
The Devin Townsend Experience – “Empath” (2019)
Inside Out Music | Nothern Music | Hevydevy Records
#ProgressiveMetal, #JazzFusion, #ClassicalMusic
Para fãs de: Devin Townsend Project, Frank Zappa
Nota: 10
Em 2017 Devin Towsend resolveu desfazer sua banda Devin Townsend Project (DTP) para se dedicar à carreira solo e criação de música sob novas perspectivas. De início, a notícia soou estranha, pois o cara já parecia bem descompromissado com qualquer tipo de agenda da indústria musical, especialmente depois que encerrou as atividades do Strapping Young Lad e partiu para uma sonoridade mais progressiva e inovadora.
No entanto, ao colocar “Empath” para rolar, consegui entender o que Devin vinha tentando dizer em entrevistas no youtube e no release do álbum – que parece um tratado ou manifesto informando que o que estamos prestes a ouvir é música pesada a partir de um enfoque diferente e inovador. E é exatamente isto que você deve esperar encontrar se ousar, como eu,ouvir este álbum.
“Castaway” e “Genesis” já começam dando o tom épico da jornada que nos aguarda, ainda bastante regada na paulada progressiva que acostumamos a ouvir nos trabalhos do DTP, com estouradas industriais que beiram os momentos dramático-pós-apocalípticos do Strapping Young Lad, ficando evidente o trampo que deve ter dado a pós-produção para chegar a este resultado coeso com tanta informação acontecendo ao mesmo tempo e, ainda assim, conseguindo reproduzir um refrão grudento, em que Devin canta: “Let there be light/Let there be moon/ Let there be stars/ Let there be you/ Let there be monsters/Let there be pain/ Let us begin to live again/From the top to the bottom/Genesis” (Que haja luz/Que haja lua/Que haja estrelas/Que haja você/Que haja monstros/Que haja dor/Deixe-nos viver novamente/Da base até o topo/Gênese”.
Para quem não sabe “Gênese” é o capítulo da Bíblia Sagrada que fala do começo do Mundo, de sua construção pelo Ser Divino. E, nessa nova etapa de sua carreira, Devin resolveu começar de novo e tornar sua musicalidade ainda mais complexa. Tudo se passa como se as barreiras entre os estilos musicais não existissem mais, servindo agora como texturas para que o artista possa criar, valendo-se de suas estruturas, sem limites.
Esqueça o conceito de banda, conjunto musical, orquestra: neste álbum são instrumentos musicais e vozes a serviço da criação, música composta em tom libertador, produzida e mixada pelo gênio fora da curva que sempre foi Devin Townsend, sendo que o álbum conta com trabalho de 3 bateristas diferentes, além do baixista Nathan Navarro e foi coproduzido por Mike Keneally e conta também com diversas participações especiais, como as de Steve vai, Anneke Van Giersbergen e da Elektra Women’s Choir, entre outros.
Fato é que, desde “Epicloud”, as composições do cara já vinham ganhando uma pegada religiosa, grandiosa, como se pela música ele tivesse, enfim, conseguido transcendência e conexão com o Divino – não à toa seu último trabalho se chamou “Transcendence”. E aqui, mais uma vez, a ligação entre a música e o sagrado, os elementos da natureza, a pura arte, é profundamente sentida.
Difícil citar destaques em um álbum que se eleva pela proposta em si e pelo tratado de produção vanguardista que acabou se tornando e, embora virtuosismo e técnica vocal/ instrumental sejam encontrados aos montes ao longo da obra, é o contato direto entre a música e as emoções do ouvinte que é buscado a todo momento, alcançando fortemente este intento na já citada “Genesis”, em “Sprite”, “Borderlands” e na instrumental “Requiem”.
“Singularity” é um espetáculo da primeira arte, um passeio épico por todos os estilos musicais, como se fosse possível uma passagem operística aos poucos ir se intensificando, ganhando corpo em blast beats, até se transformar em um esporro industrial que, graças a uma ponte de guitarra na linha Steve Vai se cadencia até chegar a um Progressive Metal super trabalhado, com quebradeiras jazzísticas que descem em uma espiral enigmática até cantos de coro doces e cristalinos – com pássaros ao fundo – deslizando para uma corredeira psicodélica eletrônica esquema trance, experimentalismo mecânico quase poético que descamba para free jazz atonal e se apronta para receber o peso das guitarras de Metal de volta, ao lado de instrumentos de orquestra, pousando em algo que podemos descrever como Industrial Metal, para, aos poucos, começar a completar seu ciclo, retornando ao refrão e melodia de onde se originou, cantando “So, through the meadows/Through the fields/Shine Forever/Shine for me/ “I Shine For You/If You Shine For Me/If you can’t shine for you, dear/Please shine for me” (“Então, através dos prados/através do campos/Brilhe para sempre/Brilhe para mim/Eu brilho para você/Se você brilhar por mim/Se você não pode brilhar por você/Por favor, brilhe por mim”), encerrando o álbum de maneira intensa, emocionante, como que em um êxtase espiritual. Impressionante.
Claro que surpreendente seria não se surpreender com um álbum de Devin Townsend, ainda mais quando este já parte de uma proposta de ruptura com a tradição musical totalmente inusitada, o que leva a audição deste material a resultados difíceis de adjetivar, experiência a que todos deveriam se submeter ao menos uma vez na vida.
Se esta resenha fez sentido para você, aperte o play e seja bem-vindo ao mundo de Devin!
Wallace Magri





