Entrevista com Nick Holmes (Paradise Lost)

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ENTREVISTA COM NICK HOLMES (PARADISE LOST)

Dezesseis álbuns lançados, mais de três décadas de serviços prestados à boa arte e ainda forte, relevante e camaleônico –, a inquietação é gene dominante na carreira dos ingleses do Paradise Lost, vide as tantas versões de si mesmo que a banda possui. De discos clássicos à experimentais, seminais e corajosos – toda uma trajetória marcada pela ousadia de ver e ir além do óbvio e estereotipado. “Obsidian”, o seu novo disco sublinha uma volta às origens e foi justamente sobre esse retorno e uma breve visão sobre o passado que conversamos com o vocalista Nick HolmesSejam todos bem-vindos ao mundo cinza, miserável e encantador do Paradise LostBoa leitura.

Por Gustavo Maiato
Colaboração: Fábio Miloch e William Ribas
Tradução: Matheus Magri
Diagramação e Header: Johnny Z.

Fotos divulgação/Facebook da banda

Metal Na Lata: Trinta e dois anos de carreira e ainda somos surpreendidos pelo Paradise Lost, “Obsidian” é um disco poderoso, e que remete a diversas fases da banda. Há músicas intensas, obscuras, de caráter introspectivo e outras mais melódicas e acessíveis. Como é para vocês, mesmo depois de tanto tempo, entrar em estúdio e criar algo novo, ainda relevante e tão característico?

Nick Holmes: Bom, nós tivemos um período de reflexão em que pudemos olhar para nosso último álbum e tivemos um certo tempo de amadurecimento, não é como se tivéssemos que lançar algo novo todos os anos, embora já o tenhamos feito no começo da banda. Sim, nós usamos o último álbum como uma forma de inspiração para nos guiar em nosso novo rumo, tanto que nós começamos a escrever o novo álbum a partir da música “Fall From Grace” que foi basicamente uma reminiscência do que tivemos no ultimo álbum, acredito eu. E daí nós seguimos em frente, no nosso próprio tempo de criação também, não compomos de forma rápida, tiramos um bom tempo para nós mesmos até que eventualmente chegamos onde estamos agora e etc.

 

Metal Na Lata: Nos trabalhos anteriores: “The Plague Within” (2015) e “Medusa” (2017), houve um resgate da sonoridade antiga, aliás uma maior concentração na mesma. Esse “retorno” foi algo natural, planejado ou foi um desejo que evoluiu de álbum para álbum?

Nick Holmes: Não foi algo repentino. Acredito que não tenhamos focado exatamente em fazer os álbuns dessa maneira. Não sei se poderíamos tê-los escrito logo após o “Paradise Lost”. As coisas mudam conforme os anos passam e é como eu disse, tiramos três ou quatro anos entre os lançamentos, regularmente. Mas ainda assim temos tempo para refletir e olhar para onde estamos e o que estamos fazendo e temos os shows também, lidamos com várias multidões e assim temos uma perspectiva de como as músicas, tanto antigas como as novas estão os fãs estão curtindo mais. E vemos que, felizmente, algumas músicas atuais vão tão bem quanto as mais velhas e tudo meio que passa a fazer parte de você.

 

Metal Na Lata:  “Obsidian” vem obtendo boas críticas e uma ótima aceitação público e mídia vem julgando o mesmo como sendo um dos melhores registros da carreira. Ainda existe alguma apreensão ou receio de como o mesmo será recebido e de como será que os fãs reagirão ao ouví-lo?

Nick Holmes: Sim, claro quero dizer, nós trabalhamos como nossos próprios críticos e somos sempre os primeiros a notar quando algo soa errado, ou soa de forma estranha ou faltando algo e sempre somos muito exigentes conosco mesmos. Nós esperamos que as pessoas gostem das músicas que lançamos e para isso é necessário que tais lançamentos tenham a nossa aprovação. Então para nós a opinião do público é bastante importante, sabe como é, constantemente vemos criticas tanto positivas quanto negativas na internet seja para qualquer coisa, incluindo a sua vida. Tudo é monitorizado e julgado atualmente. De todo modo, se você acredita verdadeiramente em algo que você faz, já é um ótimo começo.

