Marilyn Manson – “We Are Chaos” (2020)

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Marilyn Manson – “We Are Chaos” (2020)
Loma Vista Recordings
#IndustrialMetal#AlternativeMetal#GothicRock

Para fãs de: Depeche ModeA Perfect CircleNine Inch Nails

Nota: 9,5

O que aprendi nesses 24 anos acompanhando a carreira de Marilyn Manson, foi a não criar expectativas sobre seus lançamentos futuros. Se alguém ainda está no aguardo de que ele lance mais um “Antichrist Superstar” ou “Holywood”, realmente até hoje não entendeu o conceito por trás de seus trabalhos.

A criatividade do eterno anti-heroi norte-americano se reinventa em ciclos. E, quando o caos se instaura no Planeta Terra – como ele já havia previsto em sua trilogia “Antichrist Superstar”, “Mechanical Animals” e “Holywood” – eis que o artista ressurge numa roupagem mais humana, amena e disposto a cantar canções que refletem amadurecimento e autoconhecimento.

Sempre achei que Manson dependia muito do guitarrista ao seu lado para dar vida a suas ideias complexas – foi assim com Daisy Berkowitz na primeira fase, depois seguiu a era de ouro com John 5; passou por uns trancos e barrancos ao lado de Tim Skold e assim prosseguiu com o retorno de Twiggy Ramirez, até reajustar o rumo com Tyler Bates.

A fase com Tyler Bates foi muito rica – talvez “The Pale Emperor” seja um dos 3 melhores álbuns de sua discografia, lançado em 2015, quando todos davam o Reverendo Manson como morto e enterrado em seus abusos de álcool, drogas e depressão – mas o fato é que o ciclo com Tyler ao seu lado se encerrou e, para “We Are Chaos”, Manson chamou Shooter Jennings para produzir o álbum e colaborar em algumas músicas.

Desta vez, a participação de Shooter (músico mais afeito à música country pop “modernosa”) é mais nos bastidores, e o que dá o tom deste álbum conceitual é a estética Industrial Gótica que Marilyn Manson moldou à perfeição ao longo de 11 álbuns de estúdio. Se Al Jourgensen e Trent Reznor criaram a trilha sonora do apocalipse fim de século, no início dos anos 90, Marilyn Manson foi quem incorporou a persona necessária para o Industrial Metal fazer barulho e escandalizar o mercado da indústria do entretenimento, estabilizando-se como estilo musical a ser reconhecido dali adiante.

E, o mais curioso, é que este novo ciclo presta homenagens à música eletrônica dos anos 80 (Depeche Mode), em grande medida, e ao Glam Rock setentista (sim, Bowie), estando mais alinhado com a estilística de “Mechanical Animals”, com um pouco do que ouvimos nos últimos trabalhos, que o pessoal considerava Death Country.

Se em 1996 ele surgiu como o Anticristo saído do casulo para espalhar destruição e misantropia à humanidade, agora ele se autointitula uma Abelha Rainha, que destruirá todas as flores e cobrirá toda a Terra com mel, para que as pessoas comam a si mesmas – como Manson anuncia de maneira soturna na intro de “Red, Black and Blue” – enquanto seus olhos refletem Deuses à esquerda e Demônios à direita, remetendo àquela dualidade órfico pitagórica do bem versus mal, da velha sabedoria Grega.

Mantendo essa dualidade temática, Manson conta que concebeu este álbum como um velho álbum de vinil, que tem um lado A e um lado B, e é assim que procura desenvolver a proposta lírica conceitual. Em “We Are Chaos”, ele se coloca ao lado de todos nós, doentes, fodidos e complicados, que não podem ser curados, numa música estranhamente bela e cheia de referências à Bowie e a si mesmo – lembra “Great Big Wide World”, que abre “Mechanical Animals”.

“Don’t Chase The Dead” é Gothic Rock na veia, como um Bauhaus reinventado, que desemboca em um climão meio New Wave/Post Punk no refrão. Em seguida, temos a improvável canção de amor, “Paint You With My Love”, que traz à mente, imagine você, The Beatles da fase psicodélica – dá para ouvir John Lennon cantando junto, de alguma forma, o refrão, “So Let Me Paint You, With My Love, With My Love”.

O mais legal é que a estrutura fundamental das composições é extremamente simples e acessível – do tipo que você cantarola as melodias facilmente e, só depois vai recebendo os revestimentos instrumentais e de sintetizadores, ambiências e etc. Mas, se fossem tocadas apenas no piano, ou violão, funcionariam da mesma forma – como a bela balada “Halfway & One Step Foward”, que se assemelha a Nine Inch Nails, deixando clara a importância que Trent Reznor teve na evolução musical de Manson – quer ele queira, ou não.

O “lado B” do álbum abre com a música que tem o mesmo nome da pintura que Manson concebeu para ser a capa do álbum – “Infinite Darkness” – trazendo à tona o elemento visual abstrato presente em todos seus trabalhos, com aquela ambiência de trilha sonora de filme de David Lynch. Se você retomar as músicas mais soturnas de “Holywood”, vai ver muita semelhança com algumas delas (como “President Dead”).

A pegada eletrônica Dark é retomada em “Perfume” e “Keep My Head Together”, com letras típicas de Manson, repletas de trocadilhos e conselhos de como se deve conjurar o demônio, comer vidros e cuspir diamantes – perfeitas músicas de verão para o que hoje chamamos de “novo normal”.

O álbum se encerra com “Solve Coagula”, mais uma música com melodia simples e interpretada à perfeição por Marilyn Manson, seguida de uma de suas melhores baladas góticas já lançadas, “Broken Needle”, em que morte, sono profundo, frustrações e uma esperança melancólica surgem no horizonte.

E é assim que, quando todos esperavam que Marilyn Manson se esbaldaria com o advento do Apocalipse em 2020 – que ele tanto prenunciou – eis que surge um cantor de meia idade espalhando amor e piedade por toda a raça humana! Parece que, realmente, o Anticristo venceu, e agora caminha, em paz, pela Terra. Que assim seja!

Wallace Magri

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