Liberation Festival, Espaço das Américas, São Paulo/SP (25/06/2017)

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Liberation Festival
Local: Espaço das Américas, São Paulo/SP
Data: 25/06/2017
Organização: Liberation Music

Atrações:
Test (Brasil)
Heaven Shall Burn (Alemanha)
Carcass (Inglaterra)
Lamb of God (Estados Unidos)
King Diamond (Dinamarca)

#HeavyMetal#Metalcore#DeathMetal#Grindcore

Por Ricardo L. Costa

O aniversário é deles, mas o presente é todo nosso. A Liberation Music, uma das maiores produtoras do América Latina, acaba de completar 25 anos de inestimáveis serviços prestados ao Metal e, a fim de eternizar a marca histórica, teve a brilhante ideia de organizar um grande festival unindo, no mesmo local, bandas de renome mundial, e valorizando a diversidade. Assim tivemos o incomparável “Liberation Fest”, realizado no último domingo em São Paulo que contou com um cast de peso: Test (Brasil), Heaven Shall Burn (Alemanha), Carcass (Inglaterra), Lamb of God (Estados Unidos) e King Diamond (Dinamarca).

A pluralidade de estilos e nações foi um dos principais atrativos. Reunidos no mesmo local, tivemos atrações de estilos tão díspares quanto interessantes, saciando o desejo de fãs de várias vertentes. Death Metal, Metalcore, Grindcore e Heavy Metal uniam pessoas, formavam novos amigos e criavam uma autêntica irmandade. O local escolhido para sediar o evento foi o Espaço das Américas, uma casa ampla, enorme, com excelente estrutura física e acústica. Quando cheguei ao local, a multidão ocupava quase a rua toda e, ao adentrar o recinto, boa parte da pista já estava preenchida e os paulistanos do Test já animavam a galera que lá estava.

O folclórico Test e seu “progrindjazz” (vou patentear essa expressão) havia acabado de iniciar seu set e mostrou que não se intimidava com multidão de fãs de outros segmentos. Uma apresentação brutal, onde a dupla João Kombi (vocal/guitarra) e Thiago Barata (baixo), apresentando-se de lado no palco (sua posição característica) e amparados por um rústico instrumental (nem banqueta apropriada Barata tinha), espancavam os ouvidos de cada um dos presentes com sua música extrema e personalizada. Destaque para Barata que é um anormal no instrumento, unindo força física e técnica de forma sublime. Tocaram músicas de seus dois álbuns, “Arabe Macabre” e “Espécies”, em um set que quem piscou, perdeu. Início arrebatador!

O som estava muito bom, bem distinto e num volume apropriado, o que favoreceu a performance dos alemães do Heaven Shall Burn. Em uma boa apresentação, mostraram seu Metalcore pesado e agressivo (que em alguns momentos se aproximava de um Death Metal mais melódico) ao público que parecia estar se divertindo. O vocalista Marcus Bischoff interagia a todo momento com a platéia, sempre muito cordial e chamando todos a cantar juntos. Alguns momentos foram bem expressivos, como o início bombástico com “The Loss of Fury” (faixa de abertura de seu último álbum, “Wanderer” (2016), na rudeza explícita de “The Weapon They Fear” e no desfecho com “Black Tears” (cover do Edge of Sanity). Aprovado.

As enormes cortinas negras se cerraram e, por trás delas, a movimentação era intensa. Dezenas de pessoas trabalhando para deixarem o palco dentro do previsto para a apresentação de uma das maiores atrações da noite. Os pais do Death/Splatter, os reis da podreira suprema. A banda que definiria o rumo da extremidade musical nos anos 80 e a aperfeiçoaria a cada disco lançado. Se havia algum bom motivo para eu estar lá, além de meu compromisso profissional, seria esse. A ansiedade já estralava no peito, os primeiros acordes já eram ouvidos pelo lado de cá das cortinas, e a platéia já começava a esboçar as mais diversas reações. Quando o palco surgiu, já decorado com o famoso pano-de-fundo do instrumental cirúrgico disponibilizado em círculo, eu sabia que um dos momentos mais importantes da minha vida de fã de música extrema estaria pra começar.

