
Yngwie Malmsteen – “Trial By Fire: Live in Leningrad” (1989)
Polydor
#HardRock
Para fãs de: Axel Rudi Pell, Michael Schenker, Ritchie Blackmore
Nota: 9,5
Você sabia que o rock já foi proibido? Entre 1964 e 1966, Cuba o proibiu, alegando que os Beatles eram agentes do imperialismo capitalista. Na União Soviética, por mais que não houvesse uma proibição oficial, discos de bandas estrangeiras simplesmente não eram lançados, alimentando o mercado negro, cuja herança permanece até hoje através das edições russas não oficiais, muitas vezes vendidas como originais – inclusive por desavisados ou mesmo mal-intencionados lojistas brasileiros.
Curiosa e aparentemente, no auge da Guerra Fria, a Polygram havia negociado os direitos de “Trilogy” (1986), terceiro álbum de Yngwie Malmsteen, para a estatal russa Мелодия – única gravadora autorizada a operar no Leste Europeu depois de 1964 – por míseros 3 mil dólares, e o disco vendeu 14 milhões de cópias, conferindo ao guitarrista um status de superastro por aqueles lados. Malmsteen não recebeu um centavo por isso, mas seu então empresário, Nigel Thomas, achou que seria uma boa ideia capitalizar em cima disso através de uma turnê.
Antes da queda do Muro de Berlim, era muito difícil para artistas ocidentais se apresentarem na União Soviética – mesmo grupos locais tinham de passar por censores. Ainda assim, em janeiro de 1989, Yngwie e sua banda – Joe Lynn Turner (vocais), Barry Dunaway (baixo e vocais) e os irmãos Jens (teclados) e Anders Johansson (bateria) – desembarcaram na capital Moscou, rumo a uma estada de cerca de dois meses na qual realizariam vinte shows – nove na SKK Arena em Leningrado (atual São Petersburgo) e onze no Estádio Olímpico Lujniki –, todos com ingressos esgotados, com um público total de 240 mil pessoas – o maior já registrado para um artista na história da URSS.
No último desses shows, em 10 de fevereiro, seria gravado o ao vivo “Trial By Fire”, cujo lançamento completa trinta anos em 2019. O repertório original sofreu baixas tanto na edição em LP (menos quatro músicas e meia – a fatia dedicada a “Trilogy Suite Op. 5” no “Guitar Solo” é limada no bolachão –) quanto na em CD (menos três), o que faz com que a abertura “Rising Force”, “Fury” e “Riot in the Dungeons” constem apenas no vídeo da apresentação. Alguns overdubs são notáveis, sobretudo em “Far Beyond the Sun”, onde uma segunda guitarra brota misteriosamente na mixagem.
Com o intuito de promover “Odyssey” (1988), que subia nas paradas conforme o clipe de “Heaven Tonight” recebia o devido destaque na programação da MTV – não que os russos fizessem a menor ideia disso –, Malmsteen toca mais da metade do álbum. De “Trilogy”, à dobradinha “Liar” e “Queen in Love”, que abre os trabalhos no CD e no LP, soma-se a melhor versão de “You Don’t Remember, I’ll Never Forget” de que se tem registro. Na reta final, a instrumental “Black Star” antecipa “Spanish Castle Magic” (encurtada no vinil), uma das muitas homenagens que o sueco fez a Jimi Hendrix ao longo de sua carreira.
Uma vez de volta para os Estados Unidos, Yngwie formaria uma nova banda contando apenas com músicos suecos, incluindo o exímio vocalista Goran Edman, colocando um ponto final nesta que, a despeito do que ele diga hoje em dia e na autobiografia “Relentless”, considero a melhor fase de sua trajetória.
Marcelo Vieira





