Lion Heart – “O Ferro do Escorpião” (2020)

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Lion Heart – “O Ferro do Escorpião” (2020)
Kaotic Records | Tales From the Pit Records
#HardRock

Para fãs de: Crazy HeadsInluztSixty-Nine Crash

Nota: 8,0

Recentemente, a internet redescobriu Thiê Rock, e graças a vídeos de anos atrás terem viralizado da noite para o dia, o vocalista da Lion Heart voltou a ser assunto nas redes. O timing não poderia ter sido melhor já que a banda está de CD novo desde o “dia 5… do 6… do 20”. “O Ferro do Escorpião” é ao mesmo tempo prova de vida – a Lion não lançava músicas inéditas desde 2015, ano da politizada “O Gigante Acordou” – e atestado de sobrevivência, pois Thiê e Lion Brandon, que são a Lion Heart e a capa do presente trabalho não me deixa mentir, estão entre os poucos que restam da cena rock carioca que outrora representavam como nenhum outro; cena essa que está na UTI, respira com ajuda de aparelhos e só Deus sabe se vai sair dessa passada a crise do coronavírus.

Só que além de Thiê e Brandon – que toca todos os instrumentos –, “O Ferro do Escorpião” se sustenta num terceiro pilar: o produtor Celo Oliveira, cuja expertise verifica-se em “Epilogue” (2017), do Van Dorte, e “Postcards from the Black Sun” (2018), do Sixty-Nine Crash (ambos resenhados aqui no Metal Na Lata), entre muitos outros discos de diversas bandas brasileiras. Sua grande conquista aqui foi obter a melhor sonoridade já ouvida num CD da Lion. Nunca antes a banda contou com uma produção tão caprichada, tão de alto nível. Nunca antes também Thiê se arriscou em tons tão altos, rasgados, falsetes; enfim, uma versatilidade bem-vinda ao frontman nato que já é. Quem já viu o show sabe do que estou falando.

Isso não impede, no entanto, que o trabalho tenha lá seus engasgos – ao menos para o ouvido deste resenhista, que prefere seu hard rock servido à maneira convencional, conforme o padrão-ouro estabelecido ao longo da história pelos principais nomes do gênero. Se por um lado Brandon incorpora o sumido Vito Bratta e oferece um desempenho individual digno de vídeo-aulas de shredding, por outro as músicas acabam sofrendo um pouco com esse misto de arroubo de inspiração com uma postura tipicamente ariana – curiosamente vinda de um escorpiano – de querer tudo ao mesmo tempo e agora. Resumo da ópera: a tracklist contém dez músicas, e o tempo total é de 51 minutos. Às vezes, menos (tempo) é mais. Veremos como as músicas se saem ao vivo .

Em relação às letras, o léxico da Lion foi atualizado com novos termos e expressões, e isso reflete nos versos e refrões, mais palpáveis – nada de alegóricos caubóis fora da lei e donas de bordeis –, mas nem por isso menos divertidos. O lado coach motivacional “Brigue Por Você” também foi jogado para escanteio – apesar da mensagem implícita na derradeira “Uma Lição Por Vez”. Demais cotas são preenchidas com sexo (“Entre Quatro Paredes”), paixão pelo rock ‘n’ roll (“Rock Vai Rolar”), uma pequena dose de sem-vergonhice (“Indecente”) e os sempre hábeis duplos sentidos, como na faixa-título (entendeu agora o “ferro”?) e em “Suingue”, cuja noção vai muito além do mero troca-troca de casais.

Para falar de amor em “Embaixo da Lua”, possivelmente a melhor apesar de ser a mais longa do disco, a Lion recorre a um cenário familiar e talvez o mais carioca de todos: a praia. Só que em vez do flerte com a “morena louca” de “Sedução”, a teoria vira prática com o casal protagonista “rolando à milanesa” numa fantasia que de tão improvável – pelo menos em se tratando da perigosíssima orla do Rio de Janeiro à noite – chega a ser irresistível. E quem não gostar, fuck off.

Lançamento conjunto dos selos Kaotic Records e Tales from the Pit Records – mais uma coisa inédita na carreira da banda, que sempre hasteou a bandeira do independente –, “O Ferro do Escorpião” encontra-se em pré-venda com entrega prevista para o início de agosto. Até lá, ouça no “streaming… plataformas… digitais.”

Marcelo Vieira

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