
Isaurian – “Chains Of Blue” (2020)
Independente
#GothicMetal, #Shoegaze, #PostRock, #DoomMetal, #PostMetal, #Doomgaze, #AtmosphericRock
Para fãs de: Katatonia, Alcest, Antimatter, Sylvaine, KLIMT1918, ShamRain
Nota: 10
Há diversas formas de se compreender um disco ou até mesmo vivê-lo – ouvindo, absorvendo, imergindo em sua proposta, em suas emoções, no emaranhado de idéias e sensações que o mesmo transmite. De toda forma, existem discos que desafiam a nossa compreensão, que vão muito além da obviedade, das lógicas musicais e dos estereótipos da indústria. Não são discos comuns, são profundos, ‘mixórdios’ e reais experiências – imersão plena e profunda.
O Isaurian vem do Distrito Federal – a capital nossa, tomada por alguns como berço da corrupção, triste engano, a corrupção vem de berço e não importa de qual cidade ou estado saia, é algo atrelado a cultura, ao dia a dia do brasileiro, um canto escuro dentro de sua mente. Sabe aquela mentira branda, sincera, por conveniência? Então , ela também é corrupção. Sabe aqueles pequenos delitos que “naturalmente” surgem ao longo do dia, eles também são corrupção. Somos bons em pontuar e enumerar falhas, mas péssimos em autoanálise e reflexão.
Ao longo de três anos de existência, a banda lançou dois eps: “All The Darkness Looks Alive” em 2017 e, “Dead Flower of Youth” em 2018. Outros singles de igual importância também foram disponibilizados e mantiveram as atenções e curiosidade sobre quando viria um registro pleno e como ele seria arquitetado.
Indo à fibra musical da banda, somos confrontados com um enigma – um gigantesco labirinto de sons, de influências, de cortes e costuras, e de frases que ditas a esmo, não fariam sentido, mas em sua forma de harmoniza-las, fazem. Toda boa canção nasce de uma ideia, de uma ou várias emoções, então por quê não verter várias idéias e emoções num disco onde a lógica maior seja alojar a sensibilidade em arranjos e em harmonias? A arte em si é baseada em relevos e texturas, “Chains Of Blue” é arte – introspectivo e intenso, suave, mas audacioso e provocativo.
Conceba melodias etéreas que transitam através de mosaicos melódicos, passagens intensas a compor atmosferas, ora lúgubres ora contemplativas – cinza sobre cinza. Não demasiado obscuro, mas longe de ser ensolarado. “Chains Of Blue” possui um sensível peso, suas faixas dialogam num idioma emotivo, por vezes doce e viajante lembrando bandas como Sigur Rós e Rome In Monochrome.
Todas as influências e linhas externas coexistem no mesmo cenário – a divagação do Post-Rock, o peso do Doom/Gothic Metal, a suavidade do Shoegaze e a aflorada poesia oscilante que a banda possui. Esses elementos são somados e diluídos no transcorrer de nove faixas de uma preciosa beleza – em conteúdo e estética. “Vanity Mirror” acentua a influência de Type O’ Negative e Paradise Lost, seu refrão é belíssimo, a voz de Hoanna Aragão completa os vocais de Jorge Rabelo com exatidão, chega a ser surreal como elas se combinam. “Pythoness” é uma valsa de melodias delicadas que aos poucos vão ganhando presença e força, seu final é extasiante, puro e simplesmente.
“Dead Garden” e “Constant Glow” caberiam tanto em discos do já citado, Type como também nos escritos atuais do Tiamat – tais influências existem e surgem continuamente, mas não eclipsam as características únicas da banda. “The Ocean” é daquelas faixas que desaceleram o tempo – serena, cativa, a divindade no mundo em forma de música. “To The Shore” carrega em si a personalidade Doom; com expressivas linhas de guitarra, “cozinha” sólida e vocalizações perfeitas. “Reaching Hands” intercala sutileza e rispidez, luzes leves em densas sombras. “With Solace” traz o Post-Rock ao centro das atenções, climática, quase como se fosse um sonho lúcido.
Por fim a faixa título; “Chains Of Blue” com delicados e naturais arranjos – violões, algumas frases tímidas de guitarra e teclados que vão crescendo e tomando forma até explodir num ápice, cuja intensidade beira o transcendental. A bela voz de Hoanna Aragão faz-se de bússola e vela nessa jornada ao imprevisível e à melancolia.
“Chains Of Blue” é a poesia dos sonhos em forma de música ou os próprios sonhos com trilha sonora. As melodias, cada nota e arranjo, cada harmonia e frase, tudo é precioso, apaixonante, delicado, vigoroso e sedutor.
Fábio Miloch




