Metal na Lata

Entrevista com Anders Jacobsson (Draconian)

draconian 1
Compartilhe

Entrevista com Anders Jacobsson (Draconian)

Por Gustavo Maiato
Fotos por Chad Michael Ward/Divulgação

Anders Jacobsson é vocalista e praticamente fundador do Draconian, banda sueca que une de maneira peculiar os subgêneros do Death, Doom e Gothic metal. De passagem pelo Brasil neste final de semana, com produção da Powerline Music & Books e Mirror/AM, Jacobsson conversou com o Metal Na Lata e prometeu surpresas para essa apresentação tão aguardada por aqui. O músico também falou sobre as inspirações para o último álbum “Under a Godless Veil” e explicou qual deve ser o direcionamento do próximo disco de estúdio.

Metal Na Lata: Qual o conceito geral do último álbum “Under a Godless Veil”? As letras são conectadas de alguma forma?

Anders Jacobsson: Diria que tem algo de conceitual sim. Existe um tema geral por trás de todas as músicas, mas tudo é misturado com os assuntos que costumo falar nas letras. Eu quis tratar sobre cosmologia e mitologia. Estudei muito gnosticismo e descobri que existe uma filosofia espiritual desenvolvida milhares de anos atrás. Isso começou no Egito e com Platão também. Tudo lidava com essa mesma sabedoria. Isso foi interessante.

O Draconian sempre lidou com os aspectos mais obscuros da vida e como nos sentimos sozinhos nesse mundo. Quase que abandonados, como se essa não fosse nossa casa de verdade. Sempre senti dessa maneira, desde criança. No começo do Draconian, na primeira demo, já comecei a compor sobre isso.

É algo escuro e terapêutico, tem uma coisa de autoconhecimento. Uns oito anos atrás, me deparei com alguns autores que falavam sobre essa queda de Sofia. Isso chamou muito a atenção. Se você analisar bem e associar com nossa existência, chega na conclusão que algo deu muito errado e não éramos para estar aqui. Isso tudo esteve no Draconian desde sempre. Era perfeito para um álbum nosso. Não quis falar sobre gnosticismo apenas, porque é algo complexo.

Dá para ver os aspectos antigos das minhas letras, com metáforas e simbolismos, mas quis falar sobre a Sofia e tudo mais. Só que de um modo sutil. O título se refere ao véu que cega nossa alma. Ou seja, o mundo material, onde somos limitados pelas leis da natureza. Nosso sistema social e econômico… Somos escravos disso. Dá para entender esses simbolismos e misturar com as coisas antigas do Draconian. Agora, provavelmente vou implementar isso novamente no futuro. O próximo álbum deve manter esses temas, só que indo mais para um nível pessoal. Como lido com as coisas e como enxergo o mundo.

Metal Na Lata: Recentemente, o Draconian passou por uma mudança no line-up. A vocalista Heike Langhans decidiu deixar a banda e tivemos o retorno de Lisa Johansson. Como foi passar por essa mudança? Qual o feedback dos fãs?

Anders Jacobsson: Tentamos fazer as coisas funcionarem de todas as maneiras para a Heike continuar conosco e fazer os shows. Conforme o tempo passou, principalmente depois do lançamento do álbum, ficou claro que ela tinha outras ideias. Ela tinha certeza do caminho a seguir. Mas foi só ano passado, em março por aí, que ela realmente tomou a decisão. Ela disse que estava com muita insegurança sobre se queria fazer turnês e se comprometer.

Ela queria uma agenda mais aberta e nós temos compromissos de shows e festivais lá para frente. No final, ela queria estar mais no controle e compreendo totalmente. Ela é muito boa no que faz. Então, essa situação ficou crescendo e a decisão chegou. Isso não veio como algo inesperado. Pensamos quem poderia substituir.

A ideia era que elas duas pudessem estar na banda. Se por algum motivo uma não pudesse fazer, a outra assumiria. Isso seria muito interessante, mas no final a Heike saiu. Ela é muito ocupada com os projetos dela e estamos felizes por ela. Nós também estamos bem ocupados, fizemos a turnê que foi adiada por causa da pandemia. Também contratamos um guitarrista novo, que é o Niklas Nord. As coisas agora com essa turnê soam muito bem. Estamos melhores do que nunca, principalmente ao vivo. A Lisa está fazendo um trabalho fantástico.

Metal Na Lata: O Draconian é rotulado como gothic doom metal. Ou algo parecido! Qual seu pensamento sobre essa cena doom hoje em dia? Qual o futuro do gênero para você?

Anders Jacobsson: As pessoas nos chamam de doom metal e vejo isso como uma generalização. Sempre fiquei com um pé trás de me referir ao Draconian assim, porque vejo que somos mais que isso. Quando penso em doom, vem na cabeça o Candlemass ou coisas mais antigas, como o Black Sabbath até. O Draconian é influenciado por esse pessoal aí, principalmente a partir dos anos 2000. Nossa influência era a cena de doom death, como My Dying Bride, por exemplo. Agora, esses caras também estão no gothic e flertam com o sinfônico e coisas mais românticas.

