
“O máximo grau da agitação do ânimo irado”, essa é apenas uma das definições que o dicionário Aurélio nos dá para a palavra fúria, e quem conhece o mínimo que seja da carreira dos maranhenses do Fúria Louca sabe que essa definição se aplica muito bem a banda. São quase 15 anos de estrada, uma demo e 3 álbuns completos, entre eles “Ella Maligna”, lançado em 23 de abril deste ano. Conversamos com Tiago Guinevere (baixo) que abordou não apenas o novo álbum e todo o desdobramento proveniente dele, mas sim também as drásticas mudanças de formação que aconteceram com a banda.
Por William Ribas
Fotos gentilmente cedidas pela banda
Metal Na Lata: É inevitável não começar nossa entrevista sem fazer essa pergunta. Vocês lançaram “Ella Maligna” e quase que em seguida foi anunciada a saída do vocalista e fundador da banda, Henrique Sugmyama. O que motivou sua saída?
Tiago Guinevere: O Henrique estava insatisfeito com o modo que produzíamos nossas músicas. As composições individuais sofrem um processo de alteração, se assim a maioria decidir. Henrique queria que suas músicas só fossem alteradas com a palavra final dele. Com a negativa, ele decidiu não fazer mais parte da banda no momento, e sua saída foi amistosa.
Metal Na Lata: Um dia após, o anúncio da saída de Henrique, foram anunciados a entradas de Guilherme Ferre (vocal) e Matheus Penha (bateria). Tudo muito rápido, sem chance até dos fãs assimilarem a saída do vocalista, como chegaram nos novos membros?
Tiago Guinevere: Guilherme e Matheus já tocavam em banda de bar com o Hugão (guitarrista do Fúria) nas noites de São Luís/MA, então nada mais natural que fossem convidados. Aceitaram o desafio.
Metal Na Lata: Vocês não temeram que toda essa troca fosse prejudicar a divulgação do novo disco?
Tiago Guinevere: Todo o processo de lançamento do novo disco já foi prejudicado desde Agosto do ano passado, quando Henrique decidiu sair da banda. Já estávamos cientes disso, ficando negociado que a divulgação do “Ella Maligna” seria de maneira mais básica.
Metal Na Lata: Falando sobre o novo álbum, “Ella Maligna”, é o terceiro álbum do grupo e vem mais maduro, e até certo ponto, distante do que foi feito nos dois primeiros trabalhos de estúdio. Vocês sentiram que era hora de dar uma leve mudada no estilo da banda?
Tiago Guinevere: Achamos que há uma certa confusão quando parte da comunidade do rock nos avalia como Hard Rock daquele modo glam de Los Angeles. Nossa base musical sempre foi voltada para bandas como Ratt, Wasp, Krokus e Accept, dos discos “Balls to the Wall”(1983) e “Metal Heart” (1985), ou seja, um Hard N’ Heavy. Sem intenções, apenas com naturalidade, “Ella Maligna” acabou soando mais o lado “heavy”, então não diria que houve mudança no estilo, apenas uma evolução nos arranjos das músicas.
Metal Na Lata: De onde veio a inspiração para música “Champion”, que tem peso, técnica e um refrão marcante.
Tiago Guinevere: É um objetivo da banda tentar superar o clichê musical de festas, bebidas e sexo. Com os temas de “Ella Maligna” conseguimos avançar um pouco (risos). A sonoridade de “Champion” me lembrava um esforço físico, como a disciplina da musculação. Com essa inspiração, escrevi uma homenagem aos verdadeiros “campeões da vida”: o trabalhador de chão de fábrica, que sustenta seus filhos, é vilipendiado cada vez mais com a perda de direitos na CLT e na previdência, e mesmo assim, ainda tem tempo para fazer seus exercícios.
Metal Na Lata: A última faixa de “Ella Maligna” chama-se “Stephanie Rocks”, uma homenagem póstuma a publicitária Stephanie Sernaiotto. Conte-nos um pouco sobre esta música.
Tiago Guinevere: Depois do acidente em que perdemos nossa amiga Stephanie, ficamos meses em consternação. Numa roda de violão, puxando uma melodia mais emotiva, decidimos que ali faríamos essa homenagem. A letra é uma celebração à sua vida, e nos inspiramos nos cânticos de igreja da comunidade negra americana para fazer o refrão.

Metal Na Lata: Para promover o novo álbum, foram lançados os lyric vídeo para faixas “Gentleman Ghost” e “Vegas & Hell”. Porque essas faixas? Como chegam num consenso de que tal música deve virar um single e clipe?
Tiago Guinevere: Na verdade, não são estes os singles. Somos meio bagunçados nessas definições, apenas achamos que estas 2 músicas teriam narrativas divertidas para fazer animação.
Metal Na Lata: A capa do disco novo traz uma mulher sensual e bastante enigmática. Quem seria “Ella Maligna”?
Tiago Guinevere: “Ella Maligna”, a mascote da banda, é uma Drag Queen. Ela/ele representa justamente a característica da banda de constranger o status quo do Heavy Metal. Não há nada musicalmente mais gay que o Heavy Metal.
Metal Na Lata: O nome da banda é bastante marcante, e até mesmo inusitado. Como surgiu o nome Fúria Louca?
Tiago Guinevere: Pela ideia inicial da banda de buscar o constrangimento, a sátira à masculinidade frágil do fã de metal. Masculinidade (fúria) e feminilidade (louca) no mesmo nome.
Metal Na Lata: Novos membros, novo álbum, quais serão os próximos passos?
Tiago Guinevere: Na verdade, a banda entrou em um modo automático. Nos encontramos em um know-how de produção, mídia, show locais e viagens quando estas valem muito a pena. Não temos nenhuma expectativa ou trabalho maior que fugiria desse processo.
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista. Deixe uma mensagem para seus fãs.
Tiago Guinevere: Tenho uma resistência enorme a considerar ter fãs (risos). Deixo então uma mensagem a quem gosta de nossas músicas: Estamos perdendo uma geração de roqueiros (16 a 24 anos) porque abandonamos a frente da contracultura. Se não estivermos mais levantando as pautas da vanguarda cultural, como sempre fizemos, nosso estilo musical está fadado ao churrasco de tiozão. Os jovens se interessam pela vanguarda, e a vanguarda sempre atacará o tripé família-ordem-religião, pois sempre haverá o que transgredir! Menos conservadorismo e moralismo, POR FAVOR!!!
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