Kiss – 40 anos de “Creatures Of The Night”

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Kiss“Creatures Of The Night” (1982)
Casablanca Records

Texto por João Paulo Gomes
Fotos: Reprodução
Diagramação e edição: Johnny Z.

Ricciotto Canudo escreveu em 1923 o “Manifesto das Sete Artes” no qual incluiu a música como uma das sete artes clássicas. Essa mesma música que passou pelo fonógrafo, gramofone, toca-discos e tantas outras mídias é a responsável por diversos momentos marcantes em nossa vida.

Mas será que um artista ao criar sua música, sabe se ela sobreviverá ao teste do tempo? Ou, mais do que isso, se ela inspirará ou influenciará outras pessoas? Provavelmente não.

Mas mesmo sem ter a real noção disso, sem saber que estava no lugar e hora certos, sem perceber que fazia parte de algo maior ou que o Universo conspirou para que isso acontecesse, diversos artistas/bandas se tornaram muito influentes através de atitudes e canções que o tempo ajudou a transformar em clássicos e a fazer parte da história de vida de seus ouvintes. Uma dessas bandas é o KISS.

No começo de sua carreira o KISS estava faminto por fama, glória e grana. Mas conforme elas foram sendo alcançadas a banda diminuiu sua força bruta e perdeu seu impacto. O terreno de seu império estava bem instável no início da década de 80.

Era preciso (re)inventar para tentar sair da espiral descendente de “Unmasked” (1980) e “…The Elder” (1981), o qual Ace foi contra. Enquanto o primeiro chegou apenas ao TOP 40, quase não alcança o status Ouro (o primeiro álbum, desde “Dressed to Kill” (1975), a não alcançar Platina) e foi o álbum de despedida de Peter Criss que não gravou nenhuma música (Anton Fig foi o responsável pela bateria na ocasião), o desempenho do segundo foi tão desastroso que naufragou sem deixar qualquer vestígio, chegando apenas a #75, sem alcançar status de Ouro e sequer ter turnê de divulgação.

Alias, na época “…The Elder” foi anunciado como o álbum mais pesado da banda até então. Mas a esperança dos fãs de ouvir algo que remetesse ao som que consagrou o KISS em “Destroyer” (1976) e “Love Gun” (1977) ou que fosse ainda melhor, sofreu um golpe derradeiro em forma de um álbum conceitual como trilha sonora de “The Elder”, um filme que nunca foi filmado.

No meio dessa sequência de decisões equivocadas, Ace Frehley, idolatrado por grande parte dos fãs, encarava seus demônios ao passar por uma fase de alcoolismo e dependência de medicamentos prescritos (após ser vítima de um acidente de carro). O KISS enfrentava um admirável mundo novo na nova década e ao começar a gravação do próximo álbum, em julho de 1982, havia se tornado, essencialmente, um trio.

Gene e Paul resolveram que o próximo álbum seria um retorno às origens do KISS. Para isso Michael James Jackson (L.A. Guns, Little Richard, Armored Saint, Hurricane), falecido em 2022, que também produziu o “Killers” (1982), no qual Ace não tocou (substituído por Bob Kullick), foi recrutado para produzir o novo álbum ao lado de Gene e Paul, que pela primeira vez dividem exclusivamente os vocais. Em paralelo a parceria externa foi reforçada com músicos e compositores.

Apesar de um orçamento tremendamente restrito, a produção, sem dúvida, é uma das melhores do KISS não deixando a variedade de estilos dos músicos convidados transparecerem a ponto de afetar a coesão do álbum. E a bateria de Eric Carr? Essa é um show à parte. Não à toa ele disse em uma entrevista que, dos álbuns que tocou, este é o seu favorito. Eric queria soar como tiros de canhão e o produtor Michael James Jackson explicou o processo: “Eu trouxe um conjunto especial e microfones de ótima qualidade para criar um grande som. Para captar o som de bateria que queríamos dispendeu-se muito trabalho. Nós movíamos a bateria de Eric tentando achar um lugar para alcançar esse som realmente poderoso. Gravamos a bateria no estúdio Record One onde Niko Bolas era o engenheiro da bateria e ele estava bem envolvido na ideia de tentar capturar algo único. Levamos muito tempo até encontrarmos esse som único.”

Bob Clearmountain, engenheiro de som, colocou a cereja no bolo, durante o processo de masterização no estúdio Power Station, segundo Michael James Jackson: “Eles tinham um poço de elevador desativado lá no Power Station. Ele mandava o som da bateria para dentro do poço e havia um microfone tubular lá dentro no alto capturando esse som enorme. As duas coisas (o som do poço do elevador e o original) seriam misturadas e, com uma dose de bom gosto, criariam o som da bateria de “Creatures of the Night”. Além disso Carr tocou com o coração. Se alguém já sentiu que o KISS era uma missão pessoal, esse era Eric Carr. Ele era o cara mais orgulhoso de ser baterista do Kiss. Tenho muito respeito pelo quanto ele amava esta banda”.

