Carl Dixon – “Strange Way to Live: A Story of Rock ‘n’ Roll Resurrection” (Livro) (2014)

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Carl Dixon – “Strange Way to Live: A Story of Rock ‘n’ Roll Resurrection” (Livro) (2014)
Dundurn
#Biografia#Autobiografia

Para fãs de: RushApril WineThe Guess Who

Nota: 10

Eu já havia publicado meus primeiros textos quando um terrível acidente de carro quase vitimou Carl Dixon. Mais de uma década atrás, à frente do blog Combe do Iommi, eu vira e mexe escrevia sobre os chamados lados b do hard e do metal, e o Coney Hatch, o qual Dixon liderava nos anos 1980 e que voltaria a liderar um tempo depois de driblar a morte, era um daqueles grupos cuja música rolava incessantemente no meu velho e querido som. “Fantasy”, “First Time for Everything”, “Girl from Last Night’s Dream”, “Hey Operator”… Por mais que a obra completa não fosse das mais extensas — apenas três álbuns — todas as canções do quarteto eram igualmente boas de ouvir.

Munido do tipo de sensibilidade e sabedoria que só se adquire com o tempo e sob circunstâncias extremas, Dixon expõe neste “Strange Way to Live” a sua vida que de estranha não tem nada, mas pode provocar estranheza naqueles que acreditam que autobiografias de músicos, sobretudo daqueles cujo auge se deu na chamada década da decadência, devam, invariavelmente, consistir em bebedeira, putaria e outros ingredientes que compõem o lado negro do glamour e da fama.

Em primeiro lugar, Carl não era chegado nos “tóxico”. Em segundo, casou-se ainda novo e foi pai logo em seguida. Por fim, glamour e fama foram duas coisas que o Coney Hatch nunca obteve em larga escala, apesar não somente do trabalho duro, mas também do talento musical de todos os envolvidos e de sua capacidade de compor músicas capazes de lhes assegurar postos em turnês ao lado de medalhões como Iron Maiden e Judas Priest, nas quais tiveram de lidar com a ira e a deselegância dos metaleiros fãs de ambas as bandas: “Foda-se o Coney Hatch!” era seu brado retumbante.

Dixon fala de sua infância, de seus primeiros passos na música, de sua paixão pelo hóquei. Era o bonitão da classe e um dos atletas mais respeitados do colégio. Passou por várias bandas. Comeu o pão que o diabo amassou na estrada. Lidou desde cedo com promotores inescrupulosos e suas promessas vazias. Amargou discos com baixa expressão em vendas que se tornariam clássicos cult somente trinta anos mais tarde. Teve seus dias de compositor sob encomenda e viu suas canções estourarem na voz de terceiros. Investiu numa carreira solo honesta, mas também restrita a nichos. Saiu para tocar uma noite e voltou com menos de 40 dólares no bolso. Fez parte dos ilustres April Wine e The Guess Who. Se separou uma vez. Se separou duas vezes. Fez bico de marceneiro para complementar renda. Sobreviveu a um acidente de carro com pouquíssimas sequelas a longo prazo — o que é perder um olho quando as outras opções seriam ficar paraplégico, tetraplégico ou até morrer?

Chegando à reta final, quando Carl relata sua longa recuperação, somos levados para dentro de sua alma. Tudo é contado de modo a nos conduzir pelos corredores do hospital na Austrália onde permaneceu por meses sob os cuidados de uma equipe à qual dedica não apenas o livro, mas a continuidade de sua vida. Basta ouvir seus trabalhos posteriores — incluindo o recente “Unbroken” (2019), com resenha exclusiva aqui no Metal Na Lata — para se ter certeza de que a sua hora ainda não havia chegado. Carl Dixon tinha, e tem, muito a nos oferecer. Sorte a nossa.

Marcelo Vieira

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