Nile – “The Underworld Awaits Us All” (2024)
Napalm Records | Shinigami Records
#DeathMetal
Para fãs de: Hate Eternal, Necrophagist, Vital Remains
Texto por Matheus “Mu” Silva
Nota: 9,5
“O submundo aguardava por isso…”
Cinco anos após o lançamento do ótimo Vile Nilothic Rites, o deus egípcio do Death Metal, Nile, divulga seu décimo álbum, The Underworld Awaits Us All, via Napalm Records.
Apoiado em seu incansável líder, o guitarrista, mentor e apaixonado por lendas egípcias e lovecraftianas Karl Sanders, desde 1993, o Nile vem em constante evolução em seu som, que encontrou seu ápice no monumental Annihilation of The Wicked e padronizou sua fórmula em Those Whom The Gods Detest. Seus lançamentos subsequentes foram um tanto quanto parecidos, o que fez com que a banda chegasse ao seu décimo álbum de forma consolidada. Além de Karl, a banda conta com outro membro de longa data, o seminal baterista George Kolias, Brian Kingsland na outra guitarra e Dan Vadim Von no baixo (atualmente tocando guitarra no Morbid Angel também). O Nile conseguiu um feito no metal extremo bem difícil: tornar seu som reconhecível e distinto. O ouvinte dá o play e sabe que está ouvindo Nile. E esse álbum mantém esse padrão, o que por si só já é um feito considerável.
Pela primeira vez na história da banda, ela conta com três guitarristas, com a adição de Zach Jeter. Diferente do que algumas bandas de Heavy Metal têm feito ao adicionar um terceiro guitarrista, essa mudança não trouxe uma adição significativa ao som do Nile. Seria algo bem interessante, com a possibilidade de acrescentar mais camadas, melodias, enfim, algo que realmente motivasse a existência de mais um membro, mas ao ouvir o álbum todo, soa como Nile, mas o mesmo Nile que sempre teve dois guitarristas. Colocar mais um para fazer uma base igual não agrega ao som em si, ainda mais levando em consideração que todo o processo criativo se passa primeiro pelo Karl Sanders. E isso vai ficar ainda mais evidente ao vivo, pois serão três pessoas fazendo a mesma coisa. Enfim, vamos ao que interessa…
O primeiro destaque é a maravilhosa capa, totalmente condizente com seu título, e uma das melhores, se não a melhor, que a banda já usou para ilustrar um álbum. O disco inicia com “Stelae of Vultures”, que despeja seis minutos de pura brutalidade ininterrupta, uma overdose de riffs rápidos e os tradicionais vocais urrados e cavernosos de Karl, além do gutural mais aberto de Brian, culminando em um final impactante.
A segunda faixa… Pela segunda vez o Nile lança uma música curta com um nome gigantesco como single, assim como aconteceu na época do Ithyphallic: “Chapter for Not Being Hung Upside Down on a Stake in the Underworld and Made to Eat Feces by the Four Apes”, faixa extremamente rápida e técnica, representando o Nile em seu estado mais puro de Death Metal, sem concessões.
“To Strike With Secret Fang”, com seus 1:58 de duração, é uma faixa excelente, para não falar um palavrão exclamando a qualidade da música. Segunda música mais curta da história da banda (só perde para “Pestilence and Iniquity” do debut Amongst The Catacombs of Nephren-Ka, com 1:54), eles conseguiram condensar em tão pouco tempo uma das melhores do disco. “Naqada II Enter The Golden Age” é uma das faixas mais diversificadas que a banda já fez, tirando o pé do acelerador, favorecendo passagens mais cadenciadas, mais um destaque na sequência do álbum, assim como a faixa seguinte, “Overlords of The Black Earth”, com um destaque no baixo bem evidente, muito bem construída e finalmente com um refrão reconhecível.
“Under The Curse of The One God” é Nile no seu melhor: começa brutal, para cair em uma das maiores qualidades de seu som, que são as partes arrastadas, muito bem construídas nesse som, seguido por coros e o final instrumental ritualístico e tribal, algo que tornou característico no som do Nile e que sempre agregou em sua musicalidade. Há de se destacar o trabalho primoroso do baterista George Kolias nessa faixa, rápido, técnico e mortal em todas as passagens da música. “Doctrine of Last Things” tem uma das características que me tornaram fã da banda, que são os riffs lentos, para ouvir fazendo careta (quem sabe do que estou falando, vai entender…), pesadíssima e com umas passagens vocais femininas para agregar mais uma camada ao longo do som. Ótima faixa.
“True Gods of the Desert” faz jus ao seu nome e mostra porque o Nile está no topo de seu jogo. Com seus sete minutos, é um despejo de peso, mais uma faixa para ouvir fazendo careta, para mim a melhor do disco, disparado. Eu gosto do Nile brutal, mas o Nile quando se preza a fazer música mais lenta evidencia a extrema qualidade que a banda possui. Em alguns momentos, até lembra a clássica “Sarcophagus”, essa tem que entrar no setlist dos futuros shows, será um pecado se não acontecer. A faixa título, “The Underworld Awaits Us All”, é a maior do disco, com mais de oito minutos, e mesmo com essa duração, algo relativamente alto para uma banda de metal extremo, a faixa não é cansativa, tendo bastante coisa acontecendo ao longo dela, também lembrando o que era feito entre 2005 a 2009, um primoroso trabalho musical. O disco encerra com “Lament for the Destruction of Time”, uma excelente faixa instrumental, que, de verdade, se tivesse passagens vocais, seria a melhor do disco sem dúvidas, com uma belíssima construção do início ao fim.
The Underworld Awaits Us All é, facilmente, o melhor disco do Nile desde Those Whom The Gods Detest. Seu “lado B” é recheado de excelentes músicas, o que faz valer a pena ouvir o álbum na íntegra. Para uma banda com 30 anos de carreira, chegar ao seu décimo disco e entregar o que entregou é a prova cabal de que o Nile terá seu nome eternamente gravado nos papiros da história metálica. A única mísera ressalva do disco é a ausência de refrões marcantes, como a banda fez muito em seu ápice, mas é um mero detalhe que não tira o brilho dessa joia do submundo.