A melódica instrumental “1985” ecoava pelo sistema de som, causando furor em todos os presentes. Jeff Walker adentra o palco, portando um baixo que dá dois dele e, apesar da diminuta estatura, quando abre o berro iniciando “316 Blade Surgical Steel”, advém a certeza de que o morticínio havia começado. Neste momento, a frente do palco começava a inspirar cuidados. Focos de “mosh pit” pipocavam aqui e ali, justamente quando “Buried Dreams” e “Incarnated Solvent Abuse”- dois clássicos da fase mais técnica e melódica da banda -, surgiam na sequência.

Chega a ser impressionante a fidedignidade do Carcass ao vivo para com os álbuns. Cada virada, cada acorde e riff é milimetricamente reproduzido; além disso, a qualidade do som do local beirava a perfeição nesse momento. Por um instante cheguei a me emocionar, afinal, os caras que inventaram esse tipo de som que aprendi a amar estavam lá, juntos: Bill Steer (G), o sujeito que gravou os álbuns mais seminais do Napalm Death e ajudou a construir um novo nicho musical com o Carcass, e seu parceiro de longa data, Jeff Walker. Ambos, com seu carisma e presença de palco impecáveis, dominavam o público sedento por Death Metal carniceiro.

“Carnal Forge” e a “balada” mais diabólica que já existiu, “No Love Lost”, afinavam o coral dos presentes que se engalfinhavam na frente do set. Já assisti a muitas bandas ao vivo, mas o Carcass é de fazer inveja. Desempenho exuberante do baterista Daniel Wilding, que estraçalha bumbos e tons com elegância e conhecimento, e Ben Ash (guitarra) que, juntamente com Steer, forma uma dupla das mais eficazes nas seis cordas.

O último disco lançado, “Surgical Steel”, foi o renascimento da banda após longos e intermináveis 17 anos, por isso, a trinca com “Unfit For Human Consuption”, “A Congealed Clot of Blood” e “Cadaver Pouch Conveyor System” fora tão bem recebida e exaltada. Metade do set já havia sido apresentado. O público, em transe catatônico, aguardava ansiosamente pelo desenrolar da ação. Jeff Walker não escondia nem por um segundo sua imensa satisfação por estar ali celebrando tão importante momento. Resolveu, por conta própria, saciar a sede e o desejo por ‘souvenirs’ do pessoal, arremessando inúmeras garrafas d’água e palhetas, para desespero de seu endorser.

O show não pode parar, portanto, ainda tivemos mais alguns momentos marcantes para a posteridade, como “Captive Bolt Pistol”, “This Mortal Coil”, e um retorno às raízes puramente Splatter com “Reek of Putrefaction” . O desfecho foi apoteótico, com a bestialmente pesada “Carneous Cacoffiny”, encerrando este que foi um dos shows mais marcantes dessa minha vida roqueira. Um sonho de juventude que acabava de ser concretizado. Muito obrigado, Carcass, por existir e fazer parte de nossa realidade.

Pois bem, após a experiência com o Carcass, nada mais me importava e eu já estava pronto pra ir pra casa, porém, como fora me confiada uma missão, eu tinha que cumpri-la com êxito. Nesse momento, cortinas se cerrando novamente, e começou o festival de piadinhas de gosto duvidoso acerca da próxima atração da noite. “Esse Lamb minhas bolas é um pé no saco”, dizia um sujeito do meu lado. “Ahhh, Lamb meu não sei o quê”, “Ahhh, Lamb minha não sei o quê não sei aonde”, enfim, brincadeiras depreciativas a parte, a incontestável verdade é que o Lamb of God é uma realidade, quer você goste ou não. É atualmente uma das maiores e mais representativas formações do Metal americano, e não o é à toa. É uma banda talentosa, pesada e tem um séquito fervoroso de fãs.

Não é o tipo de música que consumo diariamente, mas já que eu estava lá, não custava prestigiar. A introdução do show com “Laid to Rest” já fez a molecada pirar! Banda coesa, técnica e empolgada, com um vocalista que não deixa a peteca cair um único segundo sequer. Randy Blythe é um dos vocalistas mais insanos que já vi ao vivo. O sujeito tem carisma e comanda o espetáculo como ninguém, interagindo sempre com a plateia, vociferando “motherfuckers” a cada 3 palavras proferidas e fazendo o que se espera de um bom frontman: entretenimento.

