
Uma das mais surpreendentes bandas da cena Heavy Metal Brasileira, o Psychotic Eyes, sempre foi uma grande caixinha de surpresas. Seja lançando álbum de Death Metal, seja se influenciando por estilos além do metal pesado ou indo muito mais além que foi fazer o primeiro show de Death Metal totalmente acústico da história. Leia a seguir mais detalhes disso, próximos passos e sobre toda a trajetória da banda nas palavras de seu mentor, Dimitri Brandi!
Por William Ribas
Metal Na Lata: Como surgiu a ideia de se fazer um show acústico de Death Metal? E qual era a expectativa da banda por fazer algo inédito?
Dimitri Brandi: Na verdade estávamos era morrendo de medo. Foi a única vez em que temi uma vaia ou uma reação agressiva da plateia, mas isso foi antes de iniciarmos o show. Logo que sentamos na cadeira – e foi também a primeira vez na minha vida que dei um show sentado – começamos os primeiros acordes de “The Hand of Fate” e ali pude ver a reação receptiva e amistosa da plateia. Acho que nem poderia ser diferente, nosso medo era despropositado, pois aquele era um evento de arte, com sarau de poesia, exposição de quadros, não era um show de metal. O público também estava sentado e aguardando poesia. O que pode, talvez, ter assustado as pessoas eram os vocais guturais. Como surgiu a ideia? Não sei, mas não tínhamos opção. Estávamos sem baterista e havíamos participado de uma coletânea organizada pelo grande amigo Barata Chichetto, poeta, pintor, compositor de óperas-rock. Ele organizou o evento de lançamento e nos convidou para tocar. O formato acústico foi a única saída para viabilizar nossa participação.
Metal Na Lata: Qual foi a reação do público? Em algum momento pensaram em gravar a apresentação para um futuro DVD?
Dimitri Brandi: Se eu soubesse que a reação seria tão boa teria cogitado gravar o show e lançado em DVD. Foi feita uma filmagem e é facilmente visto no YouTube. Essa filmagem repercutiu muito bem e recebemos vários elogios e incentivos. Muitos disseram que deveríamos investir no formato acústico, muitos elogiaram a ousadia e a coragem de fazer algo inédito. Acho que essas pessoas tem razão, a arte tem sempre que se superar. Quando eu comecei a tocar queria ser igual aos meus ídolos, mas hoje me inspiro neles para ser completamente diferente. Se for para gravar ou escrever algo que alguém já fez melhor nem começar. Ninguém vai querer ouvir e eu mesmo vou me sentir frustrado como artista. O legal é fazer algo diferente e que ninguém nunca fez, algo pessoal que mostre minha marca. Pouco importa o sucesso comercial disso. Metal extremo é sempre contestador, underground, desafiador. Sempre vão torcer o nariz para o nosso estilo.
Metal Na Lata: O novo álbum se chamará “Olhos Vermelhos”, e a banda seguirá no formato acústico. O que você pode nos adiantar?
Dimitri Brandi: Por enquanto sim, pois ainda não encontramos baterista para integrar a banda numa formação definitiva. Então não temos alternativa, vamos continuar tocando no formato acústico, usualmente com dois violões, mas estamos, também, bolando uma apresentação com guitarra e piano. Não é meu objetivo, eu gosto é de destruição sonora, de música agressiva que parece um golpe de guindaste, senão não tocaria Death Metal, mas dentro de todo ‘deathbanger’ há também um coração emocionado. Então explorar esses outros aspectos da música é muito interessante já que temos melodias bonitas, melancólicas, tristes e podemos trabalhar com várias emoções. O Death Metal é assim. O metal é assim, podemos transitar entre todas as emoções, não necessariamente só as de alta energia ou agressividade. Todo mundo que gosta de metal tem suas baladas preferidas e aqueles solos que arrepiam guardados com carinho na memória.
Metal Na Lata: Após o lançamento do novo álbum, como serão as apresentações do grupo, seguirão no formato acústico ou planejam fazer uma divisão no set, uma parte plugada e outra fazendo o acústico?
Dimitri Brandi: Essa seria o ideal: dividir o set. Algumas músicas dos dois primeiros discos ficaram muito mais legais no formato acústico. Além disso, temos as duas novas, “Olhos Vermelhos” e “Memento Mori”, que foram compostas no formato acústico. Até imagino uma versão pesada distorcida da “Olhos Vermelhos”, mas a “Memento Mori” é nossa balada com piano, não funcionaria, eu acho, numa formação com a banda inteira. A ideia é boa, pois nossas músicas sempre exigem muito do baterista, então uma pausa acústica pro cara descansar iria fortalecer nosso set e permitir que tocássemos durante mais tempo.
Metal Na Lata: O segundo álbum, “ I Only Smile Behind The Mask”, é considerado um dos melhores trabalhos do Metal Nacional. No momento da criação já dava para perceber que tinham em mãos algo diferenciado?
Dimitri Brandi: Uau, obrigado pelo elogio!!! Eu sabia que o disco estava diferente do que normalmente se produz no metal brasileiro. Isso era, inclusive, nossa intenção. Tínhamos letras com trechos em português (no final de “Welcome Fatality”), poesia musicada (“Throwing Into Chaos”), bateria de metal extremo baseada em maracatu (na introdução “Welcome Fatality” de novo), uma balada Death Metal com letra falando de amor (“Life”), uma música Thrash Metal com uma técnica de palhetadas de guitarra que eu inventei (chupa Steve Morse, hehehe, usei em “Dying Grief”), uma música baseada no Chico Buarque com compasso 5/4 e riffs de Hard Rock que se transformam em Doom Metal, com baixo em tapping (“The Girl”, a música que considero nossa obra prima), slap de baixo numa música Death Metal (no final da faixa título), participação do artista multimídia Edgar Franco, o Ciberpajé, com narração de diálogos entre homem e robô baseado num livro de ficção científica (“The Humachine”, que tem um compasso 7/8 na introdução, coisa de maluco). Ou seja, era muita coisa estranha num disco só. Então eu tinha consciência de que o material era inusitado, inovador e diferente. Investimos pesado na produção, a cargo do J.F. Dagenais, do Kataklysm, o que deu a sonoridade fantástica que o álbum tem, mas que também ficou diferente do padrão do metal brasileiro.