 

Metal Na Lata: O título pode ter várias interpretações e uma delas, é a alusão a uma rocha vulcânica de cor negra e profunda. Ouvindo o mesmo, temos diversos momentos que remetem ao Fields Of The Nephilim e ao The Sisters Of Mercy, à obscuridade do gótico. A escolha de “Obsidian” pode ser entendida como um retorno (momentâneo) ao estilo do “Gothic” de 91?

Nick Holmes: Inicialmente nós apenas gostamos bastante do título do álbum, éramos muito fãs dessa era da música sabe? E particularmente, de um ponto de vista retrospectivo, o estilo gótico dos anos 80 era o que nós ouvíamos quando adolescentes e muito desse estilo é bastante ‘Hardcore’ no que se refere à postura dos músicos. Sem dúvidas, o estilo de música gótico sempre foi algo muito especial para mim. Talvez eu até prefira escutá-lo atualmente do que quando era mais novo. Além disso, a música gótica se encaixa muito bem com o Death Metal também, tudo funciona juntamente. E também, quando começamos, possivelmente no segundo álbum que gravamos, combinamos Death Metal e música Gótica e o resultado foi esse exato álbum, “Gothic”. Então esse tipo de coisa sempre esteve como pano de fundo, acredito eu, é algo que sempre gostamos e sempre gostaremos.

 

 

Metal Na Lata: As letras são intensas, amargas e de uma realidade difícil de se assimilar, logo, que nem todos são capazes de conviver ou aceitar a mesma. Quais foram os fatores que influenciaram no teor e no tom mais severo e desolador que elas exibem?

Nick Holmes: Para mim as letras são mais um componente do álbum, eu jamais as tiraria das músicas pois elas formam uma outra camada por cima do que você esta escutando, são uma dimensão a mais para o som, comparável até a um solo de guitarra. Para mim, as letras são a mesma coisa que os vocais, elas têm de entrar em determinados momentos e você tem que achar as palavras que funcionam com o riff, as sílabas certas. Para mim a música é um escape não necessariamente sobre a vida real, talvez uma metáfora para ela, mas já existem coisas o suficiente ao seu redor para te lembrar dela e por isso gosto de dar uma viajada de vez em quando para um mundo diferente e a música me ajuda com isso. Mas claro que existem experiências alheias que dizem sobre como enfrentam o leito de morte e como se sentem os indivíduos nas mudanças que passam no rumo da vida, que também são bem interessantes, talvez porque o aspecto psicológico da vida sempre será fascinante de se escrever sobre. Mas eu me vejo como uma pessoa mais aberta, não gosto de escrever sobre apenas uma coisa, mas sim sobre várias e enxergar a vida de um ponto de vida artístico, sabe?

 

Metal Na Lata: A lógica de qualquer banda é compor, gravar, lançar, divulgar e fazer shows, visto que são nos shows que os fãs sentem as músicas, absorvem as ideias do disco e indicam o grau de aceitação do novo material. Devido a pandemia os shows ficaram inviáveis, como vocês estão traçando os planos de promoção do disco? Aliás, como farão para manter a banda em evidência neste momento tão delicado?

Nick Holmes: Estamos em uma situação pela qual todos de todo o mundo estão passando, não só o povo da Inglaterra por mais que seja um dos piores casos mundiais da doença. Não é como se fosse algo exclusivo daqui, é um problema mundial então eu acredito que o mercado da música como um todo esteja em uma fase de pausa atualmente. E assim que tenhamos o sinal verde será uma loucura principalmente para os shows ao vivo, acho que será uma confusão sabe? Também acho que os shows serão a última coisa que veremos sendo permitida. Então acho que será um jogo de paciência e ninguém está ficando para trás, pois acho que nenhuma banda esteja fazendo nada também então acho que até lá tudo o que podemos fazer é depender das lives, que por mais que não seja um substituto digno dos shows ao vivo, na abstinência é o que temos disponível e já é algo positivo para nós.

