
Rotting Christ – “The Heretics” (2019)
Season of Mist | Urubuz Records
#BlackMetal
Para fãs de: Batushka, Behemoth, Marduk
Nota: 9,0
Curiosamente, na mesma semana que assisti a pataquada que é “Lords of Chaos”, fiz um intensivão em “The Heretics”, novo álbum dos gregos do Rotting Christ e mais recente lembrete da superioridade dos irmãos Sakis e Themis Tolis e quem mais os estiver acompanhando em relação aos seus pares escandinavos no que diz respeito ao satanismo posto em prática: ao contrário de incendiar igrejas e pagar de malvadão na mídia, o Rotting Christ bota lenha na fogueira da pertinente discussão acerca do papel das religiões organizadas no mundo, visando a mostrar como a fé, sobretudo cristã, mas também todas aquelas suscetíveis ao fanatismo, podem ser nocivas. Tal como em LaVey, glorifica-se aqui a ideia de liberdade individual.
Para compor “The Heretics”, o genial Sakis mergulhou fundo na obra dos grandes hereges da história; de John Milton e Thomas Paine a Shakespeare, Dostoiévski e Edgar Allan Poe; homens que, ao seu tempo, foram considerados inimigos de Deus tão somente por questionarem os métodos empregados pelos autoproclamados servos do Todo-Poderoso. “Aqueles que o podem fazer acreditar em absurdos, podem fazê-lo cometer atrocidades”, diz a máxima de Voltaire nos segundos iniciais de “Fire God and Fear”. A música, primeira prévia liberada de “The Heretics”, consiste na melhor performance do grupo desde “Keravnos Kivernitos”, e impulsiona o novo álbum para o lugar mais alto do pódio na irretocável coleção dos gregos, ao lado de “Theogonia” (2007), que merecidamente faturou tudo que é prêmio no ano de seu lançamento.
Outros destaques: “In the Name of God”, “Hallowed Be Thy Name” e “Dies Irae”, a Cólera de Deus que no Magic destrói todas as criaturas em jogo e na crença condena os pecadores ao fogo do inferno. Por falar em fogo, este aparece em oito das dez letras. Faz sentido, se pensarmos que o mesmo elemento que aquece e ilumina também destrói; que a fogueira que agrupa pode se tornar a pira que dispersa. “E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos.” Podia ser Crowley, mas é São Mateus. Amargo, não?
Musicalmente, estruturas básicas deixadas meio que de lado na última década, quando acréscimos multiculturais foram explorados à uma litigiosa exaustão – sobretudo em “Rituals” (2016) -, são revisitadas. Mais guitarras, mais simplicidade – outra coisa que não se ouvia há uns bons dez anos – e o vocal sempre cavernoso acrescido dos cantos gregorianos e vocalizações femininas mais macabros do metal são mais alguns dos ingredientes que compõem essa trilha sonora ideal para se cruzar o Estige de ponta a ponta. Que o barqueiro do inferno toque no volume máximo. Gloria Patri!
Marcelo Vieira





