
Banda principal: Shiraz Lane
Bandas de abertura: Crazy Heads e Lion Heart
Local: Rock Experience, Rio de Janeiro/RJ
Data: 07/11/2019
Produtora: Megera World Music
Texto por Marcelo Vieira
Fotos por Gustavo Maiato
Há esperança no público hard rock do Rio de Janeiro, afinal, no mesmo mês que os tradicionais Heavy Duty Beer Club e Saloon 79 fecharam as portas, tivemos casa parcialmente cheia para receber os finlandeses do Shiraz Lane em sua primeira vinda ao Brasil. Foi no Rock Experience, antigo Rio Rock & Blues, na Lapa, bairro que é o símbolo-maior da boemia carioca, que a molecada deu o pontapé inicial na turnê que ainda passaria por Curitiba e São Paulo.
A noite da quinta-feira, 7 de novembro, começou cedo, com duas atrações locais que vivem momentos bem distintos em suas trajetórias. A primeira delas, o Crazy Heads, existe desde 2013 e já acumula mais de 25 mil seguidores nas redes sociais. Apesar do nome, o autoral do quarteto é 100% em português e suas letras de loucas não têm nada: ao contrário de muitos de seus pares, que cantam sobre realidades de sexo e drogas que não lhes pertence, Carlos Balú (vocais), Pedro Hills (guitarra), Matheus Campos (baixo) e Aranha (bateria) demonstram engajamento e preocupação social, com letras de cunho político que não descambam para a lacração gratuita. Após dois falsos começos — um deles com um cover de “Crazy Train”, infelizmente cortado antes do solo — e solucionados alguns problemas técnicos, a coisa engrenou. O nervosismo deu lugar à confiança, obtida conforme o público reconhecia o potencial dos jovens. No repertório, um mistão de hard (“Live Wire”, do Mötley Crüe), heavy (“Ace of Spades”, do Motörhead) e brasilidade, com releituras de “Anunciação” (Alceu Valença) e “Sossego” (Tim Maia). A saideira antes da hora veio com “Fuel”, do Metallica. Promissor.
Setlist Crazy Heads:
Brasil
Ace of Spades
Sucata
Live Wire
Carta a Jesus Cristo
Anunciação
Sossego
Fuel
Sem tantos seguidores nas redes, mas com muitos anos mais de estrada, a Lion Heart, banda que é a cara do underground carioca, subiu ao palco logo em seguida. No comando da festa, o vocalista e patrimônio nacional Thiê Rock. Na guitarra, substituindo Brandon, que havia quebrado a perna às vésperas do show, uma alternância entre Leandro Carvalho (Painside) e Alex Meister (ex-Pleasure Maker, atualmente em carreira solo). Thiago Velásquez (baixo), Rogers Vianna (bateria) e a backing vocal convidada Clara Lima completavam o time que largou com “A Noite Me Chamou” e enfileirou outras quatro músicas de “Viver Pra Detonar” (2009), incluindo “Muito Prazer” (do refrão “Vai rolar, vem me dar, vem pegar, tá na cara” — eu sei que você leu cantarolando) e “Desafios”, cujo refrão a gente canta na torcida para que seja verdade: “O rock ‘n’ roll vai nos salvar”. Depois de um cover de “Ride the Wind”, do Poison, Brandon, até então um espectador escondido no meio da galera, assume seu posto, sentado num banquinho, para o que seria a trinca final da apresentação da Lion: “Fora da Lei”, “Dona do Bordel” e a suprema “Sedução”, que cita as Pedras do Arpoador e o Posto 9 em Ipanema, curiosamente, dois pontos turísticos que a galera do Shiraz Lane havia visitado mais cedo naquele dia…
Setlist Lion Heart:
A Noite Me Chamou
Rock N’ Roll Brasileiro
Desafios
Viver Pra Detonar
Muito Prazer
Ride the Wind
Fora da Lei
Dona do Bordel
Sedução
O Shiraz Lane vive um momento de transição. Não que isso seja novidade para a banda, que levou anos até estabilizar a atual formação — Hannes Kett (vocais), Jani Laine (guitarra solo), Miki Kalske (guitarra base), Joel Alex (baixo) e Ana Willman (bateria) —, mas só o tempo dirá se trocar a italiana e mundialmente renomada Frontiers, pela qual lançaram seus dois álbuns — “For Crying Out Loud” (2016) e “Carnival Days” (2018) — pela finlandesa e detentora de um status de lenda local Ranka Kustannus foi a mais acertada das decisões.
De todo modo, músicas novas o quinteto possui, e é com a mais recente delas, “Revolution”, que abrem sua apresentação. Muitas coisas chamam a atenção logo nos primeiros movimentos: figurino, entrosamento, presença de palco… até os instrumentos, sobretudo o baixo Fender Aerodyne de Joel e a Les Paul customizada com fita isolante de Miki. Quatro minutos é o tempo que durou o número de abertura, e foi o tempo que levou para os finlandeses cativarem com seu som o público que era metade olhos e ouvidos atentos, metade gritos histéricos e vãs tentativas de tirar uma casquinha de Hannes cada vez que este se aproximava da beira do palco.
Na hora e pouco seguinte, singles e lados b, novidades e covers, sorrisos e simpatia, um baita clima de alto astral. Azar de quem acha que o Greta Van Fleet é o que de melhor se pode ter hoje em dia. Voz aguda por voz aguda, a de Kett é muito mais marcante, com muitas nuances mais e atua em conjunto com a música em vez de tentar assumir a dianteira numa de impressionar os críticos e angariar comparações com os grandes barítonos do rock do passado. Vale também ressaltar que a exemplo da Crazy Heads, o Shiraz Lane não toma para si as experiências de terceiros; suas letras são fruto daquilo que vivem, baseiam-se naquilo em que acreditam. Legitimidade acima de tudo.
Por mais que boa parte do repertório estivesse na ponta da língua — “The Crown”, “Mental Slavery” e “Story to Tell” foram talvez as mais cantadas —, foi nos covers que o quinteto tomou de assalto até os garçons e bartenders, afinal, não existe ser vivo que não conheça “Eye of the Tiger” (Survivor) ou “Pour Some Sugar on Me” (Def Leppard) ou “18 and Life” (Skid Row). Nenhuma delas foi tocada na íntegra, mas mesmo na condição de medley já valeram. No time das recentes, que segundo a banda farão parte de um vindouro EP, “Do You” também gerou comoção. No bis, em meio a chamadas e respostas e um projeto de solo de bateria, “Harder to Breathe” e o hino em potencial “People Like Us”: “Sing along with the forgotten and the neglected”, conclamam visando a um mundo melhor. E não é que a Lion Heart estava mesmo certa? O rock’n’roll vai mesmo nos salvar.
Setlist Shiraz Lane:
Revolution
The Crown
Mental Slavery
Mama’s Boy
Carnival Days
Story to Tell
Shot of Life
18 and Life
Same Ol’ Blues
Do You
Jam (incl. Eye of the Tiger e Pour Some Sugar on Me)
Tidal Wave
Reincarnation
Harder to Breathe
People Like Us
O Metal Na Lata agradece à Megera World Music pelo credenciamento e pela parceria.






