Eric Carr era o cara perfeito para a função e um dos melhores músicos que já passaram pela banda. A mudança de estilo com relação a Peter Criss era nítida e Eric rapidamente saiu de sua sombra trazendo um som mais pesado para a banda. Aonde ele estiver que saiba o quanto foi amado e respeitado. Descanse em paz Eric Carr, você ainda faz muita falta…

Continuando… Dizem que a capa do álbum, uma das mais icônicas do KISS, foi inspirada no livro infantil “I Can Read About Creatures of the Night” (1979). Até hoje existem três variações dela: a original de 1982; a reedição de 1985 (com Stanley, Carr, Gene e Kulick sem maquiagem) e a versão remasterizada de 1997 (apesar de algumas variações no logotipo e nas letras é a mesma foto original). No entanto, as diferenças não param por aí. O final da música título é mais abrupto na reedição de 1985 e duas músicas trocam de lugar: “Saint and Sinner” e “Killer”. Além disso há a curiosa existência de um LP “promocional” brasileiro, na verdade um “bootleg”, que eventualmente aparece nos sites de leilão, com o rosto de Vinnie Vincent sobre Ace Frehley.

Lançado em 28/10/1982, “Creatures Of The Night”, o último álbum da banda com maquiagem, é o décimo álbum do KISS e o último pela Casablanca Records, a única gravadora do KISS até aquele momento e por isso dedicado à memória de Neil Bogart, seu fundador que morreu de câncer durante a gravação. “Creatures…” é denso, tenso, obscuro, com baixo e guitarra em comunhão, Paul uivando e Gene rosnando dentro de uma atmosfera excepcional. É um (re)nascimento do Hard Rock da banda com seu álbum mais pesado até então, abandonando de vez as ideias dos álbuns anteriores.

Paul Stanley explicou o título ao Record Mirror (1982): “Basicamente, sentimos que cada um é uma criatura da noite. Somos todos menos inibidos e somos todos vampiros. A noite faz as pessoas se sentirem livres e, em seguida, pela luz fria do amanhecer, rastejamos para nossos caixões para nos comportarmos como pessoas normais durante o dia”.

Infelizmente as críticas positivas (Kerrang! e Guitar World o colocaram em 5º lugar entre os melhores álbuns de Hard Rock) e a qualidade do álbum (foram gerados três singles entre nove músicas) não foram refletidas em sucesso comercial já que sua melhor posição foi #45 na Billboard e só em 1994 ele foi certificado Ouro pela RIAA. Em 2022 a “Guitar World” atribuiu #4 entre “Os 25 maiores álbuns de rock de 1982”.

Na época do lançamento houve a dúvida se Ace havia mudado seu estilo de tocar, pois a banda manteve em sigilo sua saída e como ele aparecia na capa, sessões de fotos e até em um videoclipe a impressão era de que ele estava tocando no álbum. Mas sua presença (capa, fotos e videoclipe) foi apenas por questões contratuais e comerciais já que ele não tocou no álbum.

Em seu lugar o KISS utilizou vários guitarristas sendo Vincent John Cusano, o famoso Vinnie Vincent, o principal deles. Vinnie foi descoberto durante o período de criação do álbum. Adam Mitchell o apresentou a Paul e Gene. Eles gostaram muito do que ouviram nas demos que Vinnie estava gravando para a sua banda “Warrior” e o convidaram para gravar o álbum. Com uma guitarra mais agressiva que Ace, Vinnie caiu como uma luva. Além de repertório e técnica, ele ser desconhecido mantinha o “mistério” da maquiagem. Mas nem tudo foram flores já que apesar de tocar no álbum e co-escrever várias músicas ele não recebeu na época o crédito por isso.

Oficialmente ele assumiu a guitarra da banda (como músico contratado e não como membro efetivo) na turnê do “Creatures of the Night/10th Anniversary Tour” adotando sua maquiagem de “Ankh Warrior”, projetada por Paul Stanley e a única que nunca apareceu na capa de um álbum.

Na já citada reedição de 1985 (Gene e Paul queriam fazer justiça ao álbum que teve vendas abaixo do esperado) três músicas foram remixadas por Dave Wittman no Eletric Lady Studios reduzindo o impacto da bateria. Algumas dessas primeiras prensagens, continham erroneamente um lado completo de “American Fool” do John Cougar Mellencamp. Um erro da Mercury Records que na época era a gravadora dos dois artistas. Finalmente Vinnie recebia o devido crédito apesar de novamente não aparecer na capa. Seu lugar foi ocupado por Bruce Kullik, na época o guitarrista da banda, que também não tocou no álbum. Independente disso tudo, Vinnie Vincent teve um papel crucial ao ajudar a banda a se (re)inventar. Há muito a ser dito sobre ele, mas não há como negar que sua entrada trouxe fôlego novo e “Creatures…” não seria o mesmo sem ele.