Nós misturamos isso tudo. Por isso nos chamam de gothic doom. Isso que acabou pegando. Quando vejo outras bandas de gothic doom, acho que são bem diferentes de nós. Hoje em dia, entendo o Draconian como um dark metal, que explora as partes mais sombrias de todos os gêneros, desde o progressivo até o gothic e coisas mais experimentais.

Nós pegamos essas referências todas. Mas é fácil nos identificar como gothic doom. Mantivemos uma certa sonoridade desde o começo e nunca mudamos muito. Portanto, me sinto confortável até com esse rótulo.

Metal Na Lata: Existe algum álbum da banda que não recebeu a atenção devida na sua visão?

Anders Jacobsson: Bom, acho que não. Tivemos muita sorte com nossos lançamentos. Tanto a crítica de jornalistas e também os fãs sempre estiveram do nosso lado. Forjamos um som e estamos nisso desde sempre. Muda um pouquinho, claro. No caso do “A Rose for the Apocalypse”, sei que muitos esperavam algo mais doom. Esse álbum tem coisas mais rápidas. Mas ele teve muita atenção de qualquer forma. No “The Burning Halo”, vejo boas músicas lá, mas o processo de mix não foi legal. Mesmo assim, muitos julgam como seus favoritos. DIscordo, mas sou grato!

Metal Na Lata: “Where Lovers Mourn” completa 20 anos agora em 2023. Quais memórias você tem desse disco? Envelheceu bem o disco?

Anders Jacobsson: Acho que sim. Especialmente lendo coisas sobre ele agora. Eu procuro ler o que as pessoas falam sobre. Temos um Discord onde os fãs discutem os álbuns e dão suas opiniões. Parece que ele sobreviveu ao teste do tempo. Gosto mais dele agora do que quando fizemos. Na época, ficamos insatisfeitos com a produção. Tínhamos algo completamente diferente na cabeça. Tínhamos um orçamento limitado, éramos uma banda nova.

No final das contas, aquele momento nos levou onde estamos agora. Algumas músicas continuam fortes hoje, como “The Cry of Silence”. Algumas músicas ficaram melhor nas demos mesmo! Esse foi o álbum que nos levou a “Arkane Rain Fell”, que é nosso disco mais aclamado até hoje. Tivemos mais tempo naquela ocasião para chamar atenção dos fãs.

Se tornou um clássico. Quando acabamos o mix, nosso produtor disse que seria um clássico. Não estava certo disso, mas ele estava correto. É nosso disco mais importante.

Metal Na Lata: “Sovran” tem a música “Rivers Between Us”, que é a música com mais audiçõess no Spotify de vocês. A que você atribui esse sucesso?

Anders Jacobsson: Acho que essa música alcançou um público além do nosso. Não tem muitos guturais e tem uma vibe romântica e bonita. Tem variações lá e traz uma melancolia. Também vemos uma interação legal entre as vozes masculinas e femininas. É uma balada e todos fizeram um ótimo trabalho. Acho que muitas pessoas que não conhecem o Draconian e não estão conectadas ao nosso tipo de música conseguem curtir.

Metal Na Lata: A banda vem ao Brasil pela primeira vez. Como será esse show? Já temos até uma segunda data confirmada após a primeira esgotar!

Anders Jacobsson: Se tiver uma surpresa, não quero estragar! Mas posso dizer que tocaremos um set muito longo. Esse é o plano. Tivemos um mês e meio para ensaiar e já digo que tocaremos coisas que não tocamos já tem anos. Essa coisa de “venha ao Brasil” virou um meme! Desde a época do MP3 já recebíamos e-mails de pessoas do Brasil! Quando gravamos nossas demos já tinha essa interação. Sei que vamos tocar as favoritas dos fãs antigos. Essa é a melhor maneira de fazer esse show no Brasil depois de todo esse tempo! Tem uma pressão, precisa ser algo bom.

Metal Na Lata: O que você pode falar sobre os planos para o próximo álbum? Como soará?

Anders Jacobsson: Estamos trabalhando nisso! O que posso dizer é que se você quiser comparar com o “Under a Godless Veil”, esse será mais introspectivo. Não que o “Under…” não seja, mas esse será mais opressivo e obscuro. O sentimento que vejo é algo mais apocalíptico, mas ainda terá coisas antigas vindas do gothic, doom e death. Já ouvi algumas demos e essa foi minha primeira impressão.

Metal Na Lata: Por favor, deixe uma mensagem final!

Anders Jacobsson: Fãs do Brasil, estamos muito ansiosos para tocar por aí! Como disse, teremos algumas surpresas e vocês não perdem por esperar!

Sites Relacionados:

https://draconianofficial.com
http://www.facebook.com/draconianofficial
https://www.instagram.com/draconianhorde

Compartilhe
Assuntos

Veja também