
Hericane Alice – “Gotta Be Real” (2020)
Independente
#HardRock
Para fãs de: Shark Island, Roxy Blue, Every Mothers Nightmare
Nota: 9,0
O Hericane Alice deu as caras em 1990 como exemplo clássico de hairband. Seu disco de estreia, o hoje cult “Tear the House Down”, vendeu pouco mais de 100 mil cópias na época, o que não impediu a gravadora de fechar o registro e colocar Bruce Naumann (vocais), Danny Gill (guitarra), Ian Mayo (baixo) e Jackie Ramos (bateria) no olho da rua. A cozinha permaneceu unida em grupos de alcance relativo – Mayo e Ramos tocariam juntos no Bangalore Choir e, em seguida, no Bad Moon Rising, de Doug Aldrich –, enquanto Gill integrou o pouco conhecido Medicine Wheel ao lado de Marc Ferrari (Keel) e Ray Luzier (Korn). Mas e Naumann, que fim levou? Ao que parece, a desilusão foi tão grande que o vocalista da vasta cabeleira loura mudou de ramo, passando a atuar como corretor financeiro na década de 90.
O passar dos anos e o crescente interesse naqueles que ficaram para trás, entretanto, parecem ter reacendido em Bruce a chama do frontman e, trazendo a bordo três novos integrantes, o último homem de pé do Hericane Alice reativou o nome e retomou as atividades em caráter definitivo com direito a novo site, boa presença nas mídias sociais e uma identidade visual que visa ao equilíbrio entre o ontem e o hoje. Os cabelos perderam um pouco do volume na proporção em que a voz, outrora um meio termo entre Marq Torien (Bulletboys) e David Coverdale (Whitesnake), adquiriu contornos mais graves, envelhecendo melhor que os clichês dos quais o grupo era refém trinta anos atrás.
Dito isso, “Gotta Be Real” é a prova de vida de uma banda cuja volta tem potencial não só para ressuscitar os fãs das antigas, mas também para conquistar um novo público, que acha o maior barato ver a galera cinquentona que os pais ouviam tocando rock ‘n’ roll com os ‘cojones’ que faltam ao que se ouve hoje no mainstream. Mas o saudosismo talvez fique restrito à inclusão de um cover de “Highway Star”, do Deep Purple, onde o baixo assume as vezes do teclado e Bruce incorpora o Steven Tyler de “Lord of the Thighs” no refrão “Alright-A hold tight-A”, para o terror da velha guarda mais ortodoxa. Já o single que dá nome ao álbum materializa as intenções do Hericane 2.0 com um dos lyric videos mais criativos dos últimos tempos. A gravação parece ter sido feita tendo em mente os shows que a banda, tão logo o coronavírus permitir, deve fazer, com Naumann pontuando a letra com “hey hey hey”, “c’mon, c’mon” e outros incentivos para que o público interaja nas palminhas.
Por incluir o juramento de fidelidade à bandeira norte-americana no começo – coisa que o W.A.S.P. fez em “School Daze” (1984) –, “Ha Há” poderia muito bem ser interpretada como um ufanismo, mas basta prestar atenção na letra para ter-se a certeza de que a música é uma armadilha nível “Born in the U.S.A.”; uma crítica à América que se ama, mas cujo (des)governo faz o mundo todo se cagar de medo. Ainda na raia dos assuntos delicados, “The Women Will Eventually Rule” pode requerer certo espírito esportivo por parte das ouvintes, mas está longe de ser um manifesto de macho escroto como se ouvia a torto e a direito nos anos dourados da era metal.
Importante destacar a qualidade da gravação e da produção assinada pela própria banda. O único problema por aqui, na real, é a duração das faixas. OK que são apenas seis, mas a capa de gordura é espessa em algumas delas. Pode funcionar ao vivo? Pode e vai – sou o primeiro na fila dos torcedores –, mas para se ouvir em casa, no conforto do lar, sempre preferirei as coisas mais direto ao ponto. Ainda mais quando for hard rock. Sobretudo quando for uma banda pela qual nutro um imenso gostar e cuja volta me alegra tanto quanto uma coquinha gelada. Com pré-venda a ser iniciada no próximo dia 15 de maio, “Gotta Be Real” chega às plataformas digitais uma semana depois, no dia 22, dia 22, dia 22 – não entendeu? Dê um Google.
Marcelo Vieira