Mas vamos às músicas…

“Creatures Of The Night”, a música título, que como single alcançou #34 na US Pop Singles foi composta por Paul e Adam Mitchell e tem o próprio Adam e Steve Farris (Mr. Mister) na guitarra (Farris foi cogitado como substituto de Ace, mas parece que não tinha “o visual ideal”) e Mike Porcaro (Toto) no baixo. Incendiária, matadora e poderosa, ela conta com uma bateria explosiva, guitarras ruidosas e baixo pungente definindo o tom do álbum. Não havia mais dúvidas: O KISS estava de volta!

A discreta, mas sinistra, “Saint and Sinner” vem em seguida com o Demon de volta ao seu habitat natural e Eric Carr quebrando tudo! Composta por Gene e Mikel Japp é mais do que perceptível a presença de um guitarrista diferente da música anterior. Dessa vez a guitarra ficou a cargo de Vinnie Vincent e ele demonstra o quão melódico ele pode ser. Matadora!

“Keep Me Comin’” novamente de Stanley e Mitchell traz Vinnie na guitarra. Paul está fantástico e a música é puro Van Halen! “Rock And Roll Hell”, inspirada em “Rock n’ Roll Nights” do Bachman-Turner Overdrive, é a primeira colaboração de Gene com Jim Vallance e Bryan Adams. Como curiosidade ela foi regravada posteriormente por Ace para o “Origins Vol. 1”. Contando com o fantástico Robben Ford na guitarra e Carr destruindo tudo o que via pela frente a música, que dizem ser sobre os abusos de substâncias por parte de Ace, é sombria e ameaçadora, ou seja, puro Demon. A fantástica “Danger” fecha o “lado A”. Cativante ao extremo, ela traz de volta o KISS “old school” acompanhado da insana bateria de Eric Carr. Com Vinnie Vincent na guitarra e Jimmy Halsip (Blackjack) no baixo (Gene passava por um momento difícil com o fim de seu relacionamento com Diana Ross) ela é pura explosão!

O “lado B” começa com a lendária “I Love It Loud” que, como single, alcançou #22 na Mainstream Rock Track e #76 na UK Albuns Chart. Contando com a presença de Ace Frehley (no vídeo, mas não na música), solo de Paul Stanley e vocais de apoio de Dave Wittman, este hino foi escrito por Gene e Vinnie Vincent e é uma daquelas insanas canções que invade a memória do ouvinte para nunca mais ser esquecida e se transformou em marca registrada da banda. Clássica!

Em seguida temos a incrível e sombria “I Still Love You”, a única balada do álbum. A construção da música que vai encurralando o ouvinte lentamente como um animal faminto até deixá-lo sem saída é excepcional. Escrita por Paul e Vinnie, ela conta com Eric Carr no baixo e com Robben Ford nas seis cordas fazendo um trabalho sutil e excelente emoldurando a assombrosa performance vocal de Paul, um dos melhores vocalistas de Hard Rock de todos os tempos. Uma das músicas mais marcantes do álbum. Incrível!

Gene comanda as duas últimas músicas do álbum. A, literalmente, matadora “Killer” e a maligna “War Machine”. A primeira foi escrita por Gene e Vinnie que também toca guitarra e traz Eric Carr destruindo tudo o que encontra pelo caminho. Intensa e veloz, ela traz parece ter servido de inspiração para “Boyz Are Gonna Rock” do Vinnie Vincent Invasion. A segunda é uma das mais pesadas e melhores músicas do showman Gene. Escrita por Gene, Jim Vallance e Bryan Adams ela é tão ameaçadora quanto uma “God of Thunder” anabolizada e tão apocalíptica quanto os mais tensos pesadelos. Gene, que também toca guitarra base, rasga de cima a baixo até o ouvinte literalmente ficar em carne viva para então ser triturado! Devastadora!

Comentário de Gene no Kiss Box Set sobre “War Machine”: “Estava gravando algumas demos na minha casa e queria tentar algumas coisas novas. Comecei a brincar com o sintetizador que havia comprado e nasceu o riff de “War Machine”. A música gira em torno do riff. Ele nunca para. Michael James Jackson me sugeriu trabalhar junto com um novo compositor que estava em ascensão chamado Bryan Adams e seu parceiro Jim Vallance. Escrevemos juntos “War Machine” e “Rock and Roll Hell”, ambas presentes no álbum”.

“Creatures Of The Night” não é apenas impregnado de incríveis vocais, riffs e solos estrondosos, composições magistrais e uma bateria estratosférica. Ele resiste ao teste do tempo e é um álbum obrigatório para todo e qualquer fã de Hard Rock com hinos que se tornaram imprescindíveis em seu repertório. Este marco na discografia da banda traz um KISS revigorado, transformado e (re)conectado com suas raízes.

O KISS voltou para ficar provando ainda ser “The Hottest Band in the World”!

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