
Whitesnake – “The Purple Tour” (2018)
Frontiers Music | Rhino Entertainment
#ClassicRock, #HardRock
Para fãs de: Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath
Nota: 9,5
Antes que comece o ‘mimimi’, me respondam: como criticar o coroa que mais encharcou e ainda encharca calcinhas no rock? O homem que, aos 66 anos, performa ao vivo como num ritual de acasalamento (com direito a “uh, babe” e caras e bocas de “vim te comi” a la José Mayer, só que sem a parte do assédio)? Se a voz é coisa do passado, no palco não tem para ninguém: David Coverdale está para o pedestal do microfone assim como Romário está para a grande área. E por mais incessantes e luxuriosos que sejam os rodopios do pedestal, o cara nunca perde as deixas, nunca entra atrasado, nunca sai do tom (cada vez mais baixo, instrumentos com as cordas cada vez mais frouxas — e daí?).
Coloque-se na plateia diante daquele que por quase cinco décadas tem prestado serviços de excelência ao rock, acompanhado por músicos do mais alto calibre, tocando um repertório repleto de músicas que, se não dialogam intimamente com sua história de vida, você, provavelmente, aprendeu a cantar (ou embromar) junto de tanto que as ouviu nas mais diversas situações. Não há espaço para reclamação, desmerecimento ou desdém: qualquer que seja a sensação pós um show do Whitesnake, eu te asseguro, ela será ótima, inesquecível, o equivalente a uma suruba com as panicats.
Tirando uma coisa ou outra de diferente, “The Purple Tour” é, sim, mais um ao vivo do Whitesnake. Aqui você ouvirá todos os hits — “Here I Go Again”, “Is This Love?”, “Love Ain’t No Stranger” etc. — e somente algumas das seleções do cânone púrpura regravadas por Coverdale e seus asseclas em “The Purple Album” (2016). E é somente delas, que sozinhas valem o investimento, que irei falar. Para quem já é da casa, a abertura com o “Burn” pode não consistir numa novidade, mas só até as técnicas avançadas de punheta de Reb Beach — que desde a saída de Doug Aldrich assumiu o posto de guitarrista #1 — explodirem nos alto-falantes onde na gravação original consta o duelo de arpejos de Richie Blackmore e Jon Lord. “Soldier of Fortune” é outra do Deep Purple que já estamos carecas de escutar nos shows do Whitesnake, mas é aquilo: você diria não ao seu prato favorito no seu restaurante favorito? Aposte sempre no conhecido, sobretudo quando este consistir numa interpretação comovente e visceral de uma das músicas mais belas do rock setentista. E “Mistreated”, cujos anos de recorrentes incursões no repertório solo de Glenn Hughes e do Black Country Communion quase fizeram que nos esquecêssemos se tratar do maior leviatã sonoro do Deep Purple MKIII, soa como os passos de um gigante sobre terras ermas.
“The Purple Tour” saiu lá fora no último dia 19 de janeiro, mas ainda não há data de lançamento no Brasil.
Marcelo Vieira





