
The Gard – “Madhouse” (2018)
Independente
#HardRock, #ClassicRock
Para fãs de: Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath
Nota: 8,5
Nos oito anos seguintes à sua formação, o The Gard obteve um merecido destaque em sua cidade natal fazendo shows como banda tributo ao Led Zeppelin. Portanto, não surpreende o fato de terem escolhido “Immigrant Song” como faixa de abertura de seu primeiro trabalho. A surpresa fica por conta do arranjo que disseca esse petardo conferindo-o nuances e texturas tão incomuns que é como se Beck Norder (vocal), Allan Oliveira (guitarra) e Lucas Mandelo (bateria) estivessem descobrindo o que fazer, que tipo de direcionamento tomar, conforme a música progride. Essa ideia de evitar os clichês do rock pesado é o tipo de coisa que provocaria uma rejeição instantânea nos mais puristas — já estou imaginando uma meia dúzia de conhecidos autoproclamados “referências jornalísticas” do meio abandonando a audição. Como se não soubessem que os maiores especialistas em desconstruir a obra do Led Zeppelin fossem os próprios Jimmy Page e Robert Plant.
“Madhouse” tem sequência com as sete autorais do trio, e é aí que notamos a sintonia com o revival do rock setentista com pinceladas de modernidade que vem sendo praticado por nomes como Rival Sons e, mais recentemente, o Greta Van Fleet; tipo de som que, infelizmente, ainda passa meio que batido por terras tupiniquins, mas que lá fora já reivindica seu espaço nas escalações dos principais festivais e como show de abertura para gigantes/dinossauros do rock. Se enquanto a faixa que dá nome ao álbum consiste num arremedo de alta octanagem nos moldes das mais aceleradas e “in your face” do Deep Purple, aquela homônima à banda -— cujo nome, originário do alemão arcaico, significa “O Reino” — soa como uma experimentação celta a la “The Battle of Evermore” do vocês-sabem-quem.
Um baixo estalado abre “Back to Rock”, momento jam/”hora de apresentar a banda” do show. Eu só queria conseguir entender melhor o que Norder diz, para saber se a mensagem “quanto mais elementar, melhor” da instrumental é replicada na letra. E quando você pensa que a cota de números épicos vai passar em branco, “Kaiser of the Sea” aparece na reta final, dando-nos a impressão de que é o Black Sabbath doidão de “Vol. 4” arriscando uma mistura de “Mistreated” com “Since I’ve Been Loving You”. A saideira, “Panem Et Circenses”, tem “Black Night” em seu DNA e a referência aos Mutantes se restringe ao título. Os únicos mutantes aqui são os próprios músicos, como fica evidente ao longo do álbum: músicos com know-how, que encaram qualquer parada, não têm medo de profanar o sagrado e se proclamam deuses de seu próprio culto — a sede fica em Campinas-SP —, senhores de sua própria vontade e intuição. Podem nunca ter passado perto de um livro de Alesteir Crowley, mas, aparentemente, aprenderam direitinho.
Marcelo Vieira