Metal Na Lata: Mesmo sendo um álbum aclamado pela mídia e fãs, “ I Only Smile Behind The Mask” continua disponível somente no formato digital, existe planos para um lançamento físico?
Dimitri Brandi: Nenhum. Não vou gastar dinheiro prensando CDs que ninguém vai comprar. Quem compraria merece ganhar de presente! Lançamento físico hoje é furada, ainda mais para bandas independentes. Outro dia vi aqui em São Paulo uma banca de jornal vendendo azulejos com reprodução de capas de discos por vinte reais. Pensei como é irônico que as pessoas comprem um azulejo com a capa de um disco do David Bowie por vinte reais, mas não compram o disco do David Bowie por preço nenhum. A música virou realmente um bem imaterial, que você ouve na nuvem, por osmose, não sendo mais admissível que ela seja comprada como se fosse um produto ou uma mercadoria. É o novo mercado, a nova indústria musical.
Metal Na Lata: Hoje em dia lançar os álbuns nas principais plataformas digitais é a única saída para que bandas continuem gravando e lançando discos?
Dimitri Brandi: Nada, nem isso. O Spotify não paga porra nenhuma. O Youtube é a mesma coisa. Você só ganha alguma coisa se tiver milhões de plays/views. A saída hoje para as bandas se sustentarem é vender merchandising. Por isso os shows são importantes, pois num evento posso vender camisetas da banda (ninguém ainda inventou um streaming de roupas) e fazer algum lucro. Porque cachê também é sonho, no máximo te pagam umas cervejas ou o custo da viagem. Ganhar dinheiro com música no Brasil é quase impossível, mais difícil ainda com metal extremo. Só temos a banda porquê temos outros empregos que pagam as contas. Os únicos artistas brasileiros que conheço que vivem da própria arte são os tatuadores. Músicos, escritores, poetas, pintores, escultores, todos precisam dar aula ou adotar empregos formais em outras áreas para se sustentarem.
Metal Na Lata: Agora em 2017, o primeiro álbum de vocês, “Psychotic Eyes”, completa 10 anos do seu lançamento, existe alguma comemoração ou até mesmo o relançamento do disco em vista?
Dimitri Brandi: Comemoração? Não sei, nunca tinha pensado no assunto. Relançamento é uma boa ideia? Eu gostaria de ouvi-lo com outra mixagem, mais adaptada ao que a banda se tornou depois. Mas, por outro lado, é o registro daquele momento, não sei se vale à pena mexer. Quando as bandas que eu gosto fizeram isso eu achei uma merda. Gosto do primeiro álbum do Iron Maiden do jeito que ele é. Mas talvez fosse interessante ouvir o “Pleasure to Kill” do Kreator com uma produção melhor. Não sei mesmo, e o que posso adiantar é que no disco acústico há uma nova versão de “The Hand of Fate”, muito mais legal que a original.
Metal Na Lata: A banda tem bastante variedade nas composições mesmo sendo classificada como Death Metal e facilmente se encontra pedaços de muitos outros estilos espalhados e incorporados nas músicas de vocês. Pode se dizer que é um grande diferenciador do Psychotic Eyes?
Dimitri Brandi: Somos fãs de todos os estilos de metal. Minhas bandas preferidas são Iron Maiden, Death, My Dying Bride, Rush e Megadeth. De todas elas eu me inspiro de alguma forma, sempre coloco algo desses estilos no som. O que nos define como metal extremo são os vocais guturais, a afinação pesada das guitarras e a bateria que flerta com blasting beats. Mas não penso em estilos quando componho. Se um riff parece Blues ou Hard Rock, mas eu gosto dele, tento usá-lo numa música. Por outro lado, nunca fui um guitarrista 100% Death Metal, daqueles com palhetada super-rápida e uso massacrante de alavanca. Depois que tive tendinite, mudei ainda mais meu jeito de tocar. Hoje não posso palhetar rápido, então desenvolvi mais as técnicas de mão esquerda. E acabei cansando da alavanca, é muito chato de trocar as cordas de uma guitarra com Floyd rose. Reparei, também, que meus solos preferidos são de guitarristas mais melódicos, que usam pouco ou nem usam alavanca, tipo a dupla do Iron Maiden ou o Gary Moore.
Metal Na Lata: Formada em 1999, duas demos, dois álbuns com bastante repercussão, show acústico inédito, novo álbum a caminho, olhando tudo isso, qual é o sentimento que bate?
Dimitri Brandi: Uma enorme satisfação por nunca ter desistido e saber que a arte nunca vai morrer! Vi muita gente abandonar o barco nesses anos todos. Vi muita banda boa acabar. Vi muito CD de estreia não ter sucessor. Com o Psychotic Eyes isso não aconteceu, isso é uma grande conquista. Ninguém pode nos tirar a nossa história, e vamos continuar fazendo metal extremo enquanto quisermos, pois não dependemos de aprovação de ninguém, não dependemos de sucesso, não dependemos de gravadora, empresário, o caralho. Estamos nessa pela arte, pela oportunidade de passar uma mensagem, de transmitir emoções por meio da música. É isso que importa.
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, espaço final é todo seu.
Dimitri Brandi: Eu que agradeço meu caro! O Metal na Lata é foda!
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