
Com uma longa trajetória no metal extremo, os brasilienses do Miasthenia estão sempre impressionando pela qualidade de seus discos, fugindo dos típicos padrões do Black Metal, numa abordagem de temas históricos da cristianização da América Latina. Conversamos com a Susane Hécate (vocalista/tecladista) um pouco da história da banda, influências, nova formação e também sobre a turnê europeia, projetos e a excelente repercussão do novo disco, o “Antípodas”.
Por Victor Augusto
Metal Na Lata: Quais foram as maiores influências para a banda na época de sua criação? De bandas atuais, existe alguma que chega a ser uma nova referência/influência para o Miasthenia?
Susane Hécate: No início em 1994, nos inspiramos especialmente em Master’s Hammer (Jilemnický ocultista), Samael (Blood Ritual e Worship Him), Root (Zjevení), Grand Belial’s Key (Witness to Regicide), Emperor (In the Nightside Eclipse), Sarcófago, MercyFul Fate, Bathory e algumas bandas gregas como Necromantia, SepticFlesh e Rotting Christ. Hoje em dia é difícil citar influências específicas, porque escutamos uma variedade de bandas e estilos, até mesmo trilhas sonoras de filmes épicos nos inspiram. Somamos assim uma longa trajetória no Metal, então o que fazemos musicalmente de certa forma incorpora muitos elementos.
Metal Na Lata: Quais sãos as influências de cada músico na forma de tocar seus respectivos instrumentos?
Susane Hécate: Como vocalista, me inspirei no Carcass, Kreator e Samael, já enquanto tecladista, me inspiro em música clássica e trilhas sonoras produzidas especialmente por Hans Zimmer. Thormianak se inspira em Randy Rhoads (Ozzy Osbourne e Quiet Riot) e Nygrom em Neil Peart (Rush).
Metal Na Lata: O Miasthenia trata de temas que envolvem a colonização cristã e toda a consequência cultural que isso resultou na América Latina. As letras dão uma visão histórica do que efetivamente aconteceu. Isso pode ser considerado um diferencial da banda em relação a outros grupos de Black Metal, pela forma de abordagem aos dogmas do cristianismo?
Susane Hécate: Com certeza, mas eu sempre tenho que esclarecer que minhas letras são, sobretudo, poéticas, se baseiam em acontecimentos e personagens reais, mas em vários momentos em também subverto e recrio os desfechos destas histórias, especialmente daquelas de resistência dos ameríndios à cristianização. Hoje mesmo eu estava ouvindo e analisando a música Idolatrias do nosso álbum Supremacia Ancestral (2004) e vejo que eu faço um tipo de “metaficção historiográfica”, ou seja, um tipo de crítica e ironia à história tradicional/totalizante, pois na maioria das minhas letras a supremacia, a força e a honra são pagãs, e os indígenas resistem e se recusam ao culto de um deus cristão. Assim, minhas letras refletem uma possibilidade interpretativa baseada em uma reflexão sobre a história ‘cristianocêntrica’ e colonialista que tendem a invisibilizar, inferiorizar ou estigmatizar os protagonismos e culturas dos antigos ameríndios.
Metal Na Lata: De uns anos pra cá, o Miasthenia segue em trio, com o guitarrista Thormianak assumindo o baixo nas gravações. Como a banda fez para se adaptar ao vivo?
Susane Hécate: Ao vivo, inicialmente, sentimos que isso era possível porque o teclado atua o tempo todo nos sons, destacando os graves. Mas para ganhar mais peso e corpo, Thormianak passou a usar alguns pedais que, direto da guitarra, simulam também o som do baixo, conectado a um amplificador próprio para contra-baixo. Isso é realmente muito trabalhoso no palco, mas enquanto não encontramos um baixista que realmente possa se integrar à banda, tem funcionado muito bem!
Metal Na Lata: A ausência do baixo contribuiu pra uma maior harmonização guitarra/teclado ou, até mesmo, aumentou a participação dos teclados nas bases?
Susane Hécate: O Miasthenia já vinha desde o início trabalhando essa harmonização de teclados e guitarra. Antes do álbum “Legados do Inframundo” (2014) os teclados eram mais independentes e com arranjos mais complexos, depois passei compor linhas mais básicas e graves, como se fosse um baixo, para dar mais coerência e peso ao som. De todas as formas, o teclado sempre foi um elemento essencial em nossos sons.
Metal Na Lata: Há cerca de um ano que Nygrom tem tocado com o Miasthenia, vindo a se tornar efetivo da banda. Como se deu essa substituição do V. Digger após as gravações de “Antípodas”?
Susane Hécate: V. Digger é um grande baterista de metal extremo, mas ele vinha atuando com muitas dificuldades na banda, em virtude de sua vida profissional e família, o que destoava bastante de nossos planos. Por sorte apareceu Nygrom, um exímio baterista, que chegou a tocar com Thormianak em algumas apresentações do Omfalos; gostamos muito do seu estilo, personalidade e comprometimento, e vimos que ele poderia assumir esse posto com mais dedicação e tranquilidade.
Metal Na Lata: Marcos Thormianak costuma mencionar que Nygrom é um “filho”. Já existia essa amizade com o baterista, ou foi algo que surgiu após a entrada dele na banda?
Susane Hécate: (Risos) Foi algo construído a partir da entrada dele na banda, de forma carinhosa, temos um grande respeito por Nygrom e muitas afinidades em termos de valores.