A apresentação segue, mantendo sempre o ritmo frenético. Nesse momento, era visível uma maior participação do público mais jovem, afinal, esse é o tipo de consumidor da banda. Os tiozões reumáticos, assim como este escriba, optaram apenas por observar atentamente o que acontecia. A banda fez um breve apanhado geral de sua carreira, com destaques para “512”, “Now You’ve Got Something to Die For”, “Walk With Me in Hell” (uma das mais empolgantes do set) e “Engage The Fear Machine”.

Chegando ao final de sua presença, Randy perguntou se estávamos ansiosos pelo King Diamond e se “gostávamos de Satã”, e começou a emitir uns gritos estridentes de “Sataaaannnn”, “Sataaaannn”. Filhão, acho bom não brincar com o pai do King. Vai que ele toma as dores. Ótimo show, que me fez olhar a banda com outros olhos.

E é chegado o momento mais aguardado por todos (ao menos pela grande maioria). É fato que, quem estava lá, em grande parte era fã de King Diamond, haja vista a quantidade exacerbada de pessoas trajando camisetas do vocalista, alguns até vestidos a caráter, com maquiagem e tudo. A quantidade de “cosplays” do Rei era enorme: uns bastante fiéis e elaborados, outros simplesmente risíveis, e foi aí que cheguei a uma importante constatação. Fã de King Diamond é igual ou pior que fã de Iron Maiden. É uma relação entre artista e público que beira a adoração, a devoção de fato.

A data era histórica pelos motivos já mencionados no início da resenha, mas também pelo fato de que King estava de volta em solo brasileiro após 21 anos de sua primeira visita ao país (no festival “Monsters of Rock”), além de estar em turnê comemorativa de 30 anos do lançamento de seu clássico maior, “Abigail”. Seria uma única apresentação no Brasil, trazendo toda aquela imponente estrutura de palco a qual ele vem utilizando. Sendo assim, imagina como estava o local? Exatamente, lotado até não caber mais nem um recém-nascido. Fãs da América Latina toda estavam presentes (vi argentinos, chilenos, bolivianos) pra prestigiar o Senhor das trevas.

Após uma espera razoável, mas ainda cumprindo a risca o cronograma, as luzes se apagam e o público se espreme na frente do palco. Uma figura tétrica entra em cena em uma cadeira de rodas. Com seu olhar penetrante e aterrador, Grandma está sorrindo para nós, e eis que o mestre entra em ação. Jesus amado! A comoção foi algo surreal! Kim Bendix Petersen, ou King Diamond para seus súditos, é uma presença enigmática e, muito além de um simples show de música, uma apresentação do cara é um evento cênico/teatral dos mais completos, e isso porque ainda estávamos na introdução “Out From The Asylum”.

Não sou o maior apreciador de King Diamond do mundo, e posso até ser condenado por isso, mas minha curiosidade em presenciar esse momento era enorme. O palco ornado com escadarias, candelabros, um enorme pentagrama ao fundo, que sumia e aparecia novamente nos momentos específicos, uma atriz que contracenava com King durante todo o show, enfim, tudo era fascinante. King Diamond, antes de ser um cantor de primeira grandeza, é um ator de dotes “shakespeareanos”. Ele interpreta cada canção com uma emoção que vem de sua alma. Além disso, um senhor sexagenário que consegue cantar naquela intensidade por quase uma hora e meia, certamente está devidamente amparado pelas forças da escuridão.

