, pois o Bastardz mostrou que “ser Glam” no Brasil era possível, mesmo que em um nível underground. Independente do que aconteça, não quero ficar parado.

Metal Na Lata: Você tem acompanhado os lançamentos das bandas nacionais de hard rock? E das gringas? O que vale a pena ouvir/o que você tem ouvido?

Criss Sexx: Serei bem sincero. Não acompanho e nunca acompanhei as bandas de Hard Rock nacionais. Sei que há muitas, mas em sua maioria, talvez por falta de grana, não fazem bons trabalhos. Acham que gravar uma demo é mandar fazer a prensagem dos CDs é tudo. E não é. Mas a maioria das bandas brasileiras se empolga e lança “qualquer material” como um registro oficial. Algumas bandas daqui até entraram em contato comigo durante esses anos, pedindo opinião sobre músicas, e até perguntando se era possível terem CDs ou demos produzidas por mim. Mas aí, como todo “bom brasileiro”, pensavam que seria na amizade (traduz-se aqui “de graça”). Trabalhar com produção, timbragem, edição e mixagem, embora seja gratificante, não é nada divertido, e muito trabalhoso. Já passei oito horas seguidas em estúdio. Enfim, a resposta para essa pergunta é não. Quanto aos lançamentos internacionais, sempre! Como “colecionador fanático” talvez eu nunca deixe de comprar os lançamentos das bandas e artistas que gosto. Uma pena que não haja mais ótimas novas bandas lá de fora também. Prefiro ficar com as bandas que conheço a comprar os CDs das bandas da moda. Talvez a última grande banda que surgiu, na minha opinião, tenha sido a norueguesa Ammunition, do ex-vocalista do Wig Wam.

Metal Na Lata: Você acha que o hard rock de hoje em dia fica devendo ao hard rock dos anos 80 e 90? Se sim, em que aspectos?

Criss Sexx: Talvez não, diferente do que a maioria acha. As bandas que tentaram, no meio dos anos 90, mudar de estilo radicalmente, conseguiram recuperar grande parte dos antigos fãs. Outras, como o Bon Jovi e o Aerosmith, seguiram um caminho mais “pop” para continuarem no topo. Há também artistas que, depois de anos, continuam lançando trabalhos ótimos, mesmo que os fãs “old school” pensem o contrário. A qualidade é algo básico. Se o mercado se fechou para os grandes, imagine para aqueles que são médios ou pequenos… Ainda há grandes e médias bandas que fazem excelentes discos. Gostaria que surgissem novos artistas bons, mas não vejo isso acontecendo.

Metal Na Lata: Valeu pelo papo, Criss! Pra terminar, manda o seu recado final para os leitores do Metal Na Lata!

Criss Sexx: Eu gostaria de agradecer à todos que sempre acompanharam o meu trabalho, desde a época solo, dos tempos do Bastardz, da Nympho… Gostaria que todos soubessem que é muito gratificante ainda estar na ativa depois de tantos anos. Seria bacana se pudessem checar o novo vídeo de “Weird” e o novo trabalho, “Acoustichaos”, que sairá no dia 30 de junho. Para as bandas sérias que busquem um vocalista, entrem em contato pelo e-mail [email protected] ou pelas redes sociais! Grande abraço para todos! Rock On!

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