The Hu – “The Gereg” (2019)

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The Hu – “The Gereg” (2019)
Eleven Seven Music
#XamanicMetal#ModernMetal#WarMetal

Para fãs de: RammsteinHanggai

Nota: 10

Quando pesquisamos sobre a origem do Heavy Metal, as lições da imprensa histórica nos ensinam que foi em Birmingham, na Inglaterra, com o surgimento do Black Sabbath, por volta de 1968, dando contornos obscuros e densos ao rock and roll, blues e jazz que até então era praticado, como ficou evidente em seu álbum de estreia homônimo.

Realmente, esta resposta soa convincente, pois, antes deles, ninguém fazia nada parecido…será? O problema dessa resposta é que tem como ponto de partida a perspectiva eurocentrista de Mundo e, apegados aos fatos históricos que dão validade à ideia de que, antes da Europa emergir como centro cultural mundial, nada de relevante haveria acontecido neste campo, resolvem a questão do nascimento do Heavy Metal dentro dos domínios da cultura ocidental.

Só que tem um problema: a música é universal, pertence à cultura de todos os povos, logo, o Heavy Metal não tem sua existência determinada por uma explicação teórica que, convenientemente, coloca a Inglaterra como a descobridora de mais um tesouro da cultura das civilizações.

A música já pertencia aos homens antes da dominação europeia – houve tempos remotos em que os Mongóis se espalharam por toda a Euroasia, e suas conquistas territoriais eram enredadas por hinos de guerra, para unir todos os guerreiros em coro e insuflar em cada um deles a ideia de união e invencibilidade.

Imagina o tipo de som que rolava para deixar a rapaziada em ponto de bala antes da matança? Exato! Heavy Metal!!!! Em pleno século XIII, quando os Mongóis, unidos sob a espada de Genghis Kahn, mandavam na porra toda!!!

Se você tem alguma dúvida disso, basta escutar o álbum de estreia do The Hu, “The Gereg”, que recria os hinos de guerra e cantos religiosos daqueles tempos, com instrumentos típicos, aproximando-os do Heavy Metal à moda ocidental, ao acrescentar guitarra, baixo e bateria, em poucas medidas.

E chega a assustar como as músicas soam pesadas, densas, agressivas, tanto quanto o Heavy Metal que surgiu em Birmingham nos anos 60 do século passado!

A semelhança tem uma explicação: do mesmo modo que os Mongóis curtiam um Metal antes das batalhas, a Inglaterra também precisava de seus hinos durante as Guerras Mundiais e, pode ter certeza de que, quando você tem que abrir fogo contra nazistas, não é bossa nova que vai querer ouvir! O Metal do Sabbath, portanto, é o espasmo do pós-guerra que ecoava na Inglaterra desde os anos 50.

Aliás, não foi por outro motivo que, a partir dos anos 80, passaram a surgir bandas com temática bélica (Maiden, para citar apenas uma da era clássica, e Sabbaton, que leva esta aposta ao extremo) e, nos países nórdicos, surgiram dezenas de bandas na linha Viking Metal, celebrando a adoração a Deuses pagãos sob uma tradição folk local, que era utilizada para embalar as guerras e a comemoração das conquistas nos tempos antigos.

Voltando ao álbum, afora se tratar de Metal na essência, o clima é de ritual xamânico dos bons: as vozes têm a evidente finalidade de vibrar energias que conversam com espíritos, com a intenção de espantar presenças nocivas, naquele esquema “combatendo o mau com o mau”.

A audição do álbum nos proporciona momentos únicos, como curtir um hino de guerra do século XIII ao Deus “Shoog, Shoog”, tornado em um Metal eletrônico (sem parafernália eletrônica, só com percussão, instrumentos típicos e vozes) na linha do Rammstein!

“Wolf Totem” é um petardo sombrio, além de sua letra ser um ícaro xamânico, verdadeira invocação ao animal que vibra no astral de cada pessoa, pregando a união e proteção coletiva contra os inimigos, em ritmo marcial pesado! Também há louvação à força feminina em “Song Of Women”, que sempre deve ser celebrada em qualquer ritual que se preze, pois é a energia da criação, da vida, da mãe natureza.

E assim, ao som de violinos (do jeito deles) e demais instrumentos de cordas, fecham um álbum que também nos ensina que é do contato com a natureza e treinando a capacidade de drenar dela seu conhecimento, com intuição e sensibilidade, que a transformamos em autêntica cultura, como as belas músicas que fazem parte deste álbum.

Toda essa leitura que eu fiz sobre cultura, universais dos povos e suas semelhanças, foi feita com base na Antropologia Estrutural de Levi-Strauss, um autor francês que circulou aqui pelo Brasil em meados do século passado e que, em suas obras, derruba todas as teorias fundadas no eurocentrismo – que entendem que a civilização europeia superou as civilizações anteriores com seu conhecimento racional e científico.

Basicamente para esse autor, a cultura não é uma negação da natureza, mas uma produção a partir dela. Ele não se preocupa com as particularidades de cada grupo humano: seu objetivo não é conhecer uma sociedade específica, mas o que há de universal em todas elas, tais como música, guerra e hinos de guerra – de onde definitivamente surgiu o Heavy Metal, em tempos imemoriais.

É isso mesmo. O Heavy Metal sempre existiu e é universal, por isso, seja no formato que é embalado atualmente, seja por outra abordagem, podemos descansar em paz, pois nosso estilo musical favorito faz parte da história dos povos, portanto nunca vai morrer!

Wallace Magri

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