
Paradise Lost – “Obsidian” (2020)
Nuclear Blast | Shinigami Records
#GothicMetal, #DeathMetal, #DoomMetal
Para fãs de: My Dying Bride, Moonspell, Novembers Doom, Tiamat
Nota: 10
Pouquíssimas bandas conseguem ser tão únicas e tão distintivas como o Paradise Lost, sua predicada e versátil razão musical sempre esteva à frente – há galáxias de distância de seus pares, seja nas épocas primárias, atualmente ou no meio do percurso. Sua discografia é composta não por álbuns, mas por experiências, onde cada lançamento tem uma lógica, uma postura e uma natureza, que mesmo sendo, por vezes laboratorial, jamais foi vazia.
Discos como “Lost Paradise”, “Gothic”, “Shades Of God”, “Icon”, “Draconian Times”, e até mesmo o não tão bem compreendido, “Host”, soam como retratos da evolução do banda, em seu tempo e lógica, nunca deixando sua coesão de lado, desbravando sempre e sem amarras estilísticas.
Nick Holmes e seus cúmplices sempre nutriram um caráter camaleônico, se bem quisto pela mídia e fãs, bem, ficava critério dos mesmos – amar ainda mais a banda ou despreza-la por completo, e talvez, o seu único pecado seja esse, elaborar álbuns maiores que eles próprios, que iam além do entendimento de sua época.
Quem nunca ouviu ou quem nunca não soltou frases do tipo: “quando esse disco saiu eu odiei, hoje adoro ele”?
“Obsidian” é seu décimo sexto álbum em 32 anos de carreira e nele temos o Paradise Lost de sempre, que na verdade em momento algum foi sempre o mesmo. O disco descortina a banda em toda sua maturidade, ainda amarga e eclética, gozando de sua liberdade e relevância, mostrando uma vez mais o porquê de ser tão cultuada e respeitada.
Ao longo de seu percurso, pouco mais de cinquenta e cinco minutos, ouvimos os ingleses num passeio por quase todas as suas fases e também por suas influências.
O peso soturno dos álbuns de retorno à velha forma é presença constante. “Tragic Idol”, “The Plague Within” e “Medusa” fornecem a tônica rebuscada, os
climas tétricos a constância do disco, mas ainda há espaço para que texturas do passado surjam, como por exemplo em “Ghosts e “The Devil Embrace” – já que ambas possuem ecos de Fields Of The Nephilim e The Sisters Of Mercy.
Embora sejam faixas estupendas, “Obsidian” vai um pouco além da paixão óbvia, “Darker Thoughts”, por exemplo, cresce de uma sutil delicadeza acústica até explodir numa das faixas mais poderosas do álbum – refrão forte, letra amarga e transmissiva, e um Nick Holmes amadurecido, indo da suavidade ao áspero e profundo. “Fall From Grace”é a porção Doom Metal do disco e lembra, curiosamente, o My Dying Bride.
“Forsaken” e “Serenity” são faixas tão envolventes e únicas, que parecem extrações perdidas dos álbuns da banda nos anos 90, cores sombrias e ares joviais.
“Ending Days” é introspectiva e atmosférica, mas em sua letra temos uma mensagem cabível aos dias de hoje: “Não nos importamos até a hora de morrer, nos dias finais, harmonizaremos”.
“Hope Dies Young” equilibra o Gothic Metal junto ao Gothic Rock, memorando Moonspell, Tiamat e Type O Negative, por fim, “Ravenghast”, mais uma miserável dose do que é o Paradise Lost, de sua importância e versatilidade – Waltteri Väyrynen (bateria), Steve Edmondson (baixo) e Aaron Aedy (guitarra base) são absurdos em suas posições e em todas as músicas; monumentais quando necessário, simplistas e leves quando a música assim os quer. Quanto ao maestro, Gregor Mackintosh, bem ele não é uma referência do gênero sem justificativas, basta ouvir seus solos e melodias, suas harmonizações, que por vezes soam como uma segunda voz à música, uma segunda guia dentro da mesma, numa linguagem entre a melodia, o refinamento e fluxos de criação.
“Hear The Night” e “Defiler” são bônus da versão em digipack, ambas mantém a dinâmica do disco, tanto no peso, quanto na estrutura e na paleta magnífica e ideal de taciturnidade.
“Obsidian” é o Paradise Lost sendo Paradise Lost, e ainda assim, sem nunca ser mesmo de antes – seu novo disco estampa essa eterna reformulação, essa eterna inquietação e essa eterna busca por uma rara forma que não possui moldes, “Obsidian” é amargo e doce, coerente e eclético, obscuro e profundo como a alma de seu criador.
Fábio Miloch