Metal Na Lata: “Antípodas” vem recebendo muitos elogios por parte dos fãs e da mídia especializada, entrando em várias listas de melhores lançamentos do ano de 2017. Como ocorreu o processo de criação e composição do disco?
Susane Hécate: Foi um processo um pouco difícil e que demandou muita paciência e dedicação, porque como eu já disse, V. Digger não tinha tanto tempo para ensaios e gravação. Além disso, eu estava em um momento profissional bastante estressante na universidade. Thormianak foi o mais adiantado e focado nesse processo, pois suas linhas de guitarra já estavam todas compostas há mais de dois anos. Eu só tive condições de compor as letras e os teclados em um período curto de férias do trabalho, o que atrasou um pouco o processo, mas rendeu ótimos resultados!
Metal Na Lata: A banda gravou os três últimos discos no BroadBand, estúdio que se tornou uma referência no DF. Qual a importância que o Caio Duarte tem tido na produção dos discos da banda desde então?
Susane Hécate: O Caio Duarte é um excelente técnico de som, muito atualizado e competente. Ele tem enorme importância nas nossas produções, por conseguir captar muito bem o espírito e intencionalidade da banda, e isso se deve ao respeito mútuo que nós temos por ele e ele por nós, aspecto muito importante nos resultados positivos dessas gravações.
Metal Na Lata: O Miasthenia é uma banda bem ativa, tanto em relação a lançamentos como na agenda de shows por diversas cidades e até mesmo fora do Brasil, algo que nem todas as bandas conseguem. Quais são os fatores que mais dificultam essa cena de shows no underground?
Susane Hécate: Infelizmente não somos tão ativos assim enquanto banda, porque nunca tivemos condições de realizar grandes turnês, pois cada um de nós tem uma vida profissional paralela à banda, mas nos esforçamos para fazer pelo menos um show por mês e às vezes ficamos meses sem nenhum show agendado. Como não dispomos de tempo para sair em uma turnê de van ou ônibus com equipamentos e pessoal de suporte, isso vem inviabilizando bastante os shows no Brasil, porque já há algum tempo as bandas de metal extremo ingressaram fortemente na estrada e tem agendados shows todos os dias da semana, de norte a sul do país. Antes, boa parte das bandas era convidada para tocar, hoje alguns produtores perguntam quando passaremos pela cidade em turnê. Para os produtores locais isso diminuiu bastante os custos com as bandas underground. Já nós aguardamos os convites de produtores locais e acabamos fazendo apenas um show por fim de semana.
Metal Na Lata: O DVD “O Ritual da Rebelião” contem vários registros “Bootlegs” entre os anos 2000 e 2010. Como foi juntar material de tantos anos de estrada?
Susane Hécate: Foi bacana, tínhamos muito material guardado de filmagens feitas por nós e também por amigos ao longo desses anos. Esse DVD é mais um registro de memória da trajetória banda em shows, mesmo com baixa qualidade, reflete mesmo a realidade underground brasileiro. Ainda continuamos a divulgar e distribuir esse material.
Metal Na Lata: O “Território Metálico” (DVD de 2015 que conta com entrevistas e curtas performances ao vivo de bandas de Brasília – DF) mostrou o potencial de vocês ao vivo, contando com filmagem e som profissional nas três músicas que entraram para o registro. Qual foi a importância desse projeto para o Miasthenia?
Susane Hécate: Foi uma produção de grande investimento e que demorou mais de dois anos para se concretizar. Esse um projeto foi liderado e idealizado pelo pessoal da Moretools (banda de Death Metal de Brasília/DF) e que ficou excelente, só temos a agradecer a eles pelo convite de participação do Miasthenia, porque é o melhor registro ao vivo da banda até o momento.
Metal Na Lata: A banda tem planos para um DVD nos moldes do “Território Metálico”, porém com um show que contenha um set completo?
Susane Hécate: Sim, estamos planejando a gravação de um vídeo documentário com a banda tocando ao vivo, isso para o próximo ano.
Metal Na Lata: Recentemente, a banda anunciou que tem uma turnê europeia planejada para 2018. Quais as expectativas e o que a banda já pode adiantar sobre ela?
Susane Hécate: A expectativa é grande. Já fechamos o contrato com o Xandão (Andralls) para a realização dessa turnê em outubro deste ano. Aos pouco ele está confirmando os locais, então em breve poderemos expor toda a agenda de shows. Já posso adiantar que tocaremos em Portugal, Espanha, França e Alemanha.

Metal Na Lata: Quais pontos a banda considera de mais positivo nesses 23 anos de carreira e quais foram os maiores aprendizados?
Susane Hécate: De positivo é sempre o Metal, continuar gravando e produzindo novos álbuns, isso realmente nos realiza enquanto músicos. Aprendemos muito a cada lançamento em termos de produção e qualidade sonora, mas aprendemos também em termos humanos com a experiência e amizades no underground. O Metal torna as nossas vidas mais interessantes. Com ele aprendemos a ser fortes, rebeldes, críticos e contestadores.
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista. Deixe sua consideração final.
Susane Hécate: Agradecemos imensamente o apoio ao Miasthenia com essa entrevista. Vida longa ao Metal na Lata!!! O Miasthenia segue em frente realizando alguns pelo Brasil ainda este semestre e em outubro na Europa. Aguardem mais novidades em nossa página no Facebook e site oficial www.miasthenia.com. Assistam e compartilhem o nosso lyric vídeo da música “ANTÍPODAS”, disponível no YouTube. Força e honra sempre!!!!
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