
Ayreon – “Transitus” (2020)
Inside Out Music
#ProgressiveMetal, #ProgressiveSymphonicMetal
Para fãs de: The Gentle Storm, Symphony X
Nota: 10
O mundo do anime cunhou o termo “fan service” para se referir a elementos que são incluídos em uma obra de arte com o simples objetivo de divertir e atrair a audiência. Primo próximo do termo, o “vamos dar ao povo o que ele quer” parece ser a real missão de Arjen Lucassen em “Transitus”, novo disco do Ayreon, o metal opera criado pelo holandês que dessa vez apostou pesado na nova geração: nada menos do que a dupla de protagonistas do enredo Abby e Daniel é interpretada por Cammy Gilbert (Oceans of Slumber) e Tommy Karevik (Kamelot).
O imenso cast ainda conta com Dianne Van Gierbersen (Ex Libris) e veteranos como Dee Snider (Twisted Sister) e os guitarristas Joe Satriani e Marty Friedman. Ao longo de uma dezena de álbuns, o grande mérito de Lucassen foi desenvolver uma estética própria sólida e diversificada. Isso faz com que “Transitus” transite (com o perdão do trocadilho) por ambientes com compassos complicados e camadas de diferentes timbres de sintetizador e também navegue por águas mais tranquilas. No mundo do progressivo, o povo quer pão e circo, mas por que não pode ser um brioche francês e um Cirque du Soleil?
“Fatum Horrificum” inicia a história com seus 10 minutos que contam a tragédia do casal principal da trama. Sua introdução crescente e cheia de coros já mostra várias das cartas que Arjen costuma jogar. “Listen To My Story” apresenta outro personagem importante para a trama: Simone Simons (Epica) que encarna o Anjo da Morte. A música traz um quê de Danny Elfman / Tim Burton que fica na conta do inusitado mesmo se tratando de Ayreon.
Um pouco mais na frente, uma das melhores do disco: “Talk Of The Town”, com uma introdução estilo bardo na caverna – com flautas e cravos, e um refrão que curiosamente lembra a estrutura de “Dawn of a Million Souls”, o maior clássico do Ayreon. Esse meio do tracklist ainda revela outras duas obras-primas: “Dumb Piece of Rock” (aula de como o prog pode ser chiclete) e “Get Out Now!”, possivelmente a melhor, contando com ninguém menos do que Dee Snider e Karevik nos vocais e um solo maravilhoso de Joe Satriani.
A história avança e ainda tem espaço para mais fan services do bem, como “Condemned Without A Trial” e suas flautas andinas/indígenas bem conhecidas do fandom, e “Daniel´s Funeral” trazendo Dianne para o holofote. Mais para o final, “Message From Beyond” vem com outro excelente riff de Arjen, embora esse pareça um pouco com “Twisted Mind” do seu “rival” Tobias Sammet, do Avantasia.
Uma grande característica de Arjen e que ficou clara em “Transitus” é sua capacidade de reinterpretar o próprio riff ao longo da música, tocando de várias formas com instrumentos diferentes e trazendo assim um arranjo dinâmico. O ponto negativo é a constante presença do narrador que quebra um pouco a congruência entre as faixas, o ideal seria ter uma versão do disco com e sem a narração, como muitas bandas já fazem.
“Transitus” mostra Arjen Lucassen em plena forma e com a criatividade no talo. Toda essa musculatura desenvolvida o gabarita para recrutar sempre os melhores músicos e todas as gerações, fazendo com que o resultado seja ao mesmo tempo heterogêneo e coeso, pois a paternidade do mestre holandês pode ser atestada em todas as faixas e propostas do disco. Com fan service ou não.
Gustavo Maiato





