
Banda principal: Rotting Christ
Banda de abertura: Total Death
Local: Teatro Odisséia, Rio de Janeiro/RJ
Data: 30/05/2019
Produção: OnStage Agência
Texto por Marcelo Vieira
Fotos por Gustavo Maiato
Sob muitos aspectos, a mais recente passagem do Rotting Christ pelo Rio de Janeiro foi marcada por estreias: além de inaugurar o presente giro dos gregos pela América Latina, a apresentação realizada na última quinta-feira, no Teatro Odisseia, foi a primeira da nova formação do grupo, como veremos mais adiante.
Com a casa ainda meio vazia, os fãs se revezando entre o balcão do bar e o estande de merchandising, os equatorianos do Total Death subiram ao palco meio que no susto e não levaram mais do que os quase sete minutos de “Intento” para cair nas graças de um público que muito provavelmente só soube de sua existência através do nome impresso no flyer do evento. O que impressiona, dada a proximidade geográfica, e comprova a minha análise de que há no headbanger médio brasileiro certo preconceito com metal cantado em espanhol.
O som é, em sua essência, death metal, mas os climões, as cadências, os teclados de ambiência e o que pode ser considerada uma abordagem negativa em relação à vida — todas as letras falam sobre dor, tristeza, ódio e sofrimento — conferem um invólucro de doom que casa perfeitamente com o desespero da interpretação do vocalista e guitarrista Ider Farfán. Na bateria, o outro fundador do grupo Danny Molina mostra que a semelhança com Vinny Appice não é meramente visual. O baixista Carlos Moreno e o segundo guitarrista José Santelices completam a formação da minha melhor descoberta em termos de música pesada feita nos últimos tempos.
No repertório, uma ênfase óbvia a “Inmerso en la Sangre” (2015), cuja versão física podia ser adquirida por módicos R$ 30 e autografada logo em seguida. Surpreendeu não terem tocado nada de “Sorrowful and Immaculate Heart” (2018), seu mais recente trabalho, mas, de qualquer forma, o saldo da quase uma hora que passou voando foi tremendamente positivo — ao contrário do que o título das músicas abaixo possa fazer vocês suporem!
Setlist Total Death:
Intento
Olvida
Cenit de la Esperanza
My Suicide Light
Has Visto
Insano
Nunca
O ano de 2019 vem sendo movimentado para o Rotting Christ. Seu novo trabalho, “The Heretics” (leia a resenha aqui), chegou em fevereiro. Lançado em tudo que é formato, o décimo terceiro álbum do grupo veio acompanhado da maior ação de marketing já realizada pela Season of Mist, que incluiu um lyric video para cada faixa, além de camisetas, patches e toda a sorte de bugigangas que nós, colecionadores, não nos furtamos do prazer de adquirir. Pouco antes de cair na estrada, uma baixa: o guitarrista George Emmanuel. Encerrada a primeira etapa da turnê, mais uma saída: desta vez, foi o baixista Vagelis Karzis a pular fora.
Ou seja, o que o Rio de Janeiro testemunhou foi a estreia ao vivo da nova formação do Rotting Christ. Sob a batuta dos irmãos Sakis (vocais e guitarra) e Themis Tolis (bateria), o quarteto entregou o mesmo repertório que vem sendo tocado desde a abertura do giro para promover “The Heretics” — na verdade, faltou “Demonon Vrosis”, limada sem qualquer explicação. Deste, que já é um dos melhores discos de 2019, foram três: o mantra inicial “Hallowed Be Thy Name”, “Fire, God and Fear” — com o novo guitarrista Jonkal reproduzindo nota a nota o excelente solo da música — e “Dies Irae”, um clamor de repúdio ao deus cujo amor não condiz com sua tirania.
Um gás especial foi dado ao material dos dois anteriores da banda. Tanto “Κατά τον δαίμονα εαυτού” (2013) como “Ritual” (2016) tiveram três representantes, com destaque positivo para a faixa título do primeiro — nomeada a partir da máxima de Crowley “Faz o que tu queres” cuja eficácia na música já foi comprovada até por Raul Seixas — e para “Grandis Spiritus Diavolos” e negativo para “Ἐλθὲ κύριε” (convertida na primeira roda de pogo da noite, um pedido do próprio Sakis) e “Ἄπαγε Σατανά”, cuja levada tribal mais se assemelha a uma tentativa macabra de dança da chuva que a algo que o que considero o mais inventivo compositor do black metal mundial da atualidade seria capaz de fazer.
Com praticamente 2/3 do tempo tomado por material “novo”, a lacuna de velharias foi preenchida por aquelas que “não dá pra não tocar” / aquelas que os saudosistas da fase black metal raiz, sem os acentos melódicos mais recentes, idolatram com a mesma intensidade que repudiam a evolução: “The Forest of N’Gai”, “King of a Stellar War” e o já aguardado cover de “Societas Satanas”, do lendário Thou Art Lord. E tome mais pogo! O encerramento com “Under the Name of Legion” (de “Genesis”, 2001) consistiu no ponto fora da curva: até seu anúncio, era como se mais de uma década não tivesse existido e não houvesse a necessidade de honrar o período de tempo que nos agraciou, entre outras coisas, com “Theogonia” (2007), até hoje, o melhor trabalho do Rotting.
No bis, a dobradinha “The Sign of Evil Existence” e “Non Serviam”. Previsível? Sim. Épico? Com certeza. Queríamos mais? Óbvio.
Muito obrigado à On Stage Agência pelo credenciamento e pela parceria.
Setlist Rotting Christ:
Hallowed Be Thy Name
Κατά τον δαίμονα εαυτού
Fire, God and Fear
Ἐλθὲ κύριε
Ἄπαγε Σατανά
Dies Irae
The Forest of N’Gai
Societas Satanas (Thou Art Lord)
King of a Stellar War
In Yumen-Xibalba
Grandis Spiritus Diavolos
Under the Name of Legion
Bis:
The Sign of Evil Existence
Non Serviam






