A histeria que tomava o Espaço das Américas a essa hora ficou marcada para sempre na história dos espetáculos musicais do país. Os fãs cantavam cada verso, cada palavra, até mesmo cada falsete exorbitante era milimetricamente reproduzido pela multidão hipnotizada, e já que era assim, “Welcome Home” e “Sleepless Nights” viriam muito bem a calhar! O jogo de luzes, a figura enigmática e sombria de King, e a excelente performance de sua banda (Andy LaRocque e Mike Wead (guitarras) são soberbos, isso sem mencionar Matt Thompson (bateria)) traziam ao palco a real conotação de espetáculo. Todos aguardavam com incômoda ansiedade a reprodução na íntegra do álbum “Abigail” (1987), o que ocorreu após a execução de “Halloween”, “Eye of the Witch” (sinistra), a ovacionada “Melissa” (cover de sua banda Mercyful Fate) e “Come To The Sabbath” (outro clássico do Mercyful Fate).

No segundo ato do espetáculo, meninos seriam separados dos homens, pois voltaríamos à década de 80 e saudaríamos o onipotente Senhor das trevas na interpretação de seu álbum mais emblemático. Neste momento atingiríamos um contorno quase “Hollywoodiano”, afinal, trata-se de um álbum conceitual e uma história seria contada através da música. A introdução “Funeral” arrancou gritos ensurdecedores dos presentes, que se preparavam para a maior experiência de suas vidas. Desde “Arrival”, atingindo o clímax com “The Family Ghost” e “Omens”, até o desfecho com “Black Horsemen”, a faceta dramática de King foi posta à prova. Atuando junto com Jodi Cachia, que interpretou múltiplos papéis na trama, o que presenciamos foi um evento cênico/musical sem precedentes. King Diamond nasceu pra isso.

Carisma, presença de palco indefectível e um dom interpretativo fora do comum o distanciam milhares de léguas da grande maioria dos artistas do gênero. É difícil enumerar destaques nesta parte, mas “The Possession” e “Abigail” foram fascinantes, principalmente por sua teatralidade e intensidade ao vivo. Vimos de tudo nessa parte: caixões cenográficos, assassinato de bebês (em “Abigail”), ritual de magia negra, um parto durante o espetáculo, enfim, se eu for esmiuçar detalhes ficarei até amanhã escrevendo. Algo enriquecedor e graficamente belo.

E o sonho acabou. Banda se despede efusivamente do público atônito pela experiência, com King ficando ainda um bom tempo no palco agradecendo a presença de todos, estando visivelmente emocionado pela calorosa recepção. Pra este redator, foi realmente um momento mágico, impossível de expressar com meras palavras. Só quem esteve lá pra saber. Parabéns a Liberation pela bela iniciativa e que esta seja apenas a primeira edição de muitas. Obrigado pela oportunidade. Agradecimentos também a todos os envolvidos e as bandas participantes por proporcionarem tão magnífico espetáculo. Até o próximo!

Setlist Heaven Shall Burn:

1) The Loss of Fury
2) Bring the War Home
3) Voice of the Voiceless
4) Corium
5) The Weapon They Fear
6) Combat
7) Endzeit
8) Counterweight
9) Black Tears (Edge of Sanity)

Setlist Carcass:

1) 1985
2) 316 glade surgical steel
3) Buried Dreams
4) Incarnated Solvent Abuse
5) Carnal Forge
6) No Love Lost
7) Unfit for Human Consumption
8) A Congealed Clot of Blood
9) Cadaver Pouch Conveyor System
10) Captive Bolt Pistol
11) Edge of Darkness
12) This Mortal Coil
13) Exhume to Consume
14. Reek of Putrefaction
15) Corporal Jigsore Quandary
16) Heartwork
17) Carneous Cacoffiny

Setlist Lamb Of God:

1) Laid to Rest
2) Ruin
3) 512
4) Now You’ve Got Something to Die For
5) Still Echoes
6) Walk with Me in Hell
7) Hourglass
8) Engage the Fear Machine
9) Set to Fail
10) Blacken the Cursed Sun
11) The Faded Line
12) Redneck

Setlist King Diamond:

1) Out from the Asylum
2) Welcome Home
3) Sleepless Nights
4) Halloween
5) Eye of the Witch
6) Melissa (Mercyful Fate)
7) Come to the Sabbath (Mercyful Fate)
8) Funeral
9) Arrival
10) A Mansion in Darkness
11) The Family Ghost
12) The 7th Day of July 1777
13) Omens
14) The Possession
15) Abigail
16) Black Horsemen
17) Insanity

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