 

Metal Na Lata: Saindo do contexto banda/álbum, nos últimos meses estamos vivendo dentro um turbilhão de emoções – desinformação, ignorância e uma vez mais a humanidade se divide entre confiar na ciência ou acreditar cegamente na religião. A banda abordou esse tema no disco “Faith Divides Us – Death Unites Us”. Para vocês ter uma mensagem ou um ponto de vista a ser passado através da música é importante?

Nick Holmes: Na verdade não, sabe? Eu posso escrever a partir do ponto de vista de outras pessoas, os quais acho interessantes. Tenho minhas próprias crenças, mas muitas delas podem ser mudadas com o tempo. Existem certas coisas que eu sei que eu levarei para o meu túmulo, como por exemplo gostaria de pensar que serei um ateu até o dia que morrer, mas quem sabe o que pode acontecer? Provavelmente nada mudará, provavelmente me manterei ateu até morrer, mas não posso dizê-lo de forma categórica, com cem por cento de certeza que é o que irá acontecer. Acredito no que posso ver diante de mim, aquilo que posso sentir e cheirar, mas admiro aqueles que têm fé em outras coisas nas quais eu não acredito sabe? Quero dizer, todos são diferentes, pessoas são interessantes. Elas não têm que ter meus princípios para se tornarem interessantes. Então não, não tenho uma mensagem. Não estou ai para pregar para ninguém, entende? Qualquer que seja a crença que faz de você uma pessoa melhor e não prejudique ninguém mais, já é algo positivo, mas não quer dizer que eu acredite no mesmo sabe? 

 

Metal Na Lata: Uma pergunta que sempre tive vontade de fazer. Cada um dos lançamentos, sejam recentes ou antigos, trazem a banda com uma postura inquieta, visionária e até experimental. O Paradise Lost impõe limites para sua música? E afinal, o que motivou vocês a comporem o controverso, “Host”?

Nick Holmes: Naquele tempo, antes dele, nós havíamos gravado o álbum “One Second”, que já era bem diferente dos anteriores, nós entramos numa fase em que começamos a pensar no tema musical da tristeza por outro ponto de vista, com um tom mais melancólico neste álbum. Sentíamos que seria possível expressar mais tristeza na música sem guitarras e baterias rápidas e gritantes sabe? Nós meio que experimentamos esse tom, visitamos uma área diferente. Mas não quer dizer que não possamos voltar àquela área ou experimentar novas, as coisas vão e vem, ainda gosto muito deste álbum. Mas realmente não é um álbum de Metal, e naquela época isto se tornou um grande problema para várias pessoas, claramente.

 

Metal Na Lata: Então você ainda gosta de seus discos antigos?

Nick Holmes: Não é bem como se eu gostasse é como se fossem marcas registradas do nosso passado. Não tenho uma opinião muito formada sobre eles, algumas músicas acredito que sejam boas outras tipo, tanto faz. Mas sim, “Host” é um disco excelente, um dos nossos melhores e considerando nossa idade, acredito que soamos mais maduros naquele álbum.

 

Metal Na Lata:  O que vocês queriam provar com álbuns como “Gothic”, “Shade of Gods”, “Icon” e “Draconian Times”?

Nick Holmes: Não sei bem, é como eu disse, você grava um álbum e então vê o que acontece e daí você grava mais um, e por aí vai. E foi mais ou menos o que fizemos nos últimos 32 anos. Quero dizer, passamos por várias mudanças individuais como quando tivemos filhos pela primeira vez entre outras mudanças nas nossas vidas pessoais. Então, para mim, a maioria dos álbuns, quando os escuto são como marcas que dizem muito sobre onde eu estava em um nível pessoal. Mas é complicado dizer o que estava acontecendo ou o porquê os gravamos, nós basicamente éramos fãs de Metal e decidimos gravá-los, esta é a resposta simples.

 

Metal Na Lata: Muito obrigado pela entrevista, por favor deixe uma mensagem aos seus fãs brasileiros.

Nick Holmes: Claro, não conseguiremos ir para o Brasil esse ano, mas já tocamos aí várias vezes e esperamos voltar em 2021. O novo disco já saiu espero que gostem e fiquem atentos nas informações para nos assistirem ao vivo.  Take it easy!

 

Mais informações:

